Alfama. Os turistas e as três donas do bairro

Moradores e forasteiros, os novos vizinhos dos bairros tradicionais de Lisboa. Na fronteira entre Santa Maria Maior, Alfama e São Vicente de Fora há três mulheres, resistentes, que lamentam as velhas zaragatas que já não há...

... mas também acolhem os turistas, que ensinam a lavar a roupa. Em troca da simpatia, vão acumulando fotos que eles lhes enviam

Sunny Massad e Gary Culver venderam há dois anos a sua casa no Havai e cumpriram o desejo de ir pelo mundo. Na rota apontada passaram por países como o Canadá, a Guatemala, a Nova Zelândia e a Espanha. Nestes dias a psicóloga e o massagista reformados resolveram visitar Portugal, tendo escolhido, numa digressão internética, ficar alojados em Alfama.

No fim de uma manhã, saem da porta do prédio e passam pela Dona Mariana, à janela do rés-do-chão, emoldurada por uma confraria de íntimas peças de roupa azuis, verdes e cor-de-rosa. É esta a revista que (ainda) vai acontecendo nos antigos bairros de Lisboa. Um cruzamento entre pessoas das mais exóticas proveniências e gente local, moradora de muitas décadas.

O entendimento não se faz através da língua. Faz-se do dicionário de sorrisos e da gramática de dedos apontados. Aos destinos pretendidos, sim. E ainda de pedidos para tirar fotografias. "As pessoas gostam de tirar retratos à roupa pendurada!", comenta Dona Mariana, antes de rematar com uma graça digna de ser elevada a Património da Humanidade: "Eu tenho a impressão de que elas não lavam a sua."

Depois do sarcasmo de bairro, é disparado o elogio. A mesma Dona Mariana classifica o turismo como benéfico por encontrar nos turistas figuras educadas e amáveis. O seu senhorio, "uma joia de rapaz", aluga quartos em regime de alojamento local. E assim esta mulher, durante 29 anos cozinheira para mais de duas pessoas, no Casão Militar, dedica-se hoje ao pequeno gesto de ajudar quem chega e não consegue abrir a porta ou ainda quem precisa de um creme Nivea para refrescar o escaldão numa pele mais branca do que um vestido de noiva de Santo António.

Mariana Santos, 71 anos, viúva (o marido era fundidor numa fábrica em Linda-a-Velha), é uma das três moradoras antigas que restam no Largo do Sequeira, lugar fronteiriço entre a freguesia de Santa Maria Maior e a de São Vicente. Do território noutro tempo recorda-se do ajuntamento das raparigas e dos rapazes a jogar à bola. "Os meus filhos foram aqui criados. A polícia vinha, levava os miúdos presos e a gente ia depois buscá-los. Era tudo assim, muito giro." Hoje, além de cuidar da casa e ajudar quem passa, conversa com duas vizinhas. São como que uma família. Quando uma não está, as que ficam perguntam onde ela foi. "E falamos de janela para janela, como os papagaios."

À medida que partilha a sua história, continuam a passar turistas em direção ao Campo de Santa Clara, à Igreja de São Vicente ou à Graça. Um deles, rapaz loiro de 20 e tantos anos, pede-lhe com timidez para lhe tirar uma foto. De onde vem? De Novosibirsk, na Sibéria, terceira maior cidade russa e decisivo polo científico, industrial, empresarial e universitário. Simon, moço siberiano a viajar sozinho, fotografa uma portuguesa de Alfama.

Neste bairro chique, "há dois palácios!" Um é o de Santa Helena - onde comprou casa Michael Fassbender

Do outro lado da rua, mas noutra freguesia, está a casa de Maria Rosa Pires de Matos, a Dona Maria, a caminho dos 90 com o levíssimo ar de quem sabe olhar para tudo através de um ângulo burlesco. Lembra-se de uma vizinha da frente ter "três filhos muito cómicos" e recorda com gozo as zaragatas entre as mulheres do Beco dos Biguinhos. "Uma vizinha ouvia o barulho e chamava-me: "Ó Rosa, vamos à festa!" E lá ia assistir. Elas ralhavam. Diziam todas as asneiras que entendiam e puxavam os cabelos umas às outras." Três dias depois as mágoas haviam-se evaporado.

Filha de um casal de Abrantes, Dona Rosa foi modista durante muitos anos e ainda mantém no mesmo recanto caseiro a máquina de costura na qual trabalhou em formosos vestidos, hoje fixados em álbuns fotográficos. Com o casamento, mudou-se para aquela casa pequena, com o marido, funcionário na área das balanças de gado, serralheiro civil e fugaz jogador do Sporting, e ficaram a viver com os sogros. Depois veio a filha. E dentro das divisões daquela casa portuguesa coube, apertada e feliz, a família toda.

Dona Rosa pede por vezes para espreitar os bebés que os pais turistas transportam nos carrinhos. E, tal como Dona Mariana, é muito fotografada neste bairro já com escassa vizinhança. "A maior parte morreu e outra foi-se embora." Nada percebe do que os estrangeiros perguntam. "Eles aproximam-se, colocam-se ao meu lado e digo: "Eu só quero ficar linda!". Já com a foto tirada, os turistas, fotograficamente satisfeitos, prosseguem, partilhando o rosto português da Dona Rosa com as centenas de amigos reunidos no Instagram.

E eis que, sem cerimónias, com a ajuda de uma muleta, chega Dona Maria, a terceira Dona do Largo do Sequeira. Maria da Conceição Oliveira Sardo, 82 anos, nascida no distrito de Aveiro, vive ali há 72 anos. "A minha profissão? Até tenho medo de dizer. Aos 10 anos andei com uma canastra com 30 quilos à cabeça." Conta que a seguir foi "trabalhar no peixe" para a Ribeira, Cais do Sodré. Aos 18 anos entrou para uma fábrica de produtos alimentares congelados, em Santa Apolónia, onde estacionou durante 31 anos, sem um dia de férias. É por ter tido tão pouco que o desperdício a perturba. "Vejo pessoas a deitar coisas fora. Eu, quando vim para Lisboa, não tinha cuecas."

A vocação para o fado, exercida na Praça da Alegria e no Beco do Pocinho, em Alfama ("ainda tenho o meu xaile, a minha saia e os meus sapatos"), ficou arrumada para sempre. Por causa do frio da fábrica, as cordas vocais secaram. E veio a bronquite asmática. Mãe de dois filhos, após a reforma foi para a Feira da Ladra vender roupa e toalhas de renda. Aí ficou durante 40 anos, tendo deixado muitos amigos que hoje não consegue visitar.

Sobre o bairro, lança uma primeira ironia: "Este é um bairro muito chique. Temos dois palácios!" Um deles é o Palácio de Santa Helena, antiga residência dos condes de São Martinho, onde se veem obras a decorrer. Está a ser transformado em 20 apartamentos de luxo, um deles já comprado pelo ator Michael Fassbender.

De tempos idos Dona Maria recorda o gesto generalizado de se dormir ao ar livre no verão. E, quando se lhe fala em turismo, divide: critica os senhorios que despejam sem critério e faz o elogio dos turistas, que a mimam com fotografias, enviadas pelo correio.

As três Donas unem-se noutra ajuda aos turistas. "Ao sábado é demais! Não se pode andar aqui. Os carteiristas passam e até entregam o dinheiro uns aos outros." É por isso que avisam os estrangeiros para para colocaram as malas à frente, menos vulneráveis às silenciosas coreografias do roubo.

De há uns meses para cá Dona Mariana, Dona Rosa e Dona Maria têm tido um apoio com sotaque brasileiro: o de Alex MacDonald, 41 anos, ex-correspondente do The Wall Street Journal em Londres. Filho de mãe brasileira e pai americano, mudou-se para Lisboa em outubro de 2017 por ter uma namorada portuguesa e instalou-se ali, num apartamento do Largo do Sequeira, perto das casas das três Donas. A fala é da Dona Mariana: "Agora somos só as três e o nosso guarda-costas. Ao menos é um homem que aqui está."

Alex conta que quando se mudou para o bairro não conhecia ninguém e chegou a pensar que a zona estava demasiado afastada do movimento citadino onde se fez. Mas cedo sentiu a riqueza de vida que nunca encontrou durante 15 anos em Londres. Apoia as senhoras e recebe a bênção lisboeta de acordar entre piadas, gargalhadas e palavras acolhedoras. "E também tenho uma grande ajuda." É a Dona Maria que recebe o seu correio. A Dona Mariana ensina-o a comer sardinha com as mãos e a lavá-las com vinho, "para tirar o cheiro". Em Londres nunca foi obrigado ao movimento de estender a própria roupa. Agora é, e por isso recolheu os ensinamentos da Dona Rosa sobre as mais belas e eficazes técnicas - como a do balão. "Nem um cientista!"

Ali perto do Largo do Sequeira fica o muito visitado Panteão Nacional, condomínio de celebridades reservado a craques das artes, da política e do futebol. Um dia, quem sabe, cumprir-se-á a justiça de também albergar estas últimas guardiãs da Lisboa dos bairros.

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