Uma Casa da Arquitetura para todos. Arquitetos e não só

A Real Vinícola será, a partir de 16 de junho, a sede da Casa da Arquitetura. Um inventário de arquivos e montra do trabalho dos arquitetos que ontem foi apresentado em Veneza. Custa 6 milhões de euros à câmara.

A Bienal de Arquitetura de Veneza termina hoje, seis meses após o arranque. Siza Vieira, a quem coube representar Portugal este ano, fechou a edição numa conferência na reitoria da universidade onde foi anunciada a Casa da Arquitetura (CA), um projeto da câmara de Matosinhos, a cidade natal do primeiro prémio Pritzker português. A inauguração está marcada para 16 de junho. "Estimamos que corra bem e que tenha vida longa. É importante", disse o arquiteto, no final da conferência, numa pausa da longa fila de jovens estudantes que lhe pediam um autógrafo.

"Uma casa da arquitetura para não arquitetos", resumiu o arquiteto Nuno Sampaio, à frente da CA, antes da apresentação oficial. E que será também um centro de investigação, assegura. Num país, Portugal, onde brotaram dois prémios Pritzker, Álvaro Siza e Souto Moura, mas onde não existe uma instituição que se dedique em exclusivo a esta disciplina, apesar das tentativas. Onde tão-pouco existe uma entidade que centralize os arquivos de todos os arquitetos portugueses.

Nuno Sampaio traça três eixos de trabalho da CA. Cuidar, tratar e celebrar o trabalho de arquitetura, espalhado em pelo menos 26 instituições, entre câmaras municipais, Fundação Calouste Gulbenkian, de Serralves, Marques da Silva, Ordem dos Arquitetos ou ou até mesmo a Associação 25 de Abril, que têm à sua guarda alguns dos projetos mais relevantes. À cabeça destas instituições está o SIPA (Sistema de Informação de Património Arquitetónico), instalado no Forte de Sacavém, que reúne todas as encomendas do Estado (do Ultramar aos primeiros modernistas), mas que não tem a missão de expor o acervo. É com eles que a Casa da Arquitetura quer formar uma rede. Acordo formal só com a câmara de Matosinhos, que, em regime de comodato, entrega à CA uma coleção de 500 maquetes de trabalhos de Souto Moura, e os projetos de Fernando Távora para a Quinta da Conceição ou os da Casa de Chá da Boa Nova e das piscinas de Leça, ambos de Álvaro Siza. Todos pertencentes à autarquia.

A câmara de Matosinhos é a única entidade pública que financia a Casa da Arquitetura. Chamou a si a regeneração dos 8 mil metros quadrados da novercentista Real Vinícola, um projeto de Guilherme Machado Vaz de quase 6 milhões de euros (3,2 milhões para a recuperação do imóvel, 2 milhões para a CA e 700 mil para aquisição de material específico de tratamento do arquivo).

A Casa da Arquitetura ocupa 5 mil metros e 800 serão usados na nave que receberá as exposições, pagas. Os restantes destinam-se ao arquivo, para o qual foram encomendadas duas coleções. João Belo Rodeia, Ricardo Carvalho e Graça Correia trabalham a arquitetura pós-25 de abril (1974-1999), Guilherme Wisnik e Fernando Serapião ocupam-se da arquitetura brasileira (com representação de Paulo Mendes da Rocha). Em dois anos, a CA espera ter reunido cerca de 300 projetos de mais de 100 profissionais.

No projeto aparecem espaços comerciais, cujo arrendamento reverte para a própria CA, explicou Nuno Sampaio. A autarquia conta estabelecer acordos com empresas e candidatar-se a fundos comunitários, que também contribuam para o orçamento anual de 2 ou 2,5 milhões de euros, nos cálculos de Nuno Sampaio.

Sob a alçada da CA está já Casa de Chá da Boa Nova e, no futuro, ficará a atual sede da associação, na velha casa de família de Siza Vieira, adquirida ainda no tempo dos contos pela autarquia. O seu futuro está "em estudo", afirma o vereador Cultura de Matosinhos, Fernando Rocha. "Pública será na mesma", garante. Sampaio levanta uma possibilidade: acolher residências artísticas de quem queira trabalhar o arquivo da Casa.

O Poder e "Os Universalistas"

A inauguração da Casa da Arquitetura faz-se com a exposição "Poder Arquitetura", comissariada pelos arquitetos Jorge Carvalho (a quem cabe o design expositivo), Ricardo Carvalho e Pedro Bandeira. Uma constelação de cerca de meia centena de projetos (Siza, Souto, 51N4E, Assemble, David Chipperfield ou Lacaton & Vassal...), oriundos de diversas geografias (Portugal, mas também Sri Lanka ou Noruega), todos os século XXI, que articulam as várias faces do poder, a partir de maquetes, fotografia, vídeo. Ao mesmo tempo será editado um livro, com 9 ensaios científicos. O arquiteto Roberto Cresmacoli preparou uma série de conferências que terminam com a intervenção num quarteirão

"Os Universalistas" é a outra exposição já confirmada para o primeiro ano de vida da Casa da Arquitetura, a partir de uma parceria da Fundação Calouste Gulbenkian e da Cité de L"Architecture. A mostra esteve em Paris nos primeiros meses do ano e instala-se na Real Vinícola a finais de setembro. Ainda em 2017, a Casa da Arquitetura assegurará a Open House, Será a terceira edição no Porto, a primeira vez a solo.

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