O que se passa dentro do Palacete Mendonça?

Entrámos na futura sede mundial do Ismaili Imamat para ver as obras de recuperação do palacete Mendonça. Em julho, a primeira fase estará concluída. A tempo do encerramento das celebrações dos 60 anos de Aga Khan à frente dos ismaelitas

Um dia chuvoso e frio de março é mais um obstáculo à visibilidade do Palacete Henrique Mendonça, convertido em estaleiro enquanto duram as obras de reabilitação do edifício. Mal se vê a casa que o roceiro quis fazer em Lisboa as riquezas acumuladas em São Tomé, atrás de escavações, oficinas improvisadas, tapumes, apesar de ser o protagonista de uma história que promete devolvê-lo ao esplendor que para ele pensou o arquiteto Miguel Ventura Terra no início do século XX.

Para já, diante do palacete com vista para o Parque Eduardo VII e, ao fundo, o rio, há um buraco de grandes proporções. Quando se pergunta o que ficará ali, o arquiteto à frente do projeto, Frederico Valsassina, não resiste: "Vai ficar um buraco". Que diria o Fórum Cidadania Lx - um grupo que reflete e denuncia problemas urbanísticos da cidade e que, desde a aquisição do imóvel em 2016 tem questionado os planos as obras, endereçando cartas a deputados e à câmara de Lisboa? "Isso é para o lado que durmo melhor", responde o arquiteto.

"Não faço projetos para agradar ao Fórum Cidadania, fazemos projetos para agradar aos princípios do nosso cliente e respeitar as regulamentações".

O cliente é o Imamat Ismaili e aqui vai funcionar a sede global da comunidade ismaelita, liderada pelo príncipe Aga Khan, que vai encerrar em Lisboa as comemorações dos 60 anos à frente dos Imamat Ismaili, entre 5 e 11 de julho. Por essa altura, o salão nobre e a antiga sala de jantar da família Mendonça, que se mantêm como zonas nobres da casa, já estarão prontas, promete Nazim Ahmad, representante diplomático do Imamat Ismaili em Portugal. Parece impossível, diante das paredes descascadas, janelas sem caixilharia, azulejos em tratamento... Nazir Ahmad, aposta que sim. Ao todo, preveem investir entre 10 e 20 milhões de euros, dependentes do curso do projeto. "Não fazemos nada sem o aval dos técnicos envolvidos".

Frederico Valsassina explica, então, o seu trabalho, resumido nesta frase: "O meu papel foi ser o menos interventivo [possível]". Especifica: "É um monumento nacional, estava em muito bom estado, mas tinha uma carga de utilização muito grande, porque tinha sido usado muito mais do que era expectável pelo MBA da Universidade Nova". Esses sinais estavam à vista quando o DN acompanhou uma visita Fórum Cidadania Lx em 2016, guiada pela arquiteta Júlia Varela, a mesma arquiteta, que está a fazer um doutoramento sobre Ventura Terra, que elaborou o estudo que serviu de ponto de partida a Valsassina.

Concluído em 1909, e prémio Valmor nesse ano, o Palacete Mendonça entrou na esfera do Estado nos anos 70 do século passado e foi adquirido pelos ismailis há dois anos, por 12 milhões de euros.

Frederico Valsassina assegura que as alterações para responder ao programa do Imamat Ismaili são mínimas. "Por isso foi aprovado quase incondicionalmente pela DGPC [Direção-Geral do Património Cultural] e posteriormente pela câmara [de Lisboa]". Incluem um parque de estacionamento e dois elevadores.

O arquiteto explica: "A única coisa que estamos a fazer no palácio é criar uma coluna de elevadores". Erguê-los no exterior seria "a solução mais económica mas mais interventiva. O que estamos a fazer deu-nos mais trabalho, foi preciso perceber com os historiadores de arte quais as salas menos importantes para colocar estes elevadores". Manter-se-á, mas sem uso, o elevador da casa, um dos primeiros de Lisboa. "Que é a vapor e já não há técnicos para o pôr a funcionar", afirma Valsassina. "Vai ser recuperada toda a cabine e estacionado no piso 1 como um espaço museológico". Nota: "Outra solução muito simples seria usar a antiga coluna, mas também descaracterizava o edifício".

Voltamos à escavação de grandes dimensões, futuro parque de estacionamento. "Mais do que tudo, o que Sua Alteza pretendia era que o carro não tivesse uma presença determinante. Tivemos de chegar a uma área que achámos que seria a menos sensível do jardim. E, muita atenção ao que vou dizer agora, era a área que o PDM [plano diretor municipal] previa para impermeabilização nesta área da cidade e nós respeitámos essas percentagem", diz. "0,01%", precisa Frederico Valsassina, autor de vários projetos na cidade, incluindo o polémico Mono do Rato, com Manuel Aires Mateus.

Dentro de dois meses, esta área "vai ser toda coberta com a cota original do jardim.". Acrescenta: "E eu acho mesmo que a universidade nova, se tivesse tido dinheiro, tinha feito esta obra de certeza. Lembro-me de ter vindo várias vezes e de estar pejado de viaturas. É a antítese do que queremos fazer".

O que está a ser recuperado é a mais fácil das perguntas para Valsassina. "Tudo". "É recuperada a pedra, os rebocos originais e depois todos os fingidos, madeiras e pinturas interiores estão a ser recuperadas criteriosamente".A nível de fachadas tudo se manterá. "Subjugámos o edifício às condições térmicas". Ou, dito de outra forma, "não vamos colocar vidros duplos, não vamos substituir caixilharias. As caixilharias de ferro manter-se-ão de ferro, as de madeira estão a ser recuperadas, e a nível de lustres e ferragens conseguimos contactar a empresa francesa que ainda existe e que na altura as fez, a Remy Garnier".

"É muito interessante perceber que o senhor Henrique Mendonça quando fez esta casa, vindo para Lisboa de São Tomé, com a mulher, são-tomense, quis mostrar à sociedade que ia construir uma casa para não ser considerado um nouveau riche. Há sete ou oito edifícios em Lisboa, dos antigos fazendeiros, e todos primam por uma arquitetura do melhor que havia na altura, porque queriam ser admitidos na sociedade lisbonense como pessoas de fazer bem, pois eram considerados agricultores do mais rude que havia. Henrique Mendonça vai buscar o melhor arquiteto da altura".

Miguel Ventura Terra (1866-1919) tinha estudado em Paris, e trabalhado no atelier de Victor Laloux, um dos mais importantes arquitetos franceses da época, e, por isso, "trabalha com empresas francesas, nomeadamente nos pormenores", diz Frederico Valsassina.

O jardim de três hectares

Iñaki Zoilo, paisagista da Proap, entra na conversa para falar dos quase 3 hectares que envolvem o palácio: "É uma oportunidade para a recuperação de um jardim histórico. O início foi entender em que momento este jardim se encontrava". Todos os elementos naturais, percursos, fontanários, elementos escultóricos foram inventariados. "A manutenção que foi dada nos últimos 50 anos levou a que o estado do jardim fosse de crescimento espontâneo", resume. O projeto pensado é "dinâmico e com uma estratégia temporal".

Iñaki Zoilo avança que na envolvente próxima ao palácio serão implementados programas mais ligados com os eventos solicitados pelo cliente mais ligados à sua religião e cultura". Acontecem nas traseiras, numa zona relvada destinada a celebrações, com uma cascata de água, ao invés da zona de crescimento espontâneo atual. Para a frente do Palácio está preparado um espelho de água, refletindo a envolvente vegetal", afirma o paisagista.

Têxteis por encomenda

Antes de entrar no palacete, munidos de coletes e botas, como ditam as regras de segurança, Nazim Ahmad conta que estão a fotografar os trabalhos 24 horas por dia para criar uma filme no final e mostra um atelier de madeiras improvisado no jardim, onde se retira pintura de portadas e um marceneiro faz os acabamentos numa nova janela. É uma solução para os casos que não têm remédio, como explica Conceição Amaral, diretora da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva (FRESS). "O compromisso é que tudo o que tenha de ser reposto é manufaturado".

É o caso dos têxteis. "Alguns [tecidos] achamos que eram da manufatura de Lyon, que já não existe". Por isso, estão em contacto com uma fábrica em Inglaterra. "Aguardamos a amostra", refere Conceição Amaral. "Vai demorar um ano a ser feito", prevê. E, no entretanto, vamos colocar outro semelhante, para o espaço ficar com a sua dignidade".

Por esta altura, pelo menos "60 peças estão fundação", o que também acontecerá em breve ao lustre do salão nobre. Todas as equipas da fundação estão envolvidas - a consolidar os azulejos de Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, nos painéis de madeira, bronzes, pintura decorativa, estuques, têxteis... "O palácio é um manual das artes decorativas portuguesas do século XX", frisa Conceição Amaral. "A Fundação está a fazer 65 anos e tem grandes obras, Seteais foi um grande desafio, mas a nível de qualidade e variedade de áreas, acho que nunca tivemos um projeto como este".

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