Tim Burton copia Tim Burton com monstrinhos não amigáveis

A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares chega na quinta-feira e é a grande estreia da semana. Traz-nos um Tim Burton mais infantil do que o habitual

Hollywood procurava material para Tim Burton. Material para o grande regresso à fantasia gótica. Pois bem, o best-seller de 2001 de Ramson Riggs tinha a cara de Burton. Crianças com poderes bizarros e viagens no tempo num casarão britânico. A Casa da Senhora Peregrine para Crianças Peculiares é Tim Burton genuíno. Ao mesmo tempo, é tudo que estávamos à espera de um cineasta que talvez esteja naquele ponto que precise de um abanão criativo. Abanão, safanão, nova direção. De alguma forma, sente-se que já vimos este filme, que é mais do mesmo.

Adaptado por Jane Goldman, guionista de alguns dos X-Men e da franchise Kingsman, esta é a história de uma realidade paralela, a de um refúgio secreto, uma casa de crianças especiais protegida pela Senhora Peregrine, uma feiticeira que se transforma em ave e que protege este grupo de meninos e meninas que nasceram com poderes sobrenaturais. A proteção é feita através de um poder superespecial: tornarem-se todos imortais no vórtice de um só dia, 3 de setembro de 1943. A tutora e as crianças vivem constantemente numa realidade paralela numa ilha remota do País de Gales. Só nesse perpétuo dia (em que nunca envelhecem) conseguem estar protegidos dos adultos peculiares que foram para o lado negro, os seres Ocos, que comem os olhos das crianças prodígio.

Jake, um rapaz aparentemente sem poderes especiais, é convocado para a casa da senhora Peregrine depois de o seu avô morrer. Jake vai tentar perceber se as histórias que sempre ouviu eram verdadeiras e se tem ou não poderes peculiares. Obviamente que o filme é todo ele um hino ao direito à diferença e ao elogio aos incompreendidos, aliás tema central de muitas das obras de Tim Burton.

A questão é: pode o cineasta americano estar constantemente a fazer o mesmo filme? O que se passa aqui é algo que convoca algumas contrariedades. O efeito de reconhecimento joga contra si: às vezes parece que é Tim Burton a copiar Tim Burton. Por outras, por imposição do próprio sistema de Hollywood, sente-se que é obrigado a seguir diretivas: um certo anonimato na condução da história, uma domesticação do universo estreito que habita e, pior de tudo, uma infantilização das suas marcas, como se houvesse um briefing de sobrepor X-Men com Harry Potter. Queremos acreditar que com alguma liberdade teria feito um filme com maior influência de Freaks - A Parada dos Monstros, de Todd Browning. Não deixa é de ser um filme de monstros amigável...

Ainda assim, é impossível não ficarmos contagiados pela sábia gestão dos dispositivos dos efeitos visuais, muitos deles na técnica de animação stop-motion, técnica essa que o próprio Burton tão bem se aventurou em filmes como A Noiva Cadáver ou Frankenweenie. Aqueles cadáveres saídos da sequência do navio remetem para uma homenagem a Ray Harryhausen, um dos pioneiros do género. Isso e um humor das personagens vilãs (Samuel L. Jackson demente é um dos regalos do filme) que remete para a simpatia escanifobética de um Eduardo Mãos de Tesoura.

O filme chega a Portugal um dia antes da estreia nos EUA e vem com um aparato de marketing de blockbuster. A tal fórmula de assomo juvenil que parece contagiar o processo não chegou por acaso. A Fox aposta num público adolescente e o orçamento é suposto ter sido muito elevado, a tal ponto que se investiu nas redes sociais com a campanha de hashtags staypeculiar, em que se incentiva a miudagem a descrever a sua peculiaridade. É até agora o hashtag mais bem-sucedido das campanhas de marketing do cinema de Hollywood.

No elenco, Eva Green volta a ser dirigida por Burton (depois de Sombras da Escuridão, em 2011), com uma criação gótica de respeito. A sua tutora pontualíssima é encarnada com um rigor e classe notáveis. Pena é que a dada altura tenha menos tempo de ecrã do que o desejado. Esta Miss Peregrine merecia um filme menos infantil só para ela. Samuel L. Jackson, por seu turno, rouba todas as suas cenas.

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