Tordo e os amigos, em disco e em concerto

Duetos será um disco de "festa": afinal são 70 anos de idade e 50 de carreira. Fernando Tordo, os amigos e uma mão-cheia de clássicos

Fernando Travassos e Jorge Manuel... Dito assim, estes nomes pouco dirão ao leitor, mas é desta forma que, desde a adolescência, Fernando Tordo e Jorge Palma se tratam. Foi aliás o primeiro quem, no início dos anos 70, apresentou o segundo a Ary dos Santos, numa altura em que Palma queria começar a escrever canções em português. "Falei-lhe dessa minha dificuldade, porque estava habituado a escrever em inglês e logo nesse dia acabei a jantar em casa do Ary, que acabaria por se tornar também um grande amigo", recordaria ao DN Jorge Palma, à chegada ao estúdio onde, naquela tarde, iria gravar com o velho amigo uma versão a duas vozes de Cavalo à Solta.

"Apesar de já o poder ter feito há muito, considerei que esta era a altura certa para fazer um disco de duetos, para o qual fui buscar aquele repertório que fez de mim a pessoa e o artista que sou. Mas quis fazê-lo na linguagem dos outros, perguntando-lhes como é que eles leem estas músicas", explica Fernando Tordo, que festeja em 2018 não só os 70 anos de idade como meio século de carreira enquanto compositor - "porque como músico já tenho mais alguns". Do disco Duetos farão parte nomes como Tim, Marisa Liz, Ricardo Ribeiro, Anabela, Maria João, Rui Veloso, Carminho, Camané, Carlos Moisés ou Filipe Tordo, filho de Fernando Tordo, pianista clássico.

"Estou com expectativas muito grandes, porque a maior parte deles são pessoas com quem nunca gravei ou cantei. Acima de tudo, este disco é uma celebração gigantesca. Agora vou gravar com um tipo que conheço há 50 anos, daqui a bocado com um que nem conheço pessoalmente, o Carlos Moisés [Quinta do Bill], e depois com outro que, para mim, é uma das vozes mais importantes do Portugal contemporâneo, o Tim, dos Xutos & Pontapés", sustenta.

Com mais de duas dezenas de discos editados, este trabalho foi um dos que mais tempo demoraram a concretizar, mas "apenas devido à dificuldade em juntar toda esta gente". Por outro lado, foi também um dos que deram "maior prazer a fazer" a Fernando Tordo.

O velho amigo Jorge Palma está quase a chegar. Para ele escolheu o tema Cavalo à Solta. Os temas foram pensados um a um. Ricardo Ribeiro foi convocado para interpretar "um poema lindíssimo do Ary dos Santos, muito pouco conhecido", chamado Se Te Digo Meu Amor, "de tal forma denso, que só poderia ser cantado por um grande cantor e um querido amigo como ele". Para Carminho ficou reservada Estrela da Tarde, "uma grande canção, bastante famosa e cantada por toda a gente", mas que "é perfeita" para a fadista, "porque tem um certo arrebatamento e ela faz isso muito bem".

Tordo assume-se como alguém "do tempo dos grandes orquestradores" e portanto também estes têm direito a uma homenagem neste disco. "Continuamos a ter grandes orquestradores, embora bastantes mais novos do que no meu tempo. Dois deles, o Lino Guerreiro e Válter Rolo, estão presentes neste disco e também fazem parte do octeto que me irá acompanhar nos espetáculos", revela. Sim, porque o duplo aniversário também vai ser festejado em palco, em dois concertos em Lisboa e no Porto, a 18 de abril no Teatro Tivoli e a 27 na Casa da Música, respetivamente. "Será muito parecido ao disco, embora não com todos os convidados. Terei o Ricardo Ribeiro, a Anabela e o meu filho Filipe em Lisboa, enquanto no Porto vai estar a também Rita Redshoes, para cantar o tema N.º 2 6.º Andar Frente, do LP Adeus, Tristeza." Não faltarão portanto clássicos como Cavalo à Solta, Estrela da Tarde ou Adeus, Tristeza. "Senão os cantasse o público levantava-se e ia embora [risos], mas também vamos tocar alguns temas menos conhecidos, que também fazem parte do meu repertório", revela.

Nos planos de Fernando Tordo está também a edição de uma caixa, com todos os seus trabalhos. "Tenho um disco de originais pronto para sair, em que musiquei poetas brasileiros, pelo que estou a pensar nisso. Um gajo quando chega aos 70 anos já pode fazer uma coisa destas, até porque há muitos discos meus ainda pouco conhecidos, como aquele em que cantei vários prémios Nobel da literatura, no qual canto em cinco línguas, ou um disco de jazz gravado com uma orquestra de jazz em Abbey Road, Inglaterra."

Chega Jorge Palma e Fernando não se contém: "Olha quem chegou, olá, Jorginho, estás melhor da voz?" É tempo então de passar a palavra a Jorge Manuel: "É uma amizade que mantemos desde o final dos anos 60, prefiro dizer assim, porque parece que não passou tanto tempo. Estamos juntos ocasionalmente, seja para cantar, como aconteceu há uns anos, quando ele foi meu convidado num espetáculo no CCB, ou simplesmente para jantar e falarmos sobre a vida." Sobre o tema que o amigo escolheu para si, Cavalo à Solta, diz ser uma das mais bonitas canções em português. "Vamos ver como sai, que ainda é um bocado cedo para cantar", atira com humor.

Saiu bem, claro, ou não fosse este um momento único, em que dois amigos de longa data se juntam para cantar as palavras de outro amigo, há muito desaparecido, mas para sempre vivo nesta canção. Não fosse uma pequena atrapalhação no encadeamento das palavras "amêndoa, travo, corpo, alma, amante, amigo" e tudo sairia bem quase à primeira. "Este gajo era lixado", desabafa Jorge Palma, arrancando uma gargalhada a Fernando Tordo.

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