"Abandonado" há 50 anos, velho Estádio do Lima tem nova vida projetada

Projetos diferentes de uma empresa imobiliária e do Académico do Porto perspetivam o nascimento de uma nova frente urbana na área que já acolheu o maior estádio da zona norte do País

"Football history was here" (A história do futebol passou por aqui), pode ler-se num grafitti pintado no que ainda resta de uma bancada do velho Estádio do Lima, no Porto. Em tempos palco do melhor recinto desportivo do norte do País, propriedade do Académico do Porto, mas utilizado também pelo FC Porto para os seus jogos grandes com os rivais de Lisboa - como aquele frente ao Sporting que ficou imortalizado pelo filme Leão da Estrela (em 1947) - os terrenos do antigo Lima permanecem há quase 50 anos como um descampado votado ao esquecimento numa zona central da cidade. Mas isso parece agora em vias de mudar, com nova vida projetada para aquele espaço.

No terreno que acolheu o primeiro jogo noturno em Portugal e que divide com o antigo campo das Salésias, em Lisboa, a fama de ter tido o primeiro relvado do País, não vai desta vez voltar a nascer um novo estádio de futebol, mas há planos em curso que projetam para aquela zona uma nova frente urbana que contempla o nascimento de um hotel e de uma superfície comercial integrados num empreendimento imobiliário que está já a ser anunciado no local pela proprietária do terreno, a promotora imobiliária Vidor (que integra a Habiserve, empresa que há anos comprara aquela parcela à Santa Casa da Misericórdia do Porto).

Além desse projeto, que está ainda em fase de apreciação nos serviços da autarquia portuense, há um outro já aprovado pela Câmara e remetido pelo Académico do Porto para a construção de dois novos pavilhões, um complexo de piscinas, uma academia de fitness e spa e um parque de estacionamento subterrâneo. Este projeto resulta de uma parceria com a empresa espanhola Supera, que opera na área da construção e gestão de academias e que em Portugal tem a gestão das piscinas do Areeiro, em Lisboa. Em perspetiva estará, por fim, a requalificação de uma zona central da cidade que tem estado desprezada há longos anos.

Contactada pelo DN, a Câmara Municipal do Porto confirmou, através do seu departamento de comunicação, que está "em apreciação pelos serviços de urbanismo o pedido de licenciamento de uma operação de loteamento" apresentado pela Vidor para os terrenos do antigo estádio do Lima, considerando "não ser apropriado" nesta fase qualquer "comentário adicional" sobre os planos para aquela zona.

Também uma fonte da promotora imobiliária, que tem no local um outdoor a anunciar para breve o nascimento de um empreendimento naquele sítio, confirmou, em contacto telefónico, que apresentou um projeto na autarquia e que este se encontra à espera de aprovação. No site da Vidor, estão especificadas as características do projeto apresentado.

"Em plena cidade do Porto, o terreno do Lima , antigo campo de jogos do F.C.P., situado na Rua da Alegria, junto às Antas, tem a decorrer na CMP um processo de loteamento para constituir 3 lotes: um para habitação, outro para Hotel e outro para uma superfície comercial, com um aumento da capacidade de construção de 14 743m2 atual para aproximadamente 21 0000m2, criando uma frente urbana e desenhando um espaço interno público", pode ler-se ali.

Questionada sobre se já há grupos interessados na construção do hotel e da superfície comercial, fonte da Vidor disse não ter mais informações para além das que estão disponíveis no site.

Oportunidade de sobrevivência para o Académico

Com expetativa redobrada sobre o futuro está o presidente do centenário Académico do Porto, Pedro Sarmento. O histórico clube portuense, fundado em 1911, e que participou na primeira edição do campeonato nacional de futebol, em 1935, é, desde há 50 anos, após a perda do estádio do Lima, um emblema dedicado sobretudo às modalidades de pavilhão, que alimenta em dois recintos que vão resistindo com dificuldade à passagem do tempo. O novo projeto que tem em parceria com a Supera, e que contempla então a construção de dois novos pavilhões para o clube suportados pela empresa espanhola, "é a oportunidade de o Académico assegurar pelo menos mais uns 50 anos de vida", diz ao DN. "As nossas instalações atuais já estão no limite e o Académico não tem capacidade financeira, por si só, para alterar a situação", reforça.

Na sequência da demolição do Estádio do Lima pela Santa Casa da Misericórdia do Porto, nos anos 1970, o Académico do Porto ficou com a atividade confinada ao espaço do antigo palacete do Lima, ao lado do antigo estádio, um edifício virado para a Rua de Costa Cabral, onde tem hoje as suas instalações desportivas e sociais (dois pavilhões, sede, bar e pouco mais). Essa é, de resto, uma parcela de terreno atualmente propriedade da Câmara Municipal do Porto, sendo o Académico apenas inquilino. O clube é proprietário, sim, de uma outra parcela no mesmo quarteirão, mas virada para a Rua do Lima, que liga a de Costa Cabral (dos pavilhões) com a da Alegria (do antigo estádio abandonado). Nessa parcela, cuja propriedade o Académico viu confirmada por decisão do Supremo Tribunal, após disputa com a Habiserve, funciona atualmente um parque de estacionamento em terra.

E foi para esta última parcela de terreno, propriedade do Académico, que a empresa Supera apresentou inicialmente a sua proposta, que a autarquia rejeitou, mas contrapondo outra hipótese, explica Pedro Sarmento: "Apresentámos um primeiro PIP [pedido de informação prévia] para instalação nos terrenos do Académico [os do parque de estacionamento]. A Câmara rejeitou, por elevada densidade de construção para aquele espaço, e sugeriu utilizar também a área que é da autarquia, onde funcionam atualmente os pavilhões. Nós e a Supera refizemos o projeto, este foi aprovado pela Câmara e agora esperamos apenas pela resolução do plano de pormenor."

O presidente do Académico diz que "este é um projeto muito ambicioso" e que, por isso, a autarquia terá demonstrado o interesse. "Os pavilhões ficariam para o Académico e para o resto a Supera ficaria com o direito de utilização durante 40 anos", especifica, sobre os planos que aguardam então o acerto do plano de pormenor com a autarquia.

O surgimento de outro projeto mesmo ali para o lado, para o descampado onde outrora funcionou o estádio do Lima, por parte da promotora Vidor, é um dado novo a ponderar pela Câmara Municipal do Porto, que poderá aproveitar a coincidência para uma intervenção mais ampla na zona. Pedro Sarmento diz não conhecer em pormenor os planos da empresa imobiliária, mas admite a possibilidade de retocar o projeto do Académico para o ligar com o da Vidor e garante que as relações com aquela empresa estão hoje normalizadas, depois de anos de luta judicial pelos terrenos do atual parque de estacionamento. "Da nossa parte, estamos disponíveis para facilitar o projeto deles e, eventualmente, permutar parcelas de terreno que beneficiem ambas as partes", refere ao DN.

Fonte ligada aos interesses da Supera, parceira do Académico, disse que a empresa espanhola não quer pronunciar-se sobre o investimento enquanto o plano não estiver concretizado nos serviços de urbanismo da autarquia.

Na equação de uma intervenção mais ampla naquele quarteirão, que se alarga até à Rua da Constituição, pode entrar ainda a Santa Casa da Misericórdia do Porto, que ao DN esclareceu já não ter qualquer propriedade sobre parcelas do antigo estádio do Lima, mas apenas "em zonas adjacentes à rua da Constituição", junto ao restaurante Lima 5.

Pedro Sarmento aguarda com expetativa o desfecho do processo. "A nossa ambição, e dos nossos parceiros, é começar com as obras no final desta época desportiva e realizá-las durante ano e meio. Até final da época contamos ter resolvido o plano de pormenor", revela, num misto de otimismo e ansiedade. "Se isto não avança, o Académico morre em pouco tempo", diz.

Lima era "uma catedral do desporto"

À frente dos destinos da instituição há seis anos, a direção de Pedro Sarmento conseguiu fazer crescer o número de sócios do clube de 1200 para cerca de 2000, convertendo todos os praticantes em associados. Os planos do Académico do Porto já não passam por voltar a ser o clube que em tempos teve o maior estádio e complexo desportivo do norte do País, equipa sénior na primeira divisão do futebol e vencedores da Volta a Portugal como o mítico Ribeiro da Silva - consagrado na pista de ciclismo do Lima, onde também terminaram algumas edições da Volta e pela qual passaram figuras do ciclismo internacional como os italianos Fausto Copi e Gino Batalli.

"Chegou a ser um clube tão importante como o FC Porto", assevera o historiador Hélder Pacheco na obra que produziu para o centenário do clube, em 2011. "E o Campo do Lima era uma espécie de catedral do desporto português", acrescentava.

Fundado por antigos estudantes do Liceu Alexandre Herculano em 1991, o Académico Futebol Clube conseguiu em 1923 arrendar a antiga quinta do Lima, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, licitando um aluguer de 1600 escudos mensais [oito euros atuais]. O terreno, acidentado, cheio de sulcos, obrigou a grandes terraplanagens, tendo o Académico gastado na altura 42 mil escudos [210 euros].

Inaugurado em 1924, o Estádio do Lima era um recinto multidisciplinar, com bancada central coberta, bancada de cimento no topo Norte, zonas de peão, pistas de atletismo, de ciclismo e campo de basquetebol, para além de um pavilhão. Foi utilizado para jogos do FC Porto em várias ocasiões, sobretudo na década de 1940, tendo acolhido jogos históricos da vida dos azuis e brancos, como um particular com o Arsenal, em 1948, que terminou com um triunfo portista por 3-2, bem como vários jogos com o Benfica e com o Sporting (como o que foi imortalizado no Leão da Estrela). Ali se realizaram ainda partidas da seleção nacional (Itália, em 1931, e Áustria, em 1936), campeonatos nacionais de atletismo, provas velocipédicas e até corridas automóveis, entre outras.

O futuro projetado

Ao fim de 50 anos, no entanto, o Académico perderia, a favor da Misericórdia, o seu parque de jogos, não recebendo qualquer tipo de compensação, e dedicou-se às modalidades de pavilhão, aproveitando os dois recintos cobertos que construiu nas décadas de 1960 e 1970.

"O Académico é um clube de dimensão muito para lá do que é visível. Nós queremos ser um clube social, um local de convívio, de prática desportiva, mas com uma dimensão que vai para além da prática desportiva", resume o presidente Pedro Sarmento. "Temos três modalidades coletivas: basquetebol, hóquei em patins e andebol. São mais de 40 equipas a funcionar, 800 atletas, 2000 sócios. A nossa grande tradição é o setor feminino, que é reconhecidamente a grande pecha do desporto português. Temos equipas femininas em todos os escalões, quer no andebol quer no basquetebol", detalha.

Apesar de toda esta atividade, "o Académico não tem capacidade financeira", regista. "Nós vivemos na penúria", confessa de forma crua. Por isso, a expetativa redobrada em relação à conclusão do projeto que está nos gabinetes da Câmara. "Com isso, poderemos ganhar mais 50 anos de vida".

Para aquela zona da cidade, os projetos do Académico e os da empresa Vidor oferecem também a perspetiva de uma nova frente urbana que revitalize uma área secundarizada desde o desaparecimento do Estádio do Lima.

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