Uma Elisabete Matos guerreira numa ópera escrita por um coração dilacerado

Teatro São Carlos estreia hoje o "Nabucco", obra que tornou Verdi famoso, dirigido por Antonio Pirolli, com o soprano Elisabete Matos no papel de Abigaille. Cinco récitas até dia 18, completam a atual temporada

Quando Itália celebrou os 150 anos da unificação, um movimento popular tentou que o hino italiano passasse a ser o coro Va, pensiero, do Nabucco verdiano, um dos trechos operáticos mais universalmente conhecidos. O movimento não vingou, mas a tentativa ilustra quanto os italianos gostam do trecho e quanto nele se identificam com a ideia de pátria desde que pela primeira vez foi escutado, em março de 1842.

É precisamento o Nabucco, ópera de "alma forte e espírito grande", no dizer de André Heller-Lopes, o encenador, que sobe agora à cena no Teatro São Carlos, concluindo a corrente temporada lírica. "É uma ópera escrita por um coração dilacerado", continua André, referindo-se ao estado de espírito de Verdi quando a escreveu - "ele escreveu-a para conseguir sobreviver ao desespero, sem ligar a convenções ou posteridades e na qual sentes a juventude e a gana de Verdi. A violência da escrita é altamente moderna e não se encontra em nada coevo", conclui.

Sobre a sua conceção, explica que "mantém as ideias centrais do primeiro Nabucco que encenei [Rio e Belo Horizonte, 2011], como sejam: a ideia de intolerância como geradora de todos os dramas e tragédias; a inexistência de inocentes e vilões; e a de que hebreus e assírios são, no fundo, irmãos".

Conotações que levam André a falar de "um discurso atual, mas apoiado numa encenação de recorte clássico com um twist moderno", que permite o encontro de música e estética visual". Nesta, o princípio central é, diz, "a mudança de cena à vista, que tanto parece mostrar os altos-relevos de Petra quanto os rolos guardados das Escrituras".

A multidão e os indivíduos

Na ópera do Va, pensiero, André vê no coro "um dos grandes protagonistas, seja do lado assírio, seja do hebreu", mas também descobre, pelo meio, "personalidades muito particulares, como Zaccaria, Abigaille ou Nabucco". Do primeiro, diz ser "um daqueles líderes religiosos extremistas que surgem em momentos de desespero"; já de Abigaille, fulcro dramático da ópera, di-la "uma mulher à beira de um ataque de nervos, que não conheceu nem concebe o que seja o amor e cuja natureza inflexível a leva a entrar em choque com todos". Por fim, do rei assírio que dá o nome à ópera, André destaca "a sua evolução: de cabo-de-guerra triunfante e soberbo, no início da ópera, até ao simples pai e homem do final", não sem esquecer que "ele faz aceção entre as filhas [Abigaille, a mais velha, adotada; Fenena, filha de sangue]".

No final, "não há redenção para ninguém" e explica: "Abigaille é a grande mártir: matar-se é a única solução num mundo onde não vê mais nenhuma chance e onde foi repudiada por todos". Um desfecho "obrigatório para os padrões do século XIX, onde a heroína trágica que sai da "norma", ou enlouquece ou se mata!" Na estreia de Elisabete Matos como Abigaille em Lisboa, André fala do papel: "É um papel sanguinário de uma mulher guerreira e furiosa, mas que também tem árias muito líricas." E revela uma concessão curiosa que fez: "Quem canta esse papel, tem só por isso direito a ter as suas próprias ideias!"

Já a conversão final de Nabucco está "tingida", pois "ele oferece-se ao deus dos Hebreus, para obter a salvação da sua filha Fenena".

Encenador tradicionalista

"Eu pertenço à primeira geração de encenadores brasileiros que se dedicam em exclusividade à ópera", esclarece André Heller-Lopes. No seu currículo conta já com um ciclo completo do Anel do Nibelungo de Wagner (foi o primeiro brasileiro a encená-lo).

"Eu defendo um estilo de encenação mesmo "de" ópera, isto é, com coisas grandiosas", explica, e uma das razões será o facto de o preocupar "a comunicação com o público tradicional", ao passo que as ideias cénicas com ligação à atualidade estabelecem, crê, "a ligação com a geração mais jovem".

Do Nabucco, por fim, considera que é uma ópera "para ser ouvida com muito coração" e na qual a música "tem uma força tal que facilita muito o trabalho do encenador, se este a compreender intimamente". A compreensão que, ele espera, passe integralmente para o público que já esgotou oficialmente as cinco récitas.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG