Entrámos no parque de estacionamento de Madonna

Madonna fez contrato similar a mais de 20 que há na cidade, explica a autarquia. 720 euros/mês para arrumar carros nas Janelas Verdes, onde estacionar é um problema

Sobe-se a Calçada da Pampulha, percorre-se a Rua Presidente Arriaga e chega-se por fim à Rua das Janelas Verdes e percebe-se que estamos numa zona de Lisboa com um bem escasso: lugares de estacionamento, que qualquer desvio pelas ruas adjacentes mais reforça.

Qualquer nesga é uma boa nesga para parar o carro, como o pátio nas traseiras do Palácio Pombal, nas Janelas Verdes, que a Câmara Municipal de Lisboa cedeu a Madonna por 720 euros por mês - para a cantora americana poder aí arrumar as suas 15 viaturas.

Há mais de 20 contratos similares, avançou ao DN fonte do gabinete da presidência da autarquia lisboeta. No comunicado emitido pela CML refere-se que a "cedência" do espaço "está titulada por um contrato oneroso de cedência de utilização similar a dezenas de contratos efetuados pela autarquia" e que aquele mesmo "espaço foi usado até dezembro de 2017, com um contrato similar, pelo Instituto José de Figueiredo".

O Palácio Pombal é um edifício fechado, defronte de um enorme buraco na Rua das Janelas Verdes onde está a nascer de raiz um condomínio de luxo. A entrada para o pátio faz-se por uma rampa partilhada com a Embaixada do Luxemburgo e, junto à estreita Travessa de José António Pereira, entra-se então nas traseiras do palacete. O portão está aberto, lá dentro há quatro carros estacionados.

O contrato - hoje divulgado pela autarquia - estabelece que Madonna deve garantir "todas as condições de segurança do local, incluindo a permanência dos portões fechados e um sistema de abertura dos mesmos apenas para a entrada e saída das viaturas".

Em volta, o bem escasso que é o estacionamento está hoje ordenado pela EMEL: os dísticos da zona verde avisam do pagamento. No parque fronteiro ao Museu Nacional de Arte Antiga, quatro horas de estacionamento (o máximo permitido) são 3,20€. Há três lugares para carros elétricos, dois para deficientes e 14 para outras viaturas.

Nem todos se queixam. No Largo Dr. José de Figueiredo, no restaurante Riscas, o proprietário fala da cozinha: "Sempre tive lugar para estacionar", diz ao DN António Martins. "Não é fácil, há dias em que não é fácil", corrige a sua mulher, Beatriz, ao balcão. António explica-se: "Se não tenho lugar à porta, arranjo aqui à volta", referindo-se à Rua do Olival, à Rua Conde e às pequenas travessas onde se arrumam os carros. "Eu não me queixo", insiste o dono do Riscas.

A trabalhar ali há 40 anos, António e Beatriz dizem que, desde há coisa de um ano, a chegada da EMEL também facilitou. "Como não era pago, era difícil, agora arranjo sempre", mete a colherada um cliente, que parou à porta a ouvir a conversa enquanto fuma. "Nesta hora é mais difícil", junta António Martins. À noite, para quem ali mora é pior.

Na zona onde Madonna comprou dois ou três imóveis, o bairro é imagem da Lisboa dos anos mais recentes: muitos prédios e apartamentos à venda ou vendidos, outros em recuperação e reabilitação. No entroncamento da Rua do Olival com a Rua de S. Domingos, ao cimo das escadas, há uma entrada para um estaleiro de obras, paredes meias com as obras do tal condomínio da Rua das Janelas Verdes.

A autarquia defende o contrato assinado em 4 de janeiro deste ano com a cantora americana para "evitar estacionamento abusivo/desordenado" na rua do Museu de Arte Antiga, uma vez que Madonna - que vive no Palácio Ramalhete, um alojamento local, que não tem disponibilidade de reserva para os próximos meses - comprou "outros imóveis na zona envolvente", que "deverão entrar brevemente em obra".

Por ali passam muitos turistas, há homens nas obras, as duas lojas junto ao palácio encerram às segundas e os dois merceeiros do subcontinente indiano limitam-se a sorrir à reportagem do DN. A música que se ouve é de Bollywood.

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