Uma ilha desabitada na qual a mensagem central é a esperança

A orquestra barroca Divino Sospiro leva amanhã e sábado ao CCB (sempre às 20.00) a serenata L"isola
disabitata
, de Davide Perez (1711-78), com encenação de Carlos Pimenta e direção musical de Massimo Mazzeo, à frente de um quarteto de cantores

Há ano e meio, foi a estreia moderna em Queluz, após quase 250 anos de esquecimento. Agora, L'isola disabitata volta a mostrar-se ao público, desta feita no Grande Auditório do CCB. E em versão cénica, a cargo de Carlos Pimenta, autor de memorável colaboração com o Divino Sospiro em 2011, no Antigono, de Mazzoni, também no CCB.

Onde então havia "fusão dos cantores na cena", há agora, para o encenador, "três dimensões bem claras: a profundidade de campo, o desenho vídeo e a ação cénica". E nesta, "há jogo teatral, intriga" e "cada personagem tem um tipo determinado", o que faz desta uma "história para ser contada e vivida em cena". E a cena "não realista, não naturalista, é só a praia e uma rocha, não pede mais nada. O que me agrada, porque gosto de espaços cénicos muito simples".

No drama, vê "a dicotomia seres da civilização/seres da Natureza", enriquecida pela "ideia do estrangeiro, do exótico, da viagem e descoberta do Outro". Para ele, Enrico e Gernando são como "emigrantes, que foram para a cidade e adotaram outros costumes, regressando 13 anos depois"; ao passo que Costanza e Silvia "ficaram agarradas a um único conceito", mais atávico, provinciano. Mas interessou-lhe colocar questões: "Como recupera Costanza do remorso de ter odiado Gernando? Como adota Silvia, que vive ali desde pequenina, uma visão diametralmente diferente do que são os homens?" Já para o par masculino, pensou em Shakespeare: "Se Gernando é o Hamlet, então Enrico é Horatio: o amigo fiel e dedicado, que vive na sombra e faz tudo por Gernando". Curiosamente, diz, "é Silvia, ao perguntar-lhe o nome, que o faz tomar consciência da sua pessoa e é por intermédio dela que ele se autonomiza!"

E ele - Enrico - é ela: Eduarda Melo. Mas nada de novo para o soprano: "já cantei papéis masculinos em três ocasiões anteriores", mas admite certa estranheza inicial em "cantar num corpo que não é o meu!" Isto porque o papel de Enrico foi originalmente destinado a um castrato, numa tessitura hoje só ao alcance de mulheres: "O papel é muito exigente e requer uma vocalidade bem diferente da de um soprano normal". Para Eduarda, Enrico tem algo "de narrador e de mediador" na história e vê em Gernando "uma figura de irmão mais velho". E "aos olhos de Silvia, a quem Costanza sempre ensinou que todos os homens eram maus, ele aparece como um ser da estratosfera, pois não encaixa de todo nessa maldade". E o seu "sentido do dever para com Gernando faz com que este esteja sempre em primeiro lugar para Enrico, mesmo depois dele e Silvia se apaixonarem". No amor deles, vê Eduarda "a fusão harmoniosa de civilização e natureza" e não "uma anexação dela por ele". Na verdade, adianta, "se houvesse uma Isola-parte 2, não sei se eles não ficariam mesmo a morar na ilha!..."

Quem já "mora" nesta ilha há muito é Massimo Mazzeo, para o qual esta reposição "é natural e integra-se num processo orgânico", a saber: a recuperação das serenatas portuguesas do século XVIII. Daí que faça "todo o sentido apresentá-la em tantos palcos quanto possível, e agora numa "tradução" cénica para o nosso tempo e para o público hodierno", como é aquela realizada por Carlos Pimenta. Já em relação ao corolário-gravação (CD/ DVD), é mais prudente: "vamos gravar as récitas e logo se verá..."

Nesta Isola disabitata vê Massimo "um texto pensado para o teatro, muito simples, mas com vários estratos dentro dessa simplicidade". Mas nada de obscuridades: "Ação, cena e mensagem são claras. E dentro da mensagem, as possíveis leituras são também claras". Algo que o maestro associa a "um propósito iluminista, cuja ideia condutora é a esperança", culminando no feliz desenlace e servida por "árias que são todas positivas, viradas para o lado solar".

Em contraste, a música "é levado aos extremos, é excessiva e plena de transformação, de experimentação, de instabilidade". Nela encontramos, justapostos, "o quadrado e o explosivo" - este, diz, "quase "agredindo" a parte vocal". Do que resulta "uma orquestra sempre a trabalhar intensamente, mas donde não pode nunca "passar" a ideia de agressividade", cabendo ao maestro "encontrar a linha justa, o equilíbrio fino e ténue" que sirva esta "serenata brilhante".

L'isola disabitata

solistas: Joana Seara (Costanza), Francesca Aspromonte (Silvia), Eduarda Melo (Enrico), Bruno Almeida (Gernando)

direção musical: Massimo Mazzeo

encenação: Carlos Pimenta

figurinos: José António Tenente

Grande Auditório do CCB, amanhã e sábado, às 20.00

bilhetes dos 10 euros aos 30 euros

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