A Argentina e o Uruguai foram os primeiros países a ratificar o acordo UE-Mercosul...Sim, os dois países ratificaram no mesmo dia o tratado e a Argentina imediatamente promulgou internamente a lei e informou o Conselho da União Europeia no dia 26 de fevereiro que todos os passos dentro da legislação interna tinham sido cumpridos.Quais são os setores da economia da Argentina que mais beneficiam do acordo? A exportação agropecuária?Uma parte é a exportação agropecuária, mas também beneficia muito tudo o que tem a ver com energia, seja petróleo, seja gás natural e também outros setores como a mineração, especialmente lítio e cobre, que acho que são setores vitais para a União Europeia, porque são setores de desenvolvimento do que se chama energia de transição, assim como de materiais críticos. Outro setor que também beneficia muito é o que nós chamamos de economia do conhecimento, tudo o que tem a ver com software e com startups também, área em que a Argentina é muito competitiva. Mas acho que com um acordo de livre comércio não é um país ou um setor que beneficia, todos beneficiamos. Acho que o comércio livre e uma Argentina integrada ao mundo gera um estímulo da iniciativa privada, da inovação, da competição. Isso é algo que faz com que todos os setores das economias dos países acabem por beneficiar, porque com o Mercosul e a União Europeia juntos cria-se um mercado de mais de 770 milhões de pessoas e isso gera algo que se chama economias de escala e especialização, eliminando tarifas em mais de 90% dos produtos negociados entre os blocos. Cada país começa a desenvolver os setores da economia onde é mais competitivo e pode produzir para um mercado muito maior.Como está a crescer a economia argentina?Se juntarmos 2024 e 2025 a economia argentina cresceu quase 10% e as projeções são de um crescimento também aproximado de mais de 4% em 2026, e 4% em 2027. Está entre os países do G20 que mais vão crescer e tudo isso com um plano económico que conseguiu baixar e erradicar o défice orçamental, que reduziu de uma forma drástica também muitos postos de emprego público, que fez com que muitas empresas estatais que davam prejuízos terríveis e que eram pagos através da emissão monetária e através de impostos altos, comecem agora a dar lucros e para muitas delas esteja já planeada a privatização.A inflação continua a ser contrariada?A inflação é outra história de êxito e acho que a Argentina é um bom exemplo de como um país, quando consegue erradicar o défice orçamental, não precisa emitir dinheiro, e a emissão de dinheiro é a principal causa de inflação. A Argentina, quando o presidente Javier Milei assumiu o governo, vinha de ter nesse ano uma inflação de mais de 200%. Passou de 200% a menos de 30% anual, mas isso é em dois anos e o objetivo é que seja ainda menor no futuro. E como o presidente conseguiu ter superávit já depois do primeiro mês do governo, cada vez que se consegue esse superávit, passa-se essa diferença para reduzir impostos. Então, parte do plano é conseguir sempre ir gerando mais e mais superávit e cada vez mais ir reduzindo impostos e reduzindo a inflação e a pobreza. Quando o presidente Milei tomou posse, a pobreza atingia mais da metade da população e em menos de dois anos baixou-se essa taxa de pobreza para menos de 30%. Continua a ser muito alta, mas é incrível como em tão pouco tempo a Argentina está a ficar mais rica.Estes sucessos económicos explicam porque é que o partido do presidente conseguiu ganhar as eleições gerais em outubro de 2025, mas agora há um grande desafio a Milei, que são as greves gerais, com os sindicatos a contestar a reforma laboral. Esta tem sido apresentada como extrema, com alguns exemplos como as até 12 horas de horário laboral ou limitações ao direito à greve. Como a sociedade argentina está nesta matéria? Muito dividida?Quando se vê como é que os legisladores argentinos votaram, percebe-se que a sociedade está bastante unida, porque o partido do presidente não tem maioria absoluta nem na Câmara de Deputados nem no Senado, e ainda assim muitos partidos da oposição, de uma oposição construtiva, votaram juntamente com o governo para que esse projeto se transformasse em lei. A lei anterior era uma lei que tinha mais de 40 anos e estava baseada em princípios de mais de 80 anos e a realidade do trabalho atual fazia que uma modernização da lei laboral fosse necessária. A lei anterior o que tinha gerado era que mais de 40% da população ativa trabalhasse de forma informal, ou seja, que não tivesse nenhum direito. Então era uma lei muito bonita quando se lia, mas o que tinha gerado era um crescimento quase nulo do trabalho privado na Argentina e expulsado o novo trabalho para a informalidade. Com esta lei o que se pretende é trazer de novo todos esses trabalhadores que não têm nenhum direito a um sistema com direitos, com indemnização por despedimento, mas uma indemnização clara onde as empresas saibam quanto é que têm a pagar, porque no passado a indemnização não tinha um limite. Então não se gerava trabalho, porque um potencial empreendedor preferia ter os trabalhadores fora do sistema formal de trabalho ou até mesmo não investir. A ideia com uma lei moderna é que a economia da Argentina cresça, que o trabalho seja cada vez mais formal e que sejam os trabalhadores e os empresários que definam os acordos entre eles, além dos acordos coletivos de trabalho, mas o que é mais importante é o facto que agora os acordos coletivos de trabalho se podem negociar por empresa e não por setor, como antes, fosse grande ou pequena a empresa.Os sindicatos continuam muito determinados a contestar esta reforma e querem levá-la para o Supremo Tribunal.Sim, os sindicatos iam ver se conseguiam judicializar de alguma forma a lei, mas acho difícil contestar uma lei que foi aprovada pelo Congresso, que não é retroativa e que na verdade abre um mercado laboral formal para milhões de argentinos que não tinham essa possibilidade.É muito falada a boa relação do presidente Milei com Donald Trump, tanto pessoal como em termos ideológicos. Houve um momento em que os Estados Unidos vieram em ajuda da Argentina. Essa ajuda de 20 mil milhões de dólares foi importante para resolver os problemas?Foi importante porque após uma eleição local na província de Buenos Aires, em setembro de 2025, ganha pelo partido peronista de esquerda, gerou-se muito medo nos mercados, muito medo na população, e começaram a comprar dólares pensando que poderia o peronismo estar de volta e isso levou a que em dado momento a Argentina precisasse dessa ajuda. Desses 20 mil milhões de dólares, o governo só utilizou 2,5 mil milhões por esse mês e até às eleições nacionais que foram no mês seguinte, nas quais ganhou. Foi uma boa ajuda no momento, mas depois, quando se viu a nível nacional que todas as medidas do governo contavam com apoio popular, voltou a calma e o governo devolveu o dinheiro aos Estados Unidos no mês seguinte às eleições nacionais. Com os Estados Unidos, deixe-me acrescentar, assinámos também agora um acordo de comércio preferencial, já que não há crescimento sustentável sem integração ao mundo e sem uma economia aberta que estimule a iniciativa privada, a inovação e a concorrência. .UE/Mercosul: Câmara baixa do parlamento da Argentina aprova acordo .Partido de Milei vence eleições intercalares argentinas com larga maioria