Cibersegurança: “Conseguimos entrar no sistema de uma grande empresa portuguesa”

Jorge Alcobia, diretor-geral da Multicert garante que Portugal não está preparado para ciberataques e que as sociedades de advogados são alvo fácil.
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A cibersegurança é uma das áreas em que a Multicert está a apostar fortemente. Jorge Alcobia, diretor-geral da empresa, admite que não há sistemas 100% seguros mas lamenta que os responsáveis em Portugal falem de uma forma “muito ligeira” sobre o tema e garante que estamos “pessimamente preparados” para ciberataques.

O responsável da Multicert garante ainda que o roubo de informação da sociedade de advogados dos Panama Papers pode perfeitamente acontecer a qualquer escritório em Portugal.

Vários estudos e inquéritos têm concluído que Portugal não está minimamente preparado para ciberataques e para o novo regulamento de proteção de dados.

Sim sim. Por exemplo, nós falamos com as principais sociedades de advogados do país, porque os advogados são uma fonte de fragilidade tremenda. São o terceiro setor mais atacado nos EUA. O primeiro é o financeiro e o segundo é a saúde. Veja o caso dos Panama Papers, por exemplo. Se fosse cliente da Mossack Fonseca, ainda os processava. Roubaram 2,6 terabytes de informação dos servidores sem que eles tivessem dado por nada.

Como é possível? E em Portugal, se nós quiséssemos fazer o mesmo à PLMJ, à Morais Leitão ou à Linklaters, era só escolher. Claro que é ilegal. Não se pode fazer. Mas a questão não é essa. Quem estiver muito motivado por qualquer razão que seja pode fazê-lo. Mas quando chegamos às sociedades de advogados a resposta deles é: nós temos um seguro para isto. E acham que a coisa se resolve assim. Os responsáveis em Portugal falam sobre estes temas de uma forma muito ligeira. Diria que estamos pessimamente preparados para isto.

A Inspeção-Geral de Finanças tem vindo a alertar há vários anos para o facto de os organismos públicos não estarem preparados para ciberataques. Neste ano, depois do ataque wanna cry foi anunciado um reforço do Centro Nacional de Cibersegurança (CNC).

O Centro Nacional de Cibersegurança está pensado, e bem, para defender o que se chama o perímetro das infraestruturas críticas. Vamos pensar em empresas como a REN, a EPAL. Mas hoje em dia o problema não está fora do perímetro, mas dentro do próprio perímetro. Eles estão preparados para ataques que venham de fora contra as firewalls e as redes de comunicação, etc. Mas o que vemos hoje em dia, como foi o wanna cry, é um ataque interno. Alguém dentro da empresa recebe um e-mail a dizer não sei o quê, clica e é por dentro que aquilo se faz.

Um bom hacker consegue entrar num sistema por muitas defesas que tenha. Não há sistemas 100% seguros pois não?

Não. Isso não existe. Nem a NSA é 100% segura. O que temos é de ter a capacidade para, ainda que alguém consiga entrar no sistema, detetar e impedir que não chegue a nenhuma coisa crítica.

O problema é que muitas vezes nem sequer dão por isso.

Pois, como foi o caso da Equifax, da Delloite ou da Yahoo, em que eles estiveram lá meses a fazer o que quiseram, sem ninguém dar por nada. E esse para mim é que é o grande tema. A espionagem industrial é feita a sério utilizando este tipo de coisas.

Não consigo perceber quando vamos aos clientes e falamos destes temas como é que assobiam para o lado. Não há um único cliente que nos tenha contratado que nós não tenhamos chegado a sítios críticos, normalmente em menos de uma semana.

Nós tivemos uma reunião com uma grande empresa portuguesa, em que o n.º1 da informática dizia que tinha a certeza de que era completamente impossível entrar no sistema deles. Tinham uma solução à prova de tudo. Mas nós conseguimos colocar uma pen num computador (até tirámos fotografias) e entrámos no sistema. E depois até imprimimos o relatório que íamos apresentar à administração. Eles diziam que não era possível. Mas foi.

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