Um pessimista que pintou um Fernando Pessoa de oito andares

Odeith faz da Amadora a sua galeria ao ar livre. Um Fernando Pessoa que tem Amália Rodrigues, Zeca Afonso e Carlos Paredes como vizinhos é a sua mais recente criação

"É o Fernando Pessoa. Percebe-se! É o Fernando Pessoa", diz o homem à entrada da estação de metro Amadora-Este, dando conta da mais recente novidade da zona - o último mural feito por Odeith que ocupa a empena de um dos edifícios. É o quarto retrato que pinta nesta zona, que, pode dizer-se, se tornou um museu ao ar livre do seu trabalho.

À boleia das Conversas na Rua, uma ideia nascida para retirar o estigma da Amadora e levar os artistas portugueses para esta zona, Catarina Martins convidou Sérgio, conhecido como Odeith no mundo dos graffiti e da arte urbana, para pintar uma parede. Foi em 2015 e ele escolheu Carlos Paredes. Sucederam-lhe, logo ali ao lado, Amália Rodrigues e Zeca Afonso. Neste ano, trouxe um escritor. O homem que passa tem razão. É Fernando Pessoa. Percebe-se.

Odeith fez os últimos retoques no sábado, dia 23. Exigiu grua elevatória, cerca de 200 latas de spray e oito dias de trabalho. "Dois foram só para o contorno", explica o autor, deixando assim claro o que foi mais complicado nesta tarefa. Depois, pintar. E, agora, sentado num banco de jardim ali mesmo ao lado, já fazia mudanças. "A calçada, por exemplo." Quem passa anda de cabeça no ar. E quando descia da altura de oito andares a que pintou ouviu-os. "Tens um dom...", "Está ficar muito bom..."

Sérgio, 41 anos neste ano, cresceu na Damaia e faz parte de uma segunda geração de gente que usou os graffiti nas ruas. Uma geração "intermédia", entre os pioneiros de Carcavelos e aqueles que puseram os graffiti nacionais no mapa.

Esses primeiros artistas dos graffiti eram meia dúzia de rapazes que começaram a pintar depois de verem outros - um grupo de franceses que tinham ido fazer surf para Carcavelos. "Já é história dos graffiti. Nessa época, anos 1990, pintou paredes legais e ilegais, escreveu o nome nas carruagens de comboios. "Não era como agora que não há um metro quadrado para pintar." Nessa época, sem internet nem redes sociais, "tentávamos encontrar paredes legais, com lettering ou sem lettering, sempre na esperança de que passasse alguém que nos pedisse para fazer um trabalho". Damaia e Amoreiras foram alguns dos locais onde ele e outros artistas vindos dos graffiti se mostraram.

Problemas com a polícia? "Sim, mas nada de grave." Aconteceu até um dia ser apanhado na Segunda Circular e semanas depois estavam a convidá-lo para fazer um mural legal. Foi "há dois, três anos", e nessa época, Sérgio já era Odeith.

Quando tudo começou, Sérgio era Eyth. Até lhe ter parecido que um "i" em vez de um "y" daria para fazer "coisas mais interessantes". Então, ficou Eith. "Queria que soasse a ódio em inglês." Após uma pausa na carreira dos graffiti, Sérgio decidiu voltar como Odeith. "Sempre fui uma pessoa mais pessimista, vou sempre pensando no pior. Por exemplo, o Benfica, eu já estava à espera daquele resultado." Alude aos cinco golos sofridos pela equipa portuguesa contra o Basileia, no dia anterior à entrevista ao DN. Há mais. "Eu pintei em todos os guetos da Damaia. Há um mural na Damaia que fica na fronteira entre a urbanização moderna e a Cova da Moura. De um lado, os problemas criados pela sociedade, do outro, o pessoal nos seus apartamentozinhos."

Sérgio, que prefere não revelar o apelido verdadeiro, saiu da escola aos 15 anos, começou a carregar móveis com o pai. Passou na A5 - "acho que foi na A5", diz ao DN - e viu umas chapas pintadas. "Eish, eu quero fazer isto", pensou. Aos 19 começou a pintar. Retomou os estudos à noite e começou a fazer tatuagens. É preciso interromper Sérgio para que explique como deixou as latas de spray.

O dono de uma loja de tatuagens viu o seu trabalho, convidou-o para pintar uma parede na escola secundária, depois para a loja. "Apareci com um bloco de 24 fotografias do meu trabalho." Antes que se pense que se tornou de imediato tatuador, Sérgio atalha: "Fiquei a limpar o chão e a fazer marcações." Dois meses depois, sim, começou a tatuar. "Ele [o dono] ofereceu-me sociedade. Tinha feito algumas tatuagens, em amigos e nele próprio - um palhaço. "A tatoo ficou engraçada." "Ele preferia que eu trabalhasse com ele a que abrisse uma loja ao lado da dele." O que acabaria por acontecer um ano depois. "Não foi na Amadora, mas em Benfica." E foram 12 anos no negócio. Até que... "Fartei-me das histórias do pessoal, do "está-me a doer, posso ir fumar um cigarro?"."

Entre 2000 e 2001 pintou pouco. Em 2003, "decidi pintar em todas as paredes hall of fame", afirma, referindo-se aos melhores locais de Lisboa para um graffiter. Amoreiras, Carcavelos, Sintra, Damaia. "Foi uma febre, febre, febre..."

Voltemos ao presente. Sérgio deixou mesmo as tatuagens para trás, embora, de vez em quando, ainda caia um mail com um pedido. "Há umas semanas, um brasileiro perguntava se eu podia tatuar...", conta, ele próprio cheio de tatuagens. Apesar da camisa de flanela de manga comprida, elas veem-se no pescoço e nas mãos do artista.

Já só vive de pintar. "A maior parte dos artistas de street art vem desse background", refere. E acrescenta que sempre teve "o respeito da rua". Há regras. Explica, por exemplo, que se fosse pintar por cima do trabalho de outra pessoa avisava.

Apesar dos quatro murais na Amadora, a marca de Odeith é a pintura 3D, que usa sobretudo em esquinas. "É uma técnica antiga, mas não era usada como eu faço", defende. E que tem levado pelo mundo fora. Roma, México, Israel, Moscovo, Brasil, Canadá, Alemanha, Suécia, várias cidades dos Estados Unidos... Sérgio e João, amigo e assistente, fazem um jogo de pingue-pongue com o nome das cidades onde o seu trabalho pode ser visto. "Os últimos quatro anos têm sido de avião", diz. Há dois anos, o amigo passou a tratar das burocracias. "Não conseguia fazer um trabalho e ainda responder a e-mails. Perdi um trabalho para a Google, por causa disso...".

Só não pintou em África e na Ásia, constata. Tem passado muito tempo nos EUA e, brinca, em cidades onde nem os norte-americanos vão, como Cynthiana. Veio de lá em julho. Enquanto tira fotografias junto à sua mais recente obra, explica que agora quer fazer uma paragem, depois de tantas viagens. "Nos últimos quatro anos foi de mais. Sempre sozinho, torna-se boring [entediante]." Está a fazer um descanso, embora esse descanso corresponda a mais um trabalho. Este Fernando Pessoa, com vista privilegiada para Amália Rodrigues.

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