Lello vende 1200 livros por dia. "Somos o maior exportador cultural do país"

Os efeitos do turismo no Porto mereceram um tom negro na Der Spiegel. No centro da cidade, entre turistas e comerciantes as opiniões não são tão negativas. Em julho, a Livraria Lello aumentou em 50% o número de livros vendidos

Foi após verem fotografias da Livraria Lello que o casal Steven e Lucy decidiu que a visita ao Porto incluiria uma passagem pela livraria com 112 anos, hoje um dos ícones turísticos do Porto. Saíram da Bélgica, com os dois filhos menores, para uma pequena volta por cidades europeias, sobretudo no sul. Viveram anos no Médio Oriente e agora regressaram à Flandres. São viajantes experientes. Questionados sobre se há muito turismo no Porto, olham um para o outro. "Não. É normal. De todo, não considero que haja muito turismo. É tudo muito tranquilo aqui", responde Steven, para logo gracejar: "Com exceção desta fila para a Lello".

Os turistas apontam mesmo o exemplo de Bruges, a cidade da Flandres com pouco mais de 100 mil habitantes, com um centro histórico também Património Mundial, e que é muito mais concorrida. "Nesta altura do ano, Bruges tem mais gente que o Porto. Há mais confusão", explica Lucy. O casal está de regresso a Portugal, com a visita a Lisboa há 16 anos a ser a estreia no país. Agora com os dois filhos - a rapariga confessa que é fã de Harry Potter e apoiou a decisão de conhecer a Lello -, dizem estar a viver um período "normal" como turistas. "Não sei o que pensam aqui as pessoas, mas ter turistas é uma coisa agradável. Nem vejo no Porto as confusões que há noutras cidades. Só fiquei surpreendido por uma livraria ter uma fila como esta", diz Steven, no passeio da rua das Carmelitas. Sem estarem ali exatamente pelos livros, aguentaram mais de 20 minutos até entrarem. "Se vamos gostar? Só quando sair é que posso contar", diz, sempre alegre, Steven.

Estes foram apenas quatro dos milhares de turistas que ontem visitaram a Livraria Lello, a "catedral dos livros" do Porto como foi definida pela Der Spiegel numa reportagem sobre os efeitos do turismo massificado nas cidades. Pela amostra da opinião destes residentes na Bélgica, o Porto não está assim tão mal no que toca à destruição das suas características.

As filas para a Lello apresentam grande diversidade, com os espanhóis em maioria com 20,27% das entradas, seguidos dos portugueses com 10,18% e dos franceses com 9,18%. Mas, revela a Lello, há visitantes do Brasil - dos que mais compram livros -, Estados Unidos da América, Itália, Alemanha, Canadá, Reino Unido e Polónia, entre mais de 70 nacionalidades que já adquiriram o 'voucher' de cinco euros.

De 9 para 49 funcionários

Na livraria, o texto da revista alemã merece reparos. Aurora Pedro Pinto, administradora da Lello, diz que a Der Spiegel não falou com ninguém da Lello, apesar de ser um dos focos principais, e que refere números exagerados como as cinco mil entradas diárias. "Não é verdade, não chegamos a esses números", garante. Em julho, no melhor mês de sempre, entraram mais de 120 mil pessoas, o que dá uma média de quatro mil por dia. Depois, a reportagem passa ao lado do número de livros vendidos e trata os 'vouchers' como bilhetes. Os cinco euros pagos para entrar podem ser trocados por livros. E assim a Lello conseguiu vender, em julho, mais de 1200 livros por dia, com edições próprias de "Os Lusíadas", prefaciado por Eduardo Lourenço, em quatro línguas a estar no top cinco, tal como "A Mensagem", de Fernando Pessoa. O mais vendido é "O Principezinho", com prefácio de Valter Hugo Mãe. "Na quarta-feira chegaram mais 30 mil exemplares", revela a responsável.

"Temos obras nacionais traduzidas em seis línguas e outras em quatro. São das mais vendidas na Lello e somos o maior exportador de cultura e de literatura nacional", aponta Aurora Pedro Pinto, recordando que a entrada paga nasceu em 2015 para "regular o fluxo turístico" e criar um "visitante que se transforme em leitor" com a oferta mais diversificada de livros e toda uma programação cultural que se destina menos aos turistas e mais aos portugueses. São os casos de iniciativas, à noite, com Capicua ou Pedro Abrunhosa, teatro ou fados. Criou ainda o cartão de amigo, com acesso prioritário, dirigido aos portuenses. A Lello teve obras de 2,5 milhões de euros e passou de nove funcionários em 2015 para os atuais 49, com mais dez colaboradores nestes meses de Verão.

"Não é afastando os turistas que se criam melhores condições na cidade", considera a administradora da livraria. "Tudo se passa num raio de 1, 2 quilómetros quadrados. O que deve ser feito é criar uma nova estratégia para a cidade se expandir para outras zonas, como Campanhã", aponta, sem deixar de reconhecer que os problemas a nível de habitação e alojamento local são reais mas não se resolvem com menos turistas. Antes, com políticas públicas.

Porto "é perto e fácil"

O espanhol Asier chegou com a família desde Vitória, no País Basco, e depois do passeio de automóvel pela Galiza estava ontem na fila da Lello. Porque? "Não sei", ri-se. "Está em todos os guias turísticos e parece ser muito bonita", justifica o espanhol para quem o Porto "tem muitos turistas, mas isso não é incomodativo". E pergunta: "Estarei aqui a mais?" Asier pega no exemplo espanhol onde há muitas cidade com turismo muito elevado "e com muitos portugueses". A escolha do Porto nem tem explicação imediata. "Não conhecia, é perto, é fácil de chegar. E na verdade também se ouve falar mais do Porto, que é interessante e rápida de visitar."

Mais à frente, já de saída, estavam outros espanhóis que não encaixam na lógica do visitante que chega num avião da Ryanair ou da Easyjet, as companhias 'low-cost' que iniciaram o 'boom' turístico que no ano passado trouxe 2,5 milhões de turistas ao Porto. Jesus veio com a mulher e outro casal desde Valencia e integra o grupo de 50% de visitantes que sai sem livros, isto é sem trocar 'voucher' de cinco euros. "Não encontrei nada em castelhano que me interessasse", explica, de forma pouco convincente". Acaba por revelar que visitou a livraria pelo seu aspeto e gostou. "É muito bonita, vale a pena." Os cinco dias de férias no Porto que ontem começaram geram boas expetativas. "Até agora estamos a gostar muito", assegura.

"Somos todos turistas"

Do outro lado, junto à Torre dos Clérigos, passeiam muitos turistas e as lojas são quase todas agora direcionadas para este fluxo. A Arte Sacra, de Luís Rocha, distingue-se e está incluída no programa Lojas com Tradição. Vende artigos religiosos e os turistas também lá aparecem. "Italianos, espanhóis, até ingleses. Compram sobretudo terços e imagens de Nossa Senhora de Fátima", diz o comerciante, com décadas naquele local.

Aceita o turismo com naturalidade. "Se não fosse o turismo o Porto estaria vazio. Antes isto às oito da noite estava tudo vazio, sem ninguém", aponta, convicto que os problemas podem ser resolvidos. "O Rui Moreira já está a alargar isto para Campanhã. A cidade precisa de abrir. Há alguma confusão com os autocarros turísticos porque anda tudo nesta zona." No fundo, diz Luís Rocha, "somos todos turistas". Não esquece que ainda há dias esteve por Espanha, nas Astúrias, onde viu "mais gente que no Porto".

Metros acima, na loja "A Principal da Borracha", o funcionário conta que há cinco ou seis anos ali apenas se vendiam artigos em borracha. Hoje é sobretudos de 'souvenirs' como postais e outros artigos que se faz o negócio. "Os artigos em borracha já não davam. Assim o negócio continua e um turista pode lá comprar bilhetes para um passeio de barco no Douro ou num autocarro pela cidade. " Os clientes são quase todos turistas", admite.

O Porto e o Norte do país são a terceira região do país, a seguir ao Algarve e Lisboa, com mais turistas. Teve mais dormidas no primeiro semestre, segundo o Instituto Nacional de Estatística, registando um crescimento de 6,2% para quase 3,5 milhões de dormidas.

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