Futuros de Lisboa. A exposição que desafia todos a pensarem a cidade

Uma exposição no Terreiro do Paço desafia criativos e público a pensarem no futuro de Lisboa, numa altura em que muitos questionam o presente

Discutem-se coisas importantes à porta do primeiro-ministro: peixe e poesia. Este verão sensato tem uma brisa fresca nas arcadas da Praça do Comércio, para onde António Costa se mudou. E é ali mesmo que uma guia turística explica, em inglês, a homofonia de fixe e fish. Perto, em espanhol, um outro guia está rodeado de 20 turistas. Fala-lhes de Fernando Pessoa, que ali escreveu, no Martinho da Arcada, a Mensagem, numa língua "que se lê do Brasil até à China".

Mesmo ali ao lado, no Torreão Poente, vai inaugurar-se uma exposição sobre Os Futuros de Lisboa. A partir de 12 de julho, a ideia é imaginar o que a cidade pode ser, no momento em que muitos lisboetas se preocupam com o que ela está a ser. Por isso convidámos Sofia Guedes Vaz, especialista em ambiente, e João Seixas (J.S.), geógrafo, dois dos comissários da exposição (o terceiro é o arquiteto Manuel Graça Dias), para uma conversa sobre o futuro. Ou, como eles gostam de dizer, os vários futuros. A primeira resposta é um desafio:

Sofia Guedes Vaz (S.G.V.) - O mais importante do futuro de Lisboa é a ideia de que podemos ter um papel nele. O futuro não é obra do acaso, é nossa.

Talvez por isso, António Costa tenha alertado: "O crescimento do turismo não pode transformar as cidades num parque de diversão para adultos." Em Lisboa há, feitas as contas, 300 turistas por quilómetro quadrado. Visitam a cidade, por ano, 4,5 milhões de pessoas. A proposta de António Costa é aumentar a reabilitação urbana e criar incentivos a rendas acessíveis. Chega?

J.S. - Soa-me a pouco. É melhor do que nada, mas não chega. Este é o ponto decisivo. O mercado imobiliário está em sobreaquecimento para os rendimentos das famílias. A taxa Euribor está a zero. Quando algum investidor internacional sabe que o retorno do investimento é grande, se comprar uma casa em Lisboa, e ainda pode aproveitar o sol, a praia, o surf. Há bastante tempo que este problema devia estar a ser resolvido. Era mais do que previsível.

S.V.G. - Mas é difícil. Lisboa ainda é uma cidade barata. É urgente regular. Os airbnb salvaram a vida a muita gente. Muitos lisboetas vivem aqui porque têm rendimentos de casas alugadas.

Daqui vê-se o problema. Há cinco gruas na quadrícula que Pombal impôs na Baixa. Entre as ruas do Ouro e da Prata, reconstrói-se. O preço por metro quadrado subiu 15,5% em 2017, na cidade toda. 46% no Marquês. Regular a pressão sobre o imobiliário é, afirma João Seixas, especialista em planeamento e gestão urbana, a primeira prioridade.

J.S. - O que está a acontecer passa-se a uma velocidade vertiginosa. A maior questão é essa. Diziam que a cidade histórica não tinha ninguém, mas 70 mil pessoas não é ninguém... As desigualdades e os problemas sociais que podem surgir com a mudança têm de ser geridos com atenção. A identidade é um conceito muito sensível, mas não pode ser fixo. Tudo o que está a acontecer hoje no mundo, um certo conservadorismo, tem que ver com o receio da mudança. A mudança pode ser melhor se for bem gerida. Lisboa tem neste momento despejos, o que é inadmissível. O futuro tem de ser mais justo.

S.G.V. - Dizemos mal dos turistas, mas se um turista me perguntar alguma coisa eu ajudo a sorrir.

J.S. - Lisboa é uma cidade aberta, é a sua vocação há mais de 500 anos. Mas o que acontecer no planeta vai ter impactos. Isso obriga-nos a ter uma governação muitíssimo mais atenta. Estar na vanguarda da gestão do turismo significa estar na vanguarda da regulação. A relação que se faz entre muitos de nós sermos residentes e turistas, por exemplo. Eu sou turista 5% da minha vida, 95% do tempo sou residente. Quando sou turista não me importo de pagar mais. Convinha que soubéssemos navegar - isto é uma frase muito portuguesa... -, saber se queremos uma cidade mais virada para passagem ou para permanência.

Aqui, na Praça do Comércio, já houve quase tudo. "O povo é sereno", disse o tio-avô de Bruno de Carvalho, Pinheiro de Azevedo. Houve regicídio na Rua do Arsenal, discursos de Salazar à varanda, as chaimites de Salgueiro Maia a redimirem-nos. Depois disso, o arco da Rua Augusta já enquadrou o Gulliver de Jonathan Swift. E agora, no Torreão Poente, o Museu de Lisboa lança um desafio aos cidadãos. "A exposição é sobre futuros longínquos e sem data. São reflexões sobre a passagem do tempo, as capacidades e as incapacidades de projetar o futuro", explica Joana Monteiro, a diretora do museu. O que é importante para o futuro de Lisboa? "Dois dos maiores desafios: a sustentabilidade ambiental, social e económica, e a manutenção e afirmação da personalidade própria de Lisboa, face à pressão da globalização."

Nesta praça lisboeta, há dois torreões. No Poente, imagina-se o futuro, no oposto tomaram-se as decisões no passado recente da troika. Há alguma ligação entre as duas crises, a financeira e a da "identidade" - que marcaram os últimos anos na Europa? E isso está a provocar nos cidadãos um desejo de regresso ao passado, desconfiados do futuro?

J.S. - Não é um regresso ao passado, é agarram-se àquilo que tomam como seguro.

E como podemos imaginar o futuro em Lisboa?

S.G.V. - A eficiência energética é onde se tem verificado os avanços maiores. E a mobilidade vai ser determinante. Quando se pede "fecha os olhos e pensa na Lisboa que queres" muita gente pensa numa cidade sem carros. É lindíssimo passear por Lisboa e ver tanta gente de bicicleta. Os empregos vão deixar de existir e isso vai ter impacto. O espaço será mais público, um aumento dos trans- portes públicos, tudo isso é uma espiral positiva.

Na exposição, além de imagens utópicas, há planos para um futuro realizável, como o elétrico rápido na Segunda Circular.

J.S. - A última sala da exposição, a sala 10, tem 16 pilares pombalinos. Numa parede vamos ter os 24 direitos à cidade. A cidade foi governada pelo Conselho Municipal. Em 1383 o mestre de Avis instituiu a Casa dos 24, mesteirais, correeiros, sapateiros... Temos a nova Casa dos 24, com direitos: habitação, lugar, justiça, saúde, refúgio... Terminamos com o direito ao desejo. Sem ele nunca havia cidade.

S.G.V. - O meu sonho é que a economia deixe de ter tanta importância. Não podemos crescer indefinidamente. Esta é, se quisermos, uma imagem do futuro, como o camião do lixo que acelera em marcha-atrás, "movido a gás natural", está escrito na ilharga, e limpa os copos de plástico vazios do chão. Sofia Guedes Vaz reforça que é mais útil sonhar do que ter planos. E também para isso há uma imagem no Torreão: os responsáveis decidiram, há muito tempo, pôr uma cerca de espetos de metal para impedir os pombos de se alojarem no topo das colunas e sobre a porta que fica nas arcadas. Os pombos aprenderam a passar por cima das pontas afiadas e ajeitam-se como podem no intervalo que sobra.

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