Valter Hugo Mãe recusou usar palavra 'não' no último livro

Até agora ninguém reparou que nas 200 páginas de Homens imprudentemente poéticos há uma palavra que nunca é utilizada: o 'Não'

Do escritor Valter Hugo Mãe conhecia-se a decisão de escrever em minúsculas durante uma boa parte do seu percurso enquanto romancista, mas não se esperava que decidisse introduzir uma particularidade no seu mais recente livro, Homens imprudentemente poéticos: a ausência da palavra Não ao longo das suas 200 páginas. É isso que acontece e que, curiosamente, tem passado despercebido.

Questionado sobre esta situação, o escritor confirma que o fez intencionalmente e logo nas primeiras das muitas versões que este romance lhe exigiu: "Um dos desafios do livro foi exatamente esse, o de alguma coisa que nunca poderia ser dita." Como o cenário do romance é totalmente o do Japão, Valter Hugo Mãe estabeleceu esse compromisso com as personagens: "A palavra Não sublinha um traço impróprio no Japão, porque difere da relação cerimoniosa que estabelecem uns com os outros. Os japoneses evitam dizer por norma Não e optam por uma expressão para essa negativa que, traduzida à letra, terá o significado de "isso é difícil". Por isso, várias vezes no romance as personagens respondem deste modo. O que é uma negativa educada, com que dão a entender ao interlocutor que o que lhe é pedido é impossível de fazer, mas sem o hostilizar."

No entender do autor, o verdadeiro sentido da palavra Não é de uma recusa perentória, ou seja, "essa negativa intermédia que os japoneses usam acaba por ser a solicitação do entendimento do outro sem que a conversa atinja o seu limite. Coisa que entre nós acontece muitas vezes, levando com o Não o diálogo ao limite".

Ter mantido esse registo na narrativa de Homens imprudentemente poéticos não foi coisa fácil para Valter Hugo Mãe, como confessa: "Na nossa cultura discursiva o Não parece inevitável, pois somos educados para a aprendizagem dessa palavra como presença fundamental na construção da dignidade ou da liberdade. Daí que seja uma pulsão natural e cultural a de fazermos uma negativa absoluta e inequívoca. A escrita deste meu novo romance acabou por ser uma negação de toda esta cultura."

Quanto à dificuldade em erradicar o Não da escrita deste último livro, o autor garante que lhe foi difícil: "Sobretudo no arranque, pois a eloquência da frase queria por vezes o Não e, em alguns instantes, apanhava-me a escrever a palavra sem conseguir dominar a sua ausência. Sem querer, a palavra Não já lá estava, como se a própria estética da frase precisasse da palavra para o que queria dizer." Acrescenta que, frequentemente, o que estava em causa "era verdadeiramente uma certa resistência àquilo que somos".

Este foi um dos detalhes que mais o fez reincidir em versões: "Ao querer outra perspetiva da negativa, esse jogo de evitar o Não obrigava a que a sua ausência não fosse gritante, desequilibrasse e gerasse um desafio de leitura ou desatenção. Quando vejo que leram o livro e não o sentiram emperrado, agrada-me."

Valter Hugo Mãe parte hoje para o Brasil, onde fará uma digressão a divulgar este livro e os que a sua nova editora, A Biblioteca Azul, relançou. Refira-se que vários dos seus livros superaram no Brasil vendas de 50 mil exemplares.

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