"Todos vivemos esta crise mas ninguém percebeu o que se passava"

Nomeado para os Globos de Ouro como melhor ator em A Queda de Wall Street, Steve Carell é nesta altura um ator em alta em Hollywood. Uma conversa com o DN onde apareceu o ator e não o humorista

O ano passado esteve nesta campanha da temporada dos prémios com Foxcatcher, de Bennett Miller, pelo qual, inclusive, foi candidato ao Óscar. Este ano também já foi nomeado para os Globos de Ouro. Não é um pouco surreal para si, um ano depois, estar de novo nesta situação?

É ótimo! Nem imagina como é excitante! Para mim é tudo muito inesperado, vamos com calma e esperemos para ver o que acontece com este filme... Nenhum dos atores de A Queda de Wall Street entrou para este trabalho à espera deste reconhecimento. É muito positivo que o filme esteja a conseguir agradar a tanta gente e a enervar tantos outros!

Quem em concreto?

Estive em certos visionamentos e depois há sempre alguns debates, é muito interessante. As pessoas querem mesmo saber o que se passou com a queda da bolsa e ficam preocupadas com aquilo que possa vir a passar-se no futuro. Há muita gente incrédula com o facto de nunca ter percebido o que se passou em 2008 com a crise da bolsa! Ficam zangadas com os níveis de fraude que então se registavam. É muito recompensador fazer parte de um filme que provoca tal resposta do público. Mas lembro o seguinte: isto é entretenimento, é apenas um filme. Não quero parecer pretensioso e dizer que é um objeto que vai mudar alguma coisa.

Antes deste filme era alguém interessado na economia americana?

Não, de todo! Acho que ninguém está interessado na economia e é aí que reside o problema. As pessoas vão ver este filme e apanham um choque! Todos nós vivemos esta crise mas ninguém percebeu o que se passava. Eu próprio não entendi a origem do problema, nem sabia nada do que aqui é revelado, apenas estava informado dos problemas que causou. É muito desconcertante e assustador perceber realmente o que se passou.

Soube-se que muitos atores e produtores ficaram prejudicados diretamente com a perda das ações nesta crise de 2008. Conhecia alguém que tenha sofrido muito com esta crise?

Sim, conhecia... A crise teve um impacto em muita gente. Isto foi muito grave. Eu percebi o que se estava a passar, só não entendi como foi possível! É claro que sempre ouvimos a lengalenga que os bancos são fraudulentos e tudo o mais, mas não passava disso, nunca se colocava a questão a fundo... Sinto que este filme explica tudo e explica-o de uma forma que é acessível. Não explica a crise de 2008 de forma condescendente, mas sim de forma cómica e absurda. As pessoas vão perceber! Ao mesmo tempo, é uma obra de cinema muito honesta, sobretudo na forma como caracteriza estas personagens reais. Depois deste filme sou uma pessoa não tão otimista quanto ao futuro da economia. Esta história acaba e ficamos a perceber que está pendente outra crise. Tudo pode voltar a acontecer... Só o facto de estarmos a gerar algum debate já é sinal que estamos no caminho certo. Muita gente não sabia mesmo o que se tinha de facto passado há sete anos. Depois de terem percebido a extensão desta fraude há muita irritação.

Crê que Adam McKay traça um retrato negro da América de hoje e da sua ganância?

Este sistema de fraude bancária é internacional. Não o vejo dessa forma, este filme é um ataque a um sistema que corrompe a América. A ganância não está apenas no interior dos EUA. O monopólio da ganância não é nosso.

Há quem se espante por este filme ser assinado pelo mesmo homem que nos trouxe comédias provocadoras como As Corridas Loucas de Ricky Bobby (2006) e Filhos e Enteados (2008). Já o conhecia dos filmes Anchorman (2004 e 2013), não ficou também surpreendido?

Nada, já sabia que o Adam McKay é um homem muito inteligente e perfeito para contar esta história. Além de ser uma pessoa hilariante, é alguém também muito zangado. Ira e humor são uma combinação perfeita para abordar este projeto. Contudo, o Adam nunca deixa que a ira obstrua o humor. Diria que ele também nunca cai na ratoeira de pregar moral. O Adam limita-se a convidar todos a entrar nesta história de modo nada condescendente. É um realizador que faz que o seu público se sinta esperto a ver esta história, ou seja, faz os possíveis para que tudo isto seja compreensível.

Em termos de marketing pode ser um desafio: como é que se promove um filme sério como este dizendo que é "do tipo que nos trouxe Que se Lixem as Notícias?".

O melhor é assumir isso em vez de estarmos a disfarçar. A sério, quando fiz o Foxcatcher (2014) também espantei muita gente. Caramba, eu próprio fico espantado em ter feito essa personagem, não nego! Também era conhecido como Virgem aos 40 Anos! De repente, agora sou o Virgem aos 40 Anos e o Jon Du Pont! Mas não julgo que isso seja incompatível! A verdade é que o Adam realizou filmes muito, muito divertidos, mas isso não pode anular o facto de ele ser capaz de poder fazer algo extremamente diferente. As pessoas não imaginavam que ele fosse capaz de fazer este filme, mas ele, claro, era capaz...

O que se passava neste plateau entre takes? Há muito que não se via um elenco com tanta estrela masculina de Hollywood...

Só acabei por estar com o Brad Pitt um dia e quando cheguei à rodagem todas as cenas com o Christian Bale já estavam rodadas, mas é claro que era um ambiente intimidante. Com tanto talento à nossa volta só esperamos uma coisa: ficarmos à tona, não darmos nas vistas de forma negativa. O que se passa nestes casos é que percebo logo que todos vão brilhar e o que um ator quer é elevar a sua personagem. Num elenco destes ninguém quer desiludir...

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