Visão de Siza para o Alhambra pode ter segunda vida

Uma reunião "a realizar nos próximos dias no Porto" poderá desbloquear o projeto de Álvaro Siza. O trabalho está desde ontem e até 28 de maio em exposição no Museu de Serralves

À entrada da biblioteca de Serralves, onde a partir de hoje pode ser vista a exposição Visões da Alhambra, e sob o olhar atento do esquiço de Álvaro Siza traçado a preto sobre a parede branca, uma maquete lembra a polémica em que o projeto assinado pelo arquiteto português e o colega granadino Juan Domingo Santos se viu envolvido. Uma publicidade anti-projeto critica a sua grande dimensão (16 mil metros quadrados) e o elevado custo (50 milhões de euros). As dimensões são mais modestas (5700 metros quadrados, grande parte da qual oculta pelo declive natural) como se pode conferir logo na primeira sala onde o curador da exposição, António Choupinha, junta uma maquete, um vídeo, o skyline de Granada e ainda alguns esboços. "Desde o primeiríssimo esquiço, com uma solução totalmente diversa daquela que acabou por ser adotada", referiu ontem ao final da tarde durante a visita de inauguração ao público na Fundação de Serralves, no Porto.

Não excluo que para vencer obstáculos se estude até mais profundamente, não excluo que das críticas venham clarificações

Antes dessa visita, que através de esquiços, maquetes, vídeos, entrevistas, fotografias e livros mostra a solução encontrada pela dupla de arquitetos para a modernização da estrutura de acolhimento dos 8500 visitantes que o conjunto do Alhambra recebe diariamente, Álvaro Siza falou com a comunicação social recordando as vicissitudes do projeto. E foi já mesmo na reta final da conferência de imprensa que revelou a possível segunda vida deste seu projeto, ao adiantar que "está pedida uma reunião para os próximos dias, no Porto" para se debater o projeto que em fevereiro de 2011 venceu o concurso público lançado pelo Patronato de Alhambra.

Um dos aspetos que Álvaro Siza admite rever é a dimensão. "A verdade é que o programa era muito extenso e pormenorizado. Foi feito por quem tinha uma grande experiência sobre os problemas reais da estrutura de acolhimento dos visitantes [Maria del Mar, então presidente do Patronato de Alhambra]", concede o arquiteto referindo que logo durante a execução do projeto se falou na sua diminuição. "Na realidade, a área é a que vinha no programa. Mas se for esse o problema, é possível diminuir a área", afirma. E avança logo como duas possibilidades: a área de estacionamento prevista para os funcionários e a dimensão ocupada pela cafetaria. Neste último caso, sublinha, "a área foi aumentada durante a execução do projeto por causa da concessão entretanto atribuída". "Contestámos, mas aumentámos a área da cafetaria. Na realidade, por maior que seja, nunca será suficiente", refere.

"Não excluo que para vencer obstáculos se estude até mais profundamente, não excluo que das críticas venham clarificações", diz o arquiteto português que, no entanto, não deixa de mostrar o seu descontentamento com o parecer do Icomos Espanha conhecido em dezembro de 2016.

Um parecer - "não vinculativo", sublinhou Juan Domingo Santos - do organismo consultivo da UNESCO para o património cultural que considerou a solução proposta pela dupla de arquitetos "demasiado invasiva" e tendo um "impacto negativo no valor universal excecional deste monumento património mundial".

Uma apreciação que Álvaro Siza considera "impossível", uma vez que esse mesmo parecer classifica o projeto como bom, mas não para aquele sítio. "Ora, quando um projeto não é bom para aquele lugar, é mau", afirmou o arquiteto português, vencedor do Prémio Pritzker em 1992.

Classificado pelo próprio Álvaro Siza como "mítico", o projeto, fortemente condicionado pelas raízes históricas da cidade de Granada e pela topografia da zona de implantação, inclui um terraço panorâmico e um edifício de acolhimento por baixo desse mesmo terraço, ficando, em grande parte, absorvido pelo declive do terreno. Além disso, através de uma sucessão de plataformas com pátios de sombra e água, o programa arquitetónico incluiu também a recuperação de antigas áreas agrícolas.

Esta exposição, que vem na linha seguida pela Fundação de Serralves que em 2016 organizou Matéria Prima a partir do arquivo doado à instituição por Álvaro Siza, foi originalmente apresentada na Aedes Architecture Forum de Berlim, no Vitra Design Museum de Weil am Rhein, no Palácio de Carlos V em Granada, no National Museum of Art, Architecture and Design da Noruega, em Oslo e ainda no Aga Khan Museum de Toronto.

E Kristin Feiriss, da instituição alemã, presente ontem na inauguração no Porto, defendeu a execução do projeto, garantindo que "o júri [do concurso] escolheu o melhor projeto. E eu conheço-os todos". Fazendo um paralelo com polémicas anteriores do mesmo género, lembrou a contestação pública em torno da construção da pirâmide do Louvre.

Resta saber se o tom encontrado para o projeto, "entre a delicadeza e a beleza do Alhambra e a monumentalidade do Palácio de Carlos V, do século XVI" como o enquadrou Álvaro Siza, virá ou não a vencer as vozes que a ele se opõem. Para já, e até 28 de maio, esta mostra que ocupa a Biblioteca da Fundação de Serralves, dá também um contributo ao "mostrar a verdadeira realidade do projeto e esclarecer a opinião pública", assume o curador António Choupinha.


Álvaro Siza Vieira: Visões da Alhambra

Museu de Serralves, Porto

Até 28 de maio. De terça a sexta, das 10.00 às 18.00; Sábados e domingos das 10.00 às 19.00

Bilhetes: 10 euros

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