Três cidades de portas abertas para a festa da arquitetura

Entre o Porto, Gaia e Matosinhos o DN visitou três dos 51 edifícios da segunda edição que se realiza no próximo fim de semana, dia 18 e 19 de junho.

Conhecer de perto o conjunto habitacional Quatro Casas, a primeira obra que Siza Vieira projetou, em 1957, ainda antes de terminar o curso e que um jornal local considerou "a vergonha de Matosinhos"; atravessar o Douro dentro da viga-caixão da ponte ferroviária de São João, uma obra de engenharia notável de Edgar Cardoso; descobrir o Antigo Matadouro Industrial, ainda em ruínas, antes do arranque da sua reconversão num polo de indústrias criativas em Campanhã.

Estas são algumas das 51 propostas da segunda edição do Porto Open House, que se realiza no fim de semana, dias 18 e 19 de junho, no Porto, em Vila Nova de Gaia e em Matosinhos. Um convite à descoberta das cidades, numa organização da Trienal de Arquitetura de Lisboa juntamente com a Casa da Arquitetura, sediada em Matosinhos, que neste ano é comissariada pelo arquiteto Jorge Figueira em conjunto com Carlos Machado e Moura.

São mais de meia centena de locais para conhecer. E com entrada gratuita, apesar de em alguns casos, em que a lotação é limitada ou os horários são condicionados, ser necessária inscrição prévia no site www.openhouseporto.com.

À descoberta da edição do Open House já partiu o DN, numa visita a três espaços bem distintos promovida pela organização.

Bolhão: um palácio reciclado

Começamos na Baixa do Porto, num edifício com história e muitas histórias que foi há pouco mais de um ano recuperado para a cidade. Quem entra no Palácio do Bolhão não demora a perceber as muitas vidas de um notável edifício oitocentista que esteve ao abandono por mais de duas décadas.

Há estuques nos tetos, sedas nas paredes e madeiras no chão a remeter para as origens de um edifício que inspirou prosas camilianas - ou não fosse Camilo Castelo Branco protegido do proprietário, o comerciante António de Sousa, conde do Bolhão, título que lhe foi atribuído por ser anfitrião da família real, até cair em desgraça por ser acusado no Brasil como falsário.

Mandado construir em 1844 para sua habitação, o palácio acolheu também a Casa Biel, de Emílio Biel, precursor da família em Portugal e fotógrafo da Casa Real, que devido à sua nacionalidade alemã acabaria por ser destratado no contexto da Primeira Guerra Mundial e por perder o imóvel que daria lugar à Litografia do Bolhão até inícios da década de 1990.

Porém, entrar no Palácio do Bolhão não é só descobrir um pedaço da história do Porto, mas também ser surpreendido por ver como com um custo muito reduzido um edifício ao abandono se transformou numa escola e na residência de uma companhia de teatro - a ACE Escola de Artes.

Tudo com um investimento total de 2,5 milhões de euros, numa obra financiada a 60% por fundos europeus (além do apoio da autarquia e dos ministérios da Cultura e da Educação) que teve quase década e meia de espera, desde que a Câmara do Porto adquiriu o edifício em 2001 até à sua inauguração, a 27 de março de 2015, para assinalar o Dia Mundial do Teatro.

A cada passo descobre-se o segredo de uma remodelação low--cost, praticamente só com recurso a materiais reciclados. "O preço por metro quadrado é de 820 euros, o que é mesmo muito baixo", revela o arquiteto José Gigante, responsável pela remodelação, enquanto explica com uma franqueza assinalável as fases do "complicado" processo de reconversão.

"O objetivo é que a intervenção de um arquiteto não se notasse. Não podemos pegar no programa e violentar o edifício. Nesse sentido, o facto de o palácio estar classificado como monumento nacional ajuda a contornar algumas regras. Claro que se fosse feito de raiz não poderia ter sido assim. Mas tem de haver um diálogo entre o espaço e a função e alguma razoabilidade de quem projeta. Por exemplo, tivemos de usar materiais menos nobres, como betão e chapa. Se o edifício tem janelas na frente e nas traseiras, pode poupar-se no sistema de refrigeração. Colocámos todos os cabos num pequeno edifício anexo. Não tivemos hipótese de fazer um foyer entre o palácio e o auditório e por isso tivemos de fazer uma passagem. Caso contrário o investimento teria de ser muito maior e o edifício ficaria sem uso ainda durante mais tempo", justifica.

E vai comprovando a simplicidade das opções tomadas. Este é um teatro reciclado, no bom sentido. Os sofás de um dos salões pertenciam ao Rivoli, tal como a iluminação, que estava guarda nos armazéns da câmara, as cadeiras do auditório vieram do Theatro Circo, de Braga, as da sala polivalente vieram do Teatro Carlos Alberto, já as camélias que dão vida ao espaço são do horto municipal, as tintas para a pintura dos salões nobres foram doadas por uma empresa, tal como o chão do auditório, oferecido pela Associação Nacional de Produtores de Madeira. Por sua vez, o restauro da escadaria do palácio, que custou 26 mil euros e durou oito meses, teve mecenas a patrocinar cada degrau.

Deste Bolhão dedicado às artes, ao lado do famoso mercado, sai-se com a sensação de que é possível fazer bem com poucos recursos.

Antigo sanatório e novo terminal

A próxima paragem dista uns largos quilómetros; a distância do centro do Porto até à periferia, na freguesia de Valadares, em Vila Nova de Gaia. Aí encontramos o edifício Heliantia, um dos dez representantes gaienses nesta edição do Open House - Matosinhos tem 12 locais a visitar e o Porto 29.

O sanatório projetado pelo arquiteto Oliveira Ferreira e inaugurado em 1929 viu reconvertida a sua função original na década de 1990 para albergar um colégio.

"Este edifício é um ótimo exemplo da transição para a arquitetura moderna em Portugal. Numa época em que havia uma preocupação com o traço mais racionalista e regrado, um sanatório era um bom pretexto para o autor do projeto ter uma abordagem mais arrojada", refere Jorge Ferreira, comissário desta Porto Open House.

O edifício foi classificado como Monumento de Interesse Público em 2013 e tem já em maquete um projeto para a construção de equipamentos de ensino complementares a uma quota reduzida, bem como a remodelação do espaço arbóreo e acessos envolventes. Do Heliantia, com vista para o oceano Atlântico, o itinerário segue para outro edifício, já mar adentro, a 700 metros da costa, de Gaia para Matosinhos, onde se encontra um dos ex--líbris deste Open House.

Inaugurado há menos de um ano, o Terminal de Cruzeiros de Leixões tornou-se um edifício icónico: uma onda de vidro e betão, com o revestimento de cerca de um milhão de azulejos produzidos pela Vista Alegre, destaca-se no pontão.

O investimento de 50 milhões de euros fará desta obra projetada por Luís Pedro Silva uma das mais importantes infraestruturas para o cada vez maior desenvolvimento turístico do Porto e do Norte do país; a ponto de até 2018 tornar-se porta de entrada para 130 mil passageiros, colocando a região na rota dos circuitos de cruzeiros internacionais de grande dimensão.

A infraestrutura, gerida pela Administração dos Portos do Douro e Leixões, tem capacidade de acostagem para grandes navios transatlânticos com 320 metros de comprimento (até 2011 a limitação era de 240 metros), além de um cais fluviomarítimo para embarcações destinadas ao turismo no rio Douro, bem como um pequeno porto de recreio náutico com capacidade para 170 embarcações.

Um dos aspetos mais interessantes para o visitante será a multifuncionalidade do edifício, que nos seus 20 mil metros quadrados e 40 metros de altura tem espaço destinado nos diferentes pisos para uma estação com capacidade para 2500 passageiros em turnaround (embarque e desembarque). Em breve acolherá a incubadora de empresas ligadas ao mar e será a sede do polo de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, onde irão trabalhar cerca de duas centenas de investigadores.

Tudo num complexo que, segundo Luís Pedro Silva, arquiteto da obra, cumprirá em pleno a sua missão quando explorar todo o seu potencial e se abrir também à população: "Este edifício procura o contacto com as pessoas. Por exemplo, é interessante ver os passageiros quando chegam a tocarem nas peças de cerâmica que revestem o edifício. A arquitetura procura essa interação. Neste edifício procura também abrir o espaço exterior ao público, sem condicionar o acesso aos cruzeiros, que deve ser feito por outra via. Para conseguir esse tipo de interação é necessário facilitar o acesso à zona de Matosinhos Sul."

Chamar a população para dentro dos edifícios e a partir daí tomar contacto com a arquitetura e com a própria cidade... É esse "o modo Open House", que vai durante dois dias invadir a cidade da famosa escola de arquitetura do Porto e dos Pritzkers Siza Vieira e Souto de Moura - têm vários projetos que fazem parte do programa.

Um conceito que já conquistou mais de três dezenas de cidades em todo o mundo desde que em 1992 foi criado em Londres pela fundadora Victoria Thornton.

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