Portugal tem “um imenso potencial de produtividade” na adoção de Inteligência Artificial

Portugal tem “um imenso potencial de produtividade” na adoção de Inteligência Artificial

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Bernardo Caldas é um dos oradores do Vodafone Open Day, com uma apresentação sobre a interação entre o humano e a máquina em contexto de trabalho. O especialista em Inteligência Artificial falou com o JN sobre o impacto que a IA pode ter no trabalho. 

O que é que a IA já consegue fazer hoje que tem resultados nas funções das pessoas?

Esta nova era da Inteligência Artificial generativa tem pouco tempo, o que quer dizer que ainda é muito cedo para termos dados fiáveis económicos e  de aumento de produtividade. Só nos podemos guiar por sinais iniciais e extrapolação a partir deles.

É mais ou menos evidente que funções muito digitais, que se fazem à frente do computador e que vivem muito à base da interligação de informação, são aquelas que estão mais em risco de serem automatizadas. A primeira profissão que teve um impacto mensurável e muito atacada teve a ver com o desenvolvimento de software. Já se vê de forma bastante mensurável um aumento de produção de códigos. 

Vemos ganhos equivalentes em tarefas de conhecimento muito intensivas, em advogados, em consultores. São estas as áreas muito digitais e com sofisticação cognitiva, que não costumam ser atacadas por soluções de automação, que estão a ser mais transformadas. Mas até conseguimos dizer que há um ganho de produtividade grande ainda é um salto.

Quais são as maiores oportunidades desta transição, principalmente num país como Portugal, onde a produtividade está sempre em cima da mesa?

Portugal, sendo um país que é uma economia de serviços e que funciona muito em economia digital já, tem imenso potencial de automação e por isso há um imenso potencial de produtividade.

Tem muito a ganhar na lógica de conseguir fazer a mesma produção económica, ter as empresas a venderem os mesmos produtos e serviços, mas a precisarem de menos pessoas para o fazer.

Mas isto só se traduz num ganho para a economia se não for uma estratégia única, porque senão temos somente desemprego e nada acontece. É preciso que a economia consiga aproveitar o excedente de capacidade para produzir mais, para fazer novos produtos e serviços. 

Portugal é uma economia já bastante exportadora, que se tem vindo a sofisticar a nível de exportação tecnológica. Se adotar a IA com mais velocidade do que outras economias, pode beneficiar muito de ter mais produtos e serviços a um custo mais baixo. Nessa lógica, pode ser uma oportunidade ótima para o tecido empresarial português. 

Aquilo que vai ser a moeda de troca da Inteligência Artificial é a energia. Por isso é que temos as grandes tecnológicas a investirem muito em infraestrutura energética própria.

E Portugal, para isto, está extraordinariamente bem posicionado, porque nós temos energia muito barata e renováveis. Isso pode-nos dar alguma vantagem, não só na adoção da IA por parte das nossas empresas, mas também como sendo parte da infraestrutura mundial, que pode ser uma vantagem difícil de replicar para outros países.

Há algum sector que vá beneficiar mais?

Qualquer indústria que tenha na sua transformação tecnológica uma barreira verá na Inteligência Artificial uma ferramenta para catapultar a produtividade.

A saúde é um sector evidente, que é totalmente dependente de recursos humanos hiper escassos e por isso qualquer ajuda na automação é útil.

É um sector em que a capacidade de adaptar seguindo um processo, havendo guidelines de como é que se trata determinadas doenças, a capacidade de adaptar é super importante e a IA já é capaz de fazer isto muito bem. Juntam-se aqui duas realidades: uma dependência enorme de recursos humanos e com imensa escassez e, por outro lado, com uma capacidade de aproveitar a informação existente para automatizar alguns processos que faz com que a saúde seja um sector ótimo.

Mas os serviços financeiros são outro. É um sector que tem tido pouca competição. Os custos de entrada eram bastante elevados e são brutalmente ajudados com a automação. Por isso também estamos a ver uma adoção inacreditável e com enormes ganhos de produtividade no sector financeiro, principalmente nas fintechs.

Tem havido estudos sobre o desfasamento entre o investimento em projetos de IA e resultados concretos. Em termos da implementação de soluções nas empresas, quais são os maiores desafios?

Este estudo é mal citado porque procurava coisas que são irrealistas, procurava retorno numa tecnologia experimental emergente em seis meses. Isso não existe. Um CEO que desiste de uma transformação ao fim de seis meses porque não está a ser bem-sucedida não tem capacidade de resistir a um processo de transformação, que será sempre lento.

Na exploração da IA, vai ser normal tentarmos automatizar coisas que não funcionam e outros casos em que vamos ter sucesso e é impossível prever. O grande desafio não é tanto a capacitação tecnológica, nem tanto os recursos humanos. Ganham as organizações que sejam muito rápidas a experimentar, a testar, e em que a cultura da experimentação não seja vista com maus olhos. Porque para acertar uma vez, vai-se falhar dez. E é natural que assim seja.

A segunda barreira é um esforço totalmente descentralizado, em que cada área explora por si só. Se olharmos para esta imagem de que a IA acelera a velocidade de transformação, uma empresa em que cada um vai para seu lado também acelera a velocidade com que se desconjunta.

É preciso coragem de lideranças e, acima de tudo, que tenham as mãos na massa. 

Fala-se também de funcionários que estão a tentar boicotar a IA. Como endereçar isso?

Há um fenómeno muito interessante dos chamados ‘shadow cyborgs’, que já usam a tecnologia como complemento às suas capacidades, mas que o fazem às escondidas. Isto acontece quando as lideranças não sabem muito bem o que é que a tecnologia faz. A pessoa que antes demorava uma semana a fazer uma tarefa agora demora duas horas, mas o resto do tempo que ganhou guarda para si. Também se vê esse fenómeno contrário, que é um certo boicote por parte dos colaboradores.

As organizações têm de arranjar estruturas de incentivos para beneficiar quem ajuda a transformar a empresa. Por um lado, incentivando a descoberta e a utilização, por outro minimizando os receios de falha.

O bom colaborador do futuro é aquele que descobre áreas de negócio, problemas para resolver e que depois mobiliza a tecnologia para resolver. O colaborador que diz ‘não, isto substitui a minha tarefa’, está condenado a ficar irrelevante. 

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