Um inédito de Herberto Helder

Na próxima quarta-feira é lançada uma recolha póstuma de poemas inéditos de Herberto Helder. Faz um ano sobre a sua morte.

Na próxima quarta-feira, quando passa um ano sobre a morte do poeta Herberto Helder, será lançada uma nova recolha de poemas nunca publicados, que foram selecionados pela viúva, Olga Lima, de entre o espólio deixado.

Na contracapa do livro 'Letra Aberta' fica o aviso de que está a ser preparada uma edição crítica da obra inédita, que será publicada no futuro, além desta escolha para assinalar o primeiro aniversário da sua morte. Em comunicado, a Porto Editora explica o modo como esta edição de Letra Aberta foi preparada: "É um livro de poemas inéditos, recolhidos nos seus cadernos, e cuja edição é de tiragem única, de acordo com o que sempre foi a vontade do autor. É uma escolha que permite uma primeira abordagem à riquíssima "oficina" a partir da qual o poeta foi construindo o seu "poema contínuo"".

Poema inédito

(sem título)

a morte é mesmo estranha:

morre-se todos os dias

e enquanto se morre pede-se uma esmola para matar a fome de outra vida,

e dão-nos pelo amor de Deus uma pequena moeda de nenhum país,

e não há ranhura onde a moeda entre, nem a ranhura de uma velha caixa de música, e no entanto estremeço

e falta-me o ar, sim sim

arrebatavam-me as músicas de J.S. Bach

no silêncio das naves através da catedral inteira,

vozes e vozes dos rapazes castrados

e de repente um baixo monstruoso,

e isto se Deus existisse mesmo, punhal fundo no músculo coração,

e depois quente chôro pela cara abaixo

- oh porque me abandonaste?

mas na verdade ninguém me abandonara

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