Exclusivo A bordo do Spray, o feito da primeira viagem em solitário ao redor do mundo 

Sozinho, reconstruiu uma antiga chalupa de nome Spray. Também só, empreendeu uma viagem transoceânica de 80 mil km que lhe valeu o título de primeiro velejador em solitário a circumnavegar a Terra. No século XIX e por cinco décadas, Joshua Slocum fez-se a todos os mares do mundo. O oceano que o seduziu foi o seu carrasco.

Nas sombras da frondosa Pilgrim Avenue, frente às águas do rio Acushnet, em Fairhaven, repousam dois memoriais erigidos pela população local. Um dos monumentos recorda o século XVII em alusão ao momento fundador da localidade no estado norte-americano do Massachusetts. O monólito evoca John Cooke que, aos 14 anos, desembarcou em Plymouth. John fizera a travessia atlântica, desde Southampton, Inglaterra, a bordo do navio Mayflower. Em 1620, o "Flor de Maio" entregou os Peregrinos ao Novo Mundo. Cooke estabelecer-se-ia no lugar, mais tarde apelidado Poverty Point, em Fairhaven. Próximo do local que recorda a sepultura de Cooke, ergue-se um segundo memorial. Este, datado de 1998, recorda o homem que, em 1885, recebeu como oferta das mãos de Ebenezer Pierce, capitão num baleeiro, uma decrépita embarcação. Da história passada da chalupa de 11 metros pouco se sabe. Nas mãos de Joshua Slocum, a nave, batizada Spray, mereceu restauro. Em junho de 1898, o barco que se julgaria condenado a fenecer nas margens de Fairhaven, fez notícia internacional. A bordo do veleiro por si reconstruído, Joshua Slocum reclamou o feito de ser o primeiro velejador solitário a circumnavegar o globo. Por três anos, apoiado em instrumentos de navegação marítima rudimentares, sem dinheiro ou apoios de monta (à exceção daqueles que lhe chegaram de uma pequena editora), com parcos víveres, o navegador percorreu perto de 80 mil quilómetros, galgando águas em três oceanos, o Atlântico, o Pacífico e o Índico.

A concretização de Slocum foi o corolário de uma vida entregue aos horizontes marítimos. Nascido em 1844 na Nova Escócia, província do Canadá, Joshua foi o quinto de 11 filhos. Uma educação austera a que se somava a desordem doméstica, fruto da família numerosa, empurravam os olhos do jovem Joshua para o desafogo do mar. Em terra, os dias de Joshua faziam-se no fabrico de botas para pescadores. Em 1860, aos 16 anos, o jovem deixou a sua casa para não mais ali voltar e fez-se ao mar. Dublin, na Irlanda, afigurou-se o primeiro porto de destino do aspirante a marinheiro, a que se seguiu Liverpool, Inglaterra. Ponto de partida, a bordo do navio mercante Tânger, para a primeira de muitas viagens à Ásia. A China apresentou-se como destino para Joshua que, nos dois anos seguintes, alargou horizontes até ao meridional Cabo Horn, na América do Sul, às Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia), às Filipinas e Singapura e costa oeste dos Estados Unidos. Slocum subia na hierarquia a bordo para, aos 20 anos, lhe ser entregue responsabilidade de comando em navios britânicos de transporte de carvão e cereais. De 1865 a 1869, Joshua Slocum instalou-se em São Francisco, Califórnia, já como cidadão norte-americano, empenhado na pesca do salmão na costa do estado do Oregon. Nos 13 anos seguintes, a vida de errância oceânica de Slocum levou-o ao comando de diferentes naves: Washington, Pato, Amethyst, Northern Light 2, Liberdade, Destroyer, servindo, entre outros territórios, no Alasca, China, Austrália, Japão, Havai e Brasil. De permeio, em 1871, uma viagem à Austrália uniu a vida de Joshua à da mulher que o acompanharia nos 13 anos seguintes em todas as aventuras marítimas. Virginia Albertina Walker, americana de Nova Iorque, cuja família havia emigrado para a Austrália em 1949, teria todos os seus sete filhos em alto-mar. Para Virginia, as viagens oceânicas terminariam em 1884. Morreu a bordo do navio Aquidneck, ao largo de Buenos Aires, na Argentina. Dois anos volvidos, aos 42 anos, Slocum renovou votos de matrimónio, desta feita com a sua prima de 24 anos, Henrietta Elliott.

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