Michael Collins, o astronauta "esquecido" da Apollo 11

Por ter ficado sozinho em órbita no módulo de comando, por vezes incomunicável, enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisavam a Lua, Collins ganhou também a "alcunha" de o homem mais solitário da Humanidade. Morreu esta quarta-feira aos 90 anos.

Enquanto o mundo olhava espantado para as imagens de Neil Armstrong e Buzz Aldrin a saltitar na superfície da Lua, naquele dia 20 de julho de 1969, Michael Collins estava em órbita, a quase 100 km de distância dos dois companheiros, dentro do módulo de comando da Apollo 11. O piloto integrou a primeira missão da NASA a colocar homens na Lua, mas nunca pôs o pé no satélite natural da Terra, o que lhe valeu ficar para a histórica como o astronauta "esquecido".

"Mike sempre enfrentou os desafios da vida com graça e humildade, e enfrentou este, seu desafio final, da mesma maneira", escreveu a família Collins na sua conta no Twitter, confirmando a morte do astronauta ontem, aos 90 anos, de cancro. E num comunicado, a família destacou "a sua inteligência aguçada, o seu sereno sentido de dever e o olhar de sabedoria adquirido ao voltar à Terra do espaço e ao observar as águas calmas do seu barco de pesca".

"Meu caro Mike, onde quer que tenhas ido, terás sempre a chama para nos transportar com habilidade a novos céus e ao futuro. Sentiremos a tua falta. Descansa em paz", saudou o seu companheiro Buzz Aldrin, último membro ainda vivo da Apollo 11.

Naquele dia de 1969, enquanto Armstrong e Aldrin cumpriam as tarefas no solo - entre recolher rochas lunares e colocar a bandeira dos EUA - Collins estava em órbita sozinho, empenhado em manter o módulo a funcionar enquanto percorria as 117 páginas do plano de contingência que preparara para o caso de algo correr mal.

"Vão com calma , meninos", lançou pelo rádio aos companheiros, que tinham seguido a caminho da Lua a bordo módulo lunar Eagle. A maior parte do tempo, Collins estava em comunicação com os controladores de voo da NASA, mas quando passava pelo lado oculto da Lua, ficava completamente incomunicável - um facto que lhe valeu outra "alcunha", a do homem mais solitário de toda a humanidade. Numa entrevista à rádio NPR, em 2016, Collins garantiu que, n verdade, não foi essa a sensação que teve. "O facto de estar...incomunicável, além de ser um pouco assustador, era uma alegria porque conseguiu que o Mission Control [o pessoal que estava em terra a controlar a missão] se calasse um bocadinho. De vez em quando".

Mais tarde, Collins diria que daquelas horas sozinho a recordação que mais lhe ficou foi "a vista do planeta Terra à distância. Minúsculo. Muito brilhante. Azul e branco. Belo. Sereno e frágil".

Nascido a 31 de outubro de 1930 em Roma, filho de um diplomata, Collins tornou-se piloto de testes do Exército dos EUA. Na década de 1960, acumulou muitas horas de voo no espaço, especialmente durante as missões Gemini.

Depois do regresso triunfante da Lua, Collins, tal como Aldrin e Armstrong, rapidamente deixou a NASA e seguiu uma carreira pública prolífica. Foi nomeado subsecretário de Estado para os Assuntos Públicos pelo presidente Richard Nixon. Em seguida, dirigiu a construção do National Air and Space Museum em Washington, assumindo sua presidência entre 1971 e 1978. Posteriormente, tornou-se consultor e escreveu livros relacionados com a aventura espacial.

Apesar da idade, Collins foi, nos últimos anos, o mais ativo dos veteranos da Apollo 11 e o que mais poeticamente evocou as suas memórias da aventura lunar.

"Quando partimos e a vimos, ah, que esfera incrível", contou em 2019 em Washington, pelo 50º aniversário do marco espacial. "O Sol estava atrás dela, então ela estava iluminada com um círculo dourado que tornava as suas crateras realmente estranhas, devido ao contraste entre o mais branco dos brancos e o mais preto dos pretos", descreveu. E acrescentou: "Eu disse então ao centro de controlo "Houston, eu vejo o mundo da minha janela"".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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