A 15 de janeiro de 1815, as margens do rio Mississípi, nas cercanias de Nova Orleães, presenciaram a última batalha da Guerra de 1812, conflito que se estendeu por três anos, opondo as tropas dos Estados Unidos da América às do Reino Unido. O embate final, nos pântanos do estado do Louisiana, resultou em mais de 2800 mortos, com pesadas baixas do lado britânico e a vitória das forças americanas. No contexto da Guerra de 1812, a Batalha de Nova Orleães foi a que mais fatalidades causou. Não o sabiam os 15 mil homens envolvidos na contenda que, na véspera de Natal de 1814, os dois estados beligerantes haviam assinado em solo Belga o Tratado de Gante. Oficialmente, a guerra terminara havia três semanas, o tempo que uma comunicação levava a atravessar o Atlântico no início de século XIX a bordo de um veleiro..Na década de 1830, uma nova tecnologia carregou a promessa de aproximar territórios ao encurtar os tempos de comunicação. No ano de 1835, o norte-americano Samuel Morse, inventor, físico e também retratista, construiu o primeiro protótipo de telégrafo moderno com base em modelos do século XVIII. O aparelho beneficiava de uma outra invenção, a eletricidade, para enviar mensagens codificadas através de fios. Todavia, faltava engendrar um código de sinais fiável que aproximasse emissor do recetor. Em 1838, Morse apresentou o código que adotou o nome do seu inventor. Seis anos depois uma mensagem em Código Morse viajou à boleia do telégrafo para completar em poucos minutos os 68 Km que medeiam entre as cidades de Washington e Baltimore. A expressão "What hath God wrought" ("Que obra fez Deus") materializou em código impresso os impulsos elétricos que percorreram a linha. Inaugurava-se uma nova era. Em breve, uma rede telegráfica percorria os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Áustria, Prússia, Península Itálica, entre outros territórios..O afã de transmissões telegráficas em terra esmorecia nos litorais. Nos anos de 1850, a troca de mensagens transatlânticas entre os Estados Unidos e as Ilhas Britânicas, mantinha a letargia das décadas anteriores. Cruzar com cabo telegráfico as águas do Atlântico impunha problemas adicionais, entre eles, a distância a superar e a profundidade do fundo oceânico. Três diligentes investidores e empresários, o norte-americano Cyrus N. Field e os ingleses John e Jacob Brett, donos da Atlantic Telegraph Company, uniriam, na década de 1860, as pontas de dois cabos telegráficos estendidos entre continentes. Da intenção à conclusão da empresa mediaria, contudo, uma preenchida década de atribulações atlânticas..Conquistar as águas com um cabo telegráfico não era uma impossibilidade na época. Em 1851, inaugurara-se a primeira ligação por via marítima entre Inglaterra e França, através do Canal da Mancha, empreendimento de John Brett, fundador da Submarine Telegraph Company. Transpor o Atlântico era empreitada de uma outra escala como bem o sabiam Cyrus e os irmãos Brett que, da natureza que tecia o fundo oceânico, recebiam boas notícias..Em 1853, o oceanógrafo norte-americano Matthew Fontaine Maury concluiu que existia uma rota viável para o telégrafo através do Atlântico Norte. O caminho mais curto entre os continentes Europeu e a América do Norte, respetivamente desde o sul da Irlanda até à Terra Nova, distava pouco mais de 2300 Km. A essas latitudes o fundo do oceano forma um planalto de solo macio, poupado a correntes violentas e a uma profundidade média entre os 2600 e os 4600 metros. O berço que acolheria milhares de quilómetros de cabo de comunicações recebeu batismo, Planalto Telegráfico. Aquele território tornou-se palco para o projeto que envolveu fundos privados e estatais com os apoios dos governos norte-americano e Britânico..Para que soasse o telégrafo à distância de um oceano havia que conceber o cabo apto a suportar um dos mais hostis ambientes da Terra, o fundo marinho. Durante quatro meses, em 1857, fabricantes ingleses produziram perto de 4 mil Km de cabo, constituído por uma liga de guta-percha (latex natural) e cânhamo alcatroado a envolver fios de cobre. Cada milha náutica do novo cabo pesava mais de 500 Kg. Dezenas de milhares de toneladas de cabos foram distribuídas por dois navios, o norte-americano Niagara e o inglês Agamemmom. Em 1857, os primeiros quilómetros de cabo telegráfico conheceram o fundo do mar a partir da costa da Irlanda. Primeiro capítulo de uma história que se prolongaria nos oito anos seguintes. Por várias vezes os cabos partiram-se, para se perderem sob as ondas a centenas de quilómetros do litoral irlandês..Em 1858, à terceira tentativa, os dois navios estabeleceram um ponto a meio caminho dos dois destinos para, a partir daí, partirem em direções opostas. A 10 de agosto, a empresa via-se bem-sucedida. Estados Unidos e Ilhas Britânicas estabeleciam a primeira ligação física por via atlântica. Os festejos nas ruas de Nova Iorque com direito a desfile e fogos de artificio ressoariam por pouco tempo. Volvidas poucas semanas o cabo falhou. Problemas de tensão elétrica emudeciam a "voz" que ligava os dois continentes. Restara para a História o primeiro telegrama oficial emitido de Leste para Oeste com a Rainha Vitória a enviar uma mensagem de parabéns ao Presidente Americano, James Buchanan. Estava-se a 16 de agosto de 1858, o mundo teria de aguardar até 1866 para que o navio britânico Great Eastern arrastasse a ponta de um novo cabo até à praia próxima da localidade de Heart"s Content, na Terra Nova, Canadá, e daí, rumo aos Estados Unidos. O ano de 1866 fixa uma nova era com a ligação permanente das comunicações entre dois continentes e a aceleração nos contactos de longa distância. Feito que os idos do século XIX fixaram em slogan: "das duas semanas aos dois minutos"..Com júbilo, a década de 1850 anunciou os feitos do telégrafo ao encurtar a distância entre os Estados Unidos e as Ilhas Britânicas "das duas semanas aos dois minutos". Na realidade, o primeiro telegrama oficial, aquele que aproximou a Rainha Vitória do Presidente Americano James Buchanan marchou a passo lento. A mensagem de 98 palavras levou 16 horas a ser enviada. A cada dois minutos um caractere superava o intervalo entre dois continentes. Na época esta era uma viagem estonteante. Mais tarde, em 1866, cada minuto dava boleia a oito palavras. Com o início do século XX, 120 palavras viajavam a cada 60 segundos.. dnot@dn.pt