Um concerto que não cabe numa "casinha"

A passagem dos Metallica por Lisboa ficou marcada pela homenagem a Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés. Mas aquelas quase duas horas e meia na Altice Arena foram muito mais do que isso, num concerto com músicas novas mas para a velha guarda

Deixemo-nos de tretas e vamos diretos ao assunto: sim, foi, como não podia deixar de ser, o momento que marcou a noite. Corria em surdina nos bastidores que os Metallica tinham preparado uma versão de A minha casinha, dos Xutos e Pontapés, para tocarem no concerto de quinta à noite na Altice Arena que marcava o arranque da segunda metade da WorldWired Tour. E a meio da atuação, quando o vocalista e guitarrista da banda, James Hetfield, começou por apresentar o resultado de uma "aventura" de Robert Trujillo (baixista) e Kirk Hammett (guitarrista), os rumores ganharam forma. "Esta música é dedicada ao Zé Pedro", anunciou Trujillo. A partir daí, três minutos de absoluto delírio, com o público a acompanhar os músicos a plenos pulmões.

Sim, os milhares de fãs das duas bandas agradecem a homenagem - e os próprios Xutos publicaram no Facebook um "Obrigado Metallica!!" logo no final do concerto -, mas a noite de quinta-feira foi muito mais do que isso, não cabe dentro de uma "casinha".

Passavam já vinte minutos das 21.30, a hora anunciada para o início do concerto dos Metallica em Lisboa, quando os primeiros acordes de It"s a long way to the top (if you wanna rock "n" roll) foram recebidos pela plateia como se a própria banda californiana os tocasse. A canção dos AC/DC é um clássico pré show quase tão marcante como Ecstasy of Gold, escrita por Ennio Morricone para O bom, o mau e o vilão, que cinco minutos depois deu o mote - como acontece há mais de 30 anos - para a entrada dos Metallica ao som de Hardwired... to self destruct.

Plantado no centro da sala, cenário já comum nas tours dos norte-americanos, o palco permitiu uma proximidade pouco habitual com os músicos em grandes espetáculos. Novidade em relação às dez visitas anteriores, os cerca de 50 cubos led suspensos acompanharam todas as músicas, ora como meros adereços de cor, ora como guias por momentos marcantes da carreira da banda. Um aparato high-tech que, juntamente com os apontamentos de pirotecnia, está ao alcance de poucos no mundo do hard "n" heavy. E pelo qual os Metallica também se fazem pagar bem, diga-se - os bilhetes simples variavam entre os 50 e os 80 euros, mas a muito exclusiva Hardwired Experience, limitada a 12 pessoas que podiam até conhecer os quatro de São Francisco, custava a módica quantia de 2399 euros.

A música que dá o título à digressão que recomeçou esta quinta-feira em Lisboa foi recebida com entusiasmo, tal como Atlas Rise!. Mas o pavilhão só explodiu mesmo quando Seek and destroy, do primeiro álbum da banda, começou a ser tocada. Saltos, palmas, gritos, um coro nos refrães, que se manteve na mais negra Harvester of Sorrow, de And justice for all..., e em Sanitarium, do seminal Master of Puppets, e que só acalmou novamente na recente Now That We"re Dead, com direito a quarteto de precursão no final. A setlist percebe-se que foi escolhida a dedo para uma noite que se queria tanto de promoção do último trabalho como de celebração. O que explica que mais de uma década de discos mal digeridos pelos fãs tenha ficado de fora do alinhamento.

Daí para frente, a mesma receita: entusiasmo moderado perante as músicas mais recentes, frenesim ao som dos clássicos. Uma reação que se percebe ao olhar para o público que encheu - os bilhetes esgotaram em pouco tempo há cerca de um ano - o antigo Pavilhão Atlântico: poucos eram aqueles com menos de 30 anos, quando comparados com a velha guarda, os fãs que cresceram a ouvir os mais famosos dos big four do thrash metal, que já vão a caminho dos 40 anos de carreira.

"Nós já estamos velhos", gracejou James Hetfield quando a banda estava em palco há mais de uma hora. "Ou experientes. São já 37 anos a tocar heavy metal e é bom ver três gerações aqui presentes: os avós, os pais e as crianças". E muitos estrangeiros, acrescentamos nós. Espanhóis (encontrámos aqueles bascos encantados com "o poder" de Am i evil?, música com a penosa missão de suceder à Casinha); irlandeses de copo de meio litro de cerveja na mão e a tentar entrar no backstage; muitos nórdicos, talvez arrastados pela banda suporte, os noruegueses Kvelertak.

Há sempre as críticas ao rumo dos últimos 25 anos ou às falhas de Lars Ulrich na bateria (que valeram mesmo olhares de censura de James Hetfield, como naquele "prego" já no final de Enter Sandman, que encerrou o concerto), mas os Metallica continuam a ser animais de palco, como mostraram em quase duas horas e meia de respeito pelo público. E nesse particular, Hetfield é um monstro, provavelmente "o" frontman de todo o universo do metal. Mais simpático, mais homem de família, a recorrer menos à palavra começada por "F", é ainda assim o mesmo íman de atenções.

"Há 25 anos demos o nosso primeiro concerto por cá, e cada espetáculo é sempre melhor do que o anterior", atirou Lars no final, em jeito de despedida. O ano leva apenas um mês, e vai receber alguns nomes míticos do rock pesado, mas nessa área 2018 já tem um forte candidato a concerto do ano.

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