Uma nova vida para um pequeno teatro de bairro à italiana

Os arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira ganharam o concurso que recupera um espaço do final do século XIX.

Quem passa pela Calçada da Ajuda pode não dar por ele, o Teatro Camões, um teatro de bairro à italiana, como se usava na época em que foi construído, 1880, de fachada simples, engavetado entre dois prédios. Mais agora, escondido sob andaimes, em recuperação pela Sociedade de Reabilitação Urbana Lisboa Ocidental (SRU) para ser devolvido à função de teatro.

Encerrado ao público pela Inspeção Geral de Atividades Culturais por razões de segurança, em 2012 foi aberto um concurso para arquitetos com experiência de teatros, caso de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, autores do projeto do atual Teatro de Almada, que foram escolhidos para conceber o projeto de reabilitação. As obras começaram em 2015 e, segundo Teresa do Passo, presidente da SRU, deverão estar concluídos no terceiro trimestre de 2017. O valor contratual da empreitada de reabilitação é de 1111 252,25 euros, sem IVA.

Morada do Belém Clube a partir de 1899, o Teatro Camões passou para a alçada da Câmara Municipal de Lisboa em 1967, mantendo-se arrendado à associação até 2015, quando esta foi realojada num novo edifício na rua da Junqueira, reabilitado por José Adrião. A futura sala de espetáculos será da responsabilidade dos Serviços Municipais de Cultura e é mais uma novidade num eixo cheio de interesses turísticos, que Teresa do Passo elenca do rio para o Palácio da Ajuda: Museu da Fundação EDP, Museu dos Coches, Picadeiro Henrique Calado e a reabilitação da envolvente da Igreja da Memória.

O Teatro Camões, que terá lugar para 250 pessoas (50 das quais nos pequenos camarotes do primeiro andar) foi mandado construir por um comerciante do bairro da Ajuda, Joaquim Maria Nunes. O projeto é da autoria do arquiteto João da Cunha Açúcar no Sistema de Informação do Património Arquitetónico (SIPA), e, nas pesquisa do escritório de Graça Dias e Egas José Vieira, Contemporânea, o local recebeu obras nos anos 30. Pilaretes e frisos receberam uma pintura art déco, que escondia a original, que voltará ao que era no final do século XIX.

Uma notícia de um jornal referia que "decorado com certo gosto a branco e ouro, veem-se no teto algumas figuras da mitologia alegórica artisticamente pintadas a óleo", conta Graça Dias. Essas madeiras foram retiradas para restauro, eliminando os painéis colocados nos anos 30 de que só restará um, para memória futura, a pendurar numa parede.

No computador, os arquitetos Graça Dias e Egas José Vieira, mostram fotografias do que viram e explicam como vai ficar. As mudanças foram feitas pelo mínimo, asseguram. "Não lhe queremos tirar o charme", avisa Vieira. "Adaptamos a legislação corrente sem beliscar o essencial do que lá estava". Mas depararam-se com surpresas. "Aparentemente estava tudo bem, mas por dentro estava tudo podre", resume.

O chão teve de ser substituído por completo. Graça Dias mostra uma fotografia de um chão muito brilhante. "Pode dizer que tem um belo pavimento, ainda se pode aproveitar, são madeiras antigas, e assim ficou no nosso projeto, mas quando começou a ser mexido, estas madeiras estavam diretamente em cima da terra nem sequer tinham uma caixa de ar e estavam podres". A substituição, que não era intenção dos arquitetos, tornou-se então obrigatória.

Também foi necessário eliminar uma fila de cadeiras na galeria que emoldura a plateia. "Criámos um corredor técnico e de segurança, obrigatório, porque a entrada e saída é só uma". E na plateia criaram-se lugares para pessoas com mobilidade reduzida, respeitando as leis atuais, e aumentou-se a dimensão da régie.

As fotografias dos arquitetos mostram o espaço antes de ser desocupado. Os candeeiros deveriam manter-se, mas desapareceram no momento das mudanças, conta Graça Dias. "Pontuavam a sala, mas agora vamos ter de encontrar outra solução". Hão de reaparecer os brancos e os veludos vermelhos da sala, tal como os pilaretes que acompanham o comprimento da sala, "que criam um ritmo muito importante", diz Vieira. Ficam, com painéis vermelhos a contrastar e, atrás, onde antes havia mais uma fila de cadeiras, será o corredor técnico e de emergência, obrigatório agora, mas não quando o teatro foi construído. "Tudo o que se fizer é contemporâneo mas documentado", avisa a dupla. "O que queremos é repor o ambiente que muitas pessoas não conheceram".

As três portas da fachada dão para espaços muito exíguos de cinco metros quadrados de profundidade, que, por sua vez, tinha três portas que encaminhavam para a sala. É a primeira intervenção que os espetadores vão notar quando chegarem cruzarem as portas 76, 78 ou 80 da Calçada da Ajuda: retirar as portas e abrir outra porta simétrica que aumenta o espaço de circulação. "Pela porta da frente entravam diretamente para as galerias [e para o camarote real forrado a papel de parede imitando damasco], pelas outras imediatamente para a plateia", diz Egas José Vieira. "Ainda conseguimos criar aqui duas casas de banho, um bengaleiro e as bilheteiras", explica Graça Dias. No segundo andar ficará o futuro bar do Teatro Camões, depois de passar um foyer que os arquitetos abriram.

As escadas, muito empinadas, eram um desafio de segurança. "Deixamos a escada antiga, mas construímos outra em cima, mais confortável", diz Graça Dias, recorrendo aos alçados do projeto. "Há de ter uma guarda muito empinada e outra menos empinada, uma escada ligeiramente mais estreita, que permite ver a outra".

Subpalco, camarins e casas de banho e no terceiro piso zonas de trabalho são novos. Egas José Vieira conta que se depararam com asnas cortadas no palco. É uma zona nova, "feita de maneira que não se vê da rua", assegura.

Na fachada tudo se manterá. Como no projeto original. Nas pesquisas foi encontrada uma foto original que deixou perceber que o edifício era de cor mais escura, um vermelho escuro tijolo. Os arquitetos só propõem uma novidade: o busto de Luís de Camões ao centro.

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