Milionário e líder religioso, quem é o príncipe Aga Khan, o homem que os ismaelitas seguem?

Aos 20 anos, após a morte do avô, Karim assumiu a liderança dos ismailis, uma comunidade de 15 milhões de pessoas espalhada pelo mundo inteiro. Faz 82 em dezembro e mantém as paixões de sempre: cavalos e esqui

Karim Aga Khan nasceu a 13 de dezembro de 1936, em Genebra, e vai estar em Lisboa até ao dia 12 para o encerramento das celebrações do jubileu de diamante, isto é, os seus 60 anos na liderança dos Ismailis. É o terceiro Aga Khan a liderar a comunidade. O título foi atribuído pelo Xá da Pérsia por volta de 1830.

- O líder dos ismaelitas tinha 20 anos quando tudo começou em 1957. O avô, Aga Khan III, deixou em testamento a indicação de que seria o neto o 49.º imam. "Face às recentes mudanças do mundo, estou convencido que é do melhor interesse da Comunidade Ismaelita que me suceda um homem jovem que tenha sido educado e desenvolvido em anos recentes e no seio da nova era, e que traga uma nova visão sobre a vida e o cargo de Imam", deixou escrito.

- O pai é Aly Khan, o filho mais novo de Aga Khan III, um playboy que encheu páginas de jornais com as suas histórias, incluindo o romance, e casamento de dois anos, com a atriz Rita Hayworth, entre 1949 e 1951. Morreu em 1960 na sequência de um acidente de automóvel.

- A mãe é a princesa Tajuddawlah Aly Khan, nascida Joan Barbara Yarde-Buller. Converteu-se ao Islão após o casamento.

Tem dois aviões, um iate de 25 anos de idade estacionado na Sicília, uma propriedade de vários hectares em Paris e uma ilha onde já recebeu o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau

- Durante a II Guerra Mundial viveu em Nairobi, no Quénia. No regresso à Suíça frequentou a escola Le Rosey School. Licenciou-se em História Islâmica na Universidade de Harvard, nos EUA, em 1959. Já era imam.

- Foi também já como líder dos ismaelitas que representou a seleção do Irão nos Jogos Olímpicos de inverno, em 1964. O desporto esteve sempre presente na sua vida. Cavalos, hóquei no gelo, futebol, remo e esqui. E aos quase 82 anos, ainda esquia.

- Apesar de não ter país, Aga Khan é recebido como um chefe de Estado. É o que vai acontecer em Portugal. Esta segunda-feira vai reunir com o presidente da República e almoçar com o primeiro-ministro.

- A sua comunidade são os ismaelitas, entre 8 e 10 mil pessoas em Portugal, 15 milhões espalhados pelo mundo, que o consideram descendente de Maomé.

- São um ramo minoritário do já minoritário xiismo, e o mais liberal.

- Ao longo dos séculos, saíram da Ásia e África e estabeleceram-se na Europa e América do Norte.Dos 1400 anos de história do ismaelismo, a Pérsia foi o território onde estiveram mais tempo, depois de passagens pelo Norte de África e Egito. No século XIX, concentram-se no que é hoje a Índia e o Paquistão. Continuam a ser países com um grande número de ismaelitas. Mas não só. Uma vaga de emigrantes mudou-se para o continente africano no século XX.

- Nos anos 70, o Canadá acolheu muitos ismaelitas que abandonaram o Uganda, Madagáscar ou África do Sul e Portugal, os de Moçambique. "Muitos pensavam ir para o Canadá, acabaram por ficar", diz Nazim Ahmad, representante diplomático do Imamat em Portugal ao DN. Ele próprio nasceu neste país africano.

- O príncipe é o 49.º imam e herdou o cargo de líder espiritual desta comunidade do avô, Muhammed Shah, um homem importante na Índia colonial, que depois se mudou para o Reino Unido e presidiu a Liga das Nações.

- Foi casado duas vezes. A primeira com uma antiga modelo britânica, com quem teve três filhos (dois rapazes e uma rapariga), a segunda com uma cantora pop de origem alemã. Têm um filho em comum.,

- Nas suas intervenções, defende o investimento da fortuna em ajudar os país mais pobres. "Quando se viaja pelo mundo em vias de desenvolvimento, vemos que a pobreza é o motor do desespero e há a possibilidade de que todos os meios sejam usados", disse ao New York Times há 10 anos, numa das suas raras entrevistas. O príncipe fala, mas quase nunca respondendo a perguntas. Defende a ajuda aos mais pobres através dos negócios. "Desenvolvemos proteção contra o extremismo."

Foi casado duas vezes. A primeira com uma antiga modelo britânica, com quem teve três filhos (dois rapazes e uma rapariga), a segunda com uma cantora pop de origem alemã. Têm um filho em comum

- O príncipe fundou a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN, em inglês), de que é também o CEO. As múltiplas agências dividem-se em três grandes áreas: económica, social e cultural. "Não é uma empresa capitalista que visa distribuir dividendos entre os acionistas". O que diz é que os seus investimentos podem alavancar outras formas de crescimento económico num país ou região que resulta em mais emprego e esperança para os mais pobres. Construir negócios "faz parte da ética da fé", disse ao jornal americano.

- Não gosta de ser descrito como filantropo ou empreendedor. Chama-lhe o seu "mandato".

- Tem dois aviões, um iate de 25 anos de idade estacionado na Sicília, uma propriedade de vários hectares em Paris e uma ilha onde já recebeu o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau. É um líder religioso rodeado de riquezas, o que não vê como contraditório. A Forbes avaliou a sua fortuna em 800 milhões de dólares e inclui-o na lista dos 10 mais ricos do mundo em 2010.

- Tem uma grande paixão por cavalos, como o avô antes dele. Cria puro-sangues em França, um dos seus negócios mais bem-sucedidos. A filha segue-lhe os passos neste ramo.

- Os ismaelitas contribuem com doações para o funcionamento da comunidade. "Mas não é obrigatório", garante Nazim Ahmad.

- Os negócios da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento dão trabalho a 36 mil pessoas, segundo os cálculos do New York Times. O seu nome aparecia ligado a 90 empresas. Hotéis, uma operadora de telecomunicações, uma companhia aérea e uma hidroelétrica no Uganda em que investiu 750 milhões de dólares, mas a maioria são pequenos negócios na Ásia central e na África subsariana. A Rede fatura 925 milhões de euros que são reinvestidos no apoio às comunidades.

Tem uma grande paixão por cavalos, como o avô antes dele. Cria puro-sangues em França, um dos seus negócios mais bem-sucedidos

- Um dos seus primeiros negócios, em 1961, foi criar uma empresa de media, em Nairobi. "Era necessária a retirada dos britânicos do Leste de África para ter política africana explicada ao público africano em termos africanos". O Nation Media Group tornou-se um grupo empresarial bem sucedido.

- Também tem fundado academias (planeia abrir uma em Portugal) e universidades. O avô fundou mais de escolas no início do século XX e uma das suas mais célebres citações diz respeito à educação das raparigas. "Pessoalmente, se tivesse duas raparigas, uma rapaz e uma rapariga, e só pudesse educar um, não hesitaria em deixar a rapariga perseguir uma melhor educação."

- Aga Khan esteve pela primeira vez em Portugal em 1960, e já foi condecorado várias vezes. Há um ano voltou para assinar formalmente o protocolo para mudar a sede do Imamat para Lisboa em 2015. Voltará seguramente em 2019 para a inauguração do recuperado Palacete Mendonça, um edifício classificado, da autoria de Ventura Terra, atualmente em obras.

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