Um dia inteiro para Heinz Holliger na Casa da Música

Hoje, desde o início da tarde e até à hora de jantar, a música do grande compositor (e maestro e oboísta) suíço vai "ocupar" a Casa, culminando num concerto em que dirige a Sinfónica do Porto-Casa da Música, e cujo programa inclui a estreia portuguesa do seu Concerto para violino, sendo solista o austríaco Thomas Zehetmair, dedicatário da obra, que a estreou e gravou

Artista em Associação 2016 da Casa da Música, Heinz Holliger (n. 1939) faz hoje a sua segunda aparição no Porto (a outra coincidiu com o solstício de verão), agora para dirigir a Sinfónica do Porto-Casa da Música. Isto após uma tarde em que música sua ressoará por todos os recantos da Casa, interpretada por solistas do Remix Ensemble (a partir das 15.00).

Do seu Concerto para violino, que hoje dirige, diz ser "uma obra muito difícil, louca mesmo, alheia a qualquer convencionalismo", mas, bom artesão que é, logo junta: "mas tudo ali é perfeitamente tocável!". Diz isto quem admite "saber de quase todos os instrumentos a forma como eles respiram, falam, gritam, lamentam, expressam júbilo".

Uma quase animização dos instrumentos por alguém que crê que "conhecer os instrumentos até ao mínimo detalhe faz brotar em nós inúmeras fontes do novo e altera a nossa conceção do som". Daí não lhe interessar "absolutamente nada" a eletrónica: "Para mim, música é algo de biológico, de corpóreo e qualquer médium que afaste o sensual, o sensorial não resulta para mim!" Daqui se explica também a ênfase que coloca ao dizer: "o tratamento da voz humana é determinante na minha obra e parte maioritária desta é música vocal. Mas mesmo muita da instrumental relaciona-se com a palavra ou com a vocalidade". Aspira a "uma osmose do vocal e do instrumental - espelhos um do outro -, como sucedeu na Renascença, ou com tantas árias de Bach e de Mozart, cuja conceção é inteiramente instrumental".

Voz e palavra traduzidas numa muito peculiar escolha de autores, assim defendida: "os textos que uso e me inspiraram foram sempre de artistas que não estavam limitados por baias, que deram livre curso à imaginação, em que esta nunca foi limitada." Por coincidência, todos eles outsiders: "a Arte só existe na margem, só aí é possível". De resto, "todo o grande artista não é nunca normal, ou não produziria aquela arte". Gosto por situações-limite que se estende à linguagem: "gosto de línguas desaparecidas ou em risco de extinção, de variedades dialectais, pois rege-as uma gramática não convencional e as suas palavras têm uma frescura e uma força que me inspiram correspondências musicais".

Heinz Holliger, uma das mais originais e coerentes vozes da música do nosso tempo, para quem "a nova música pode ser tão antiga quanto Gesualdo, Jan Zelenka ou Schumann", pois "toda a grande música é sempre nova e surpreende-me a cada novo confronto". Pelo contrário, "muita da música que hoje se faz é convencional, porque se "ajeita" a modelos estabelecidos", dizendo-se "incomodado porque tantos jovens compositores não conhecerem um compasso de Dallapiccola, de Maderna, de Zimmermann, de Skalkottas, de Roslavets... Escrevem música como autistas." Afirma em oposição a proposição de que "toda a atividade criativa inteiramente autónoma faz surgir sempre o Novo, o que nunca foi."

Com uma obra vastíssima - "comecei a compôr aos 9 anos, pouco depois de ter começado a tocar oboé" -, nela tem lugar de relevo o Ciclo Scardanelli, cuja música é servida por fragmentos poéticos da última fase de Hölderlin. Obra em que, declara, "era-me importante conseguir a total suspensão da perceção e consciência do tempo. Quis criar uma música que pairasse, música onde cada instante fosse eternidade e a eternidade um instante". Lugar misterioso, esse, onde, porém, "a música se sente em casa. E isso é algo que apenas a música e nenhuma outra arte consegue produzir". E, contudo, volta a referir-se à "natureza corpórea de muita da minha música"!

Contrários, opostos talvez só aparentes, de cuja conciliação a música de Heinz Holliger é desde há mais de meio século uma narrativa possível. E que ele busca ainda.

Um Concerto para violino em estreia portuguesa

A partir das 18.00, na Sala Suggia, Heinz Holliger dirige um programa empolgante: a suite do bailado tardio Khamma (obra de 1911-12), de Claude Debussy (1862-1918), cuja orquestração foi completada por Charles Koechlin; as Métaboles, do também francês Henri Dutilleux (1916-2013), obra escrita para a Orquestra de Cleveland (e nessa cidade estreada, em janeiro de 1965), entretanto tornada já um clássico do século XX; e o seu próprio Concerto para violino, subintitulado Hommage à Louis Soutter, obra estreada em 1995 e, na versão integral (por acrescento do 4.º andamento), em 2002, de ambas as vezes com Holliger a dirigir e em ambas as ocasiões com Thomas Zehetmair (co-dedicatário da obra), que será o solista também hoje.

Na génese do Concerto está uma encomenda destinada a assinalar os 75 anos da Orchestre de la Suisse Romande, histórica formação suíça fundada em 1918 pelo maestro Ernest Ansermet. Já a associação a Louis Soutter (1871-1942), um dos grandes negligenciados da pintura do século XX, tornou-se irresistível a partir do momento em que Holliger descobriu que Soutter fôra violinista tutti nessa Orquestra entre 1918 e 1923. De facto, Soutter era um violinista de mérito e fôra inclusivé aluno, em Bruxelas, de Eugène Ysaÿe, um dos maiores violinistas do seu tempo. Daí que o Concerto de Holliger contenha uma citação da Sonata para violino solo n.º 2 do violinista e compositor belga, subintitulada Obsession.

Articulado em três andamentos ligados (Deuil-Obsession-Ombres) ligados entre si, o Concerto de Holliger foi assim estreado em novembro de 1995, em Lausanne, uma das casas da Orquestra. Mais tarde, a impressão deixada pelo quadro Avant la catastrophe, que Soutter pintou no dia em que começou a II Guerra Mundial (1 de setembro de 1939), levou Holliger a acrescentar um novo andamento, que chamou de Épilogue, por acaso também é o mais longo. Essa versão em quatro andamentos, agora com cerca de 45 minutos de duração total, teve estreia em Heidelberg, em novembro de 2002, aí com a Orquestra da SWR de Baden-Baden e Friburgo. Um mês depois, os mesmos intérpretes gravariam a obra para a etiqueta ECM Records.

Na Casa da Música, antes deste concerto, ouvem-se, a partir das 15.00, um total de 13 obras de Holliger para instrumento solista um pouco por todo o edifício, tocadas por solistas do Remix Ensemble - segundo reza o anúncio da própria instituição, "nunca se fez um concerto assim na Casa da Música". Pela sua estatura enquanto músico e criador, Holliger merece bem o ineditismo da iniciativa!

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