The Tale: o primeiro grande filme da era #MeToo

De Jennifer Fox, filme inédito da HBO aborda uma história de abuso sexual contada na primeira pessoa. Estreia no dia 16 nos canais TVCine

Caiu que nem uma bomba no Festival Sundance deste ano. O filme de Jennifer Fox sobre o abuso sexual de que foi vítima por parte de um treinador quando tinha 13 anos. Em plena época de exposição sexual dos predadores e da luta pela emancipação feminina em Hollywood, chega um filme realizado por uma mulher que descreve a sua violação. The Tale é cinema na primeira pessoa, farejado por um pudor que se recusa a ser bem comportado e nunca ilustrativo. Por tudo isto, é possivelmente o primeiro dos filmes-bandeira da era #MeToo. Um acontecimento televisivo que é também cinematográfico - depois de The Tale talvez seja de bom tom não torcermos o nariz quando falarmos de telefilmes.

Sim, o filme foi feito para HBO e passou na televisão americana de cabo, sendo o espectador informado de que as cenas de sexo com menores foram feitas com duplos adultos. "O que vão ver é uma história verdadeira, tanto quanto sei", começamos por ler. Laura Dern interpreta a realizadora que, depois de receber um telefonema da mãe enquanto rodava um documentário no Oriente, volta a lembrar-se de um dos episódios da infância. Jennifer, aos 13 anos, foi violada pelo treinador de equitação e manteve uma relação também com a amante dele, a sua outra treinadora de equitação. Tratou-se de um episódio que a cineasta escolheu esquecer, algo que se apagou da sua memória de modo a não enfrentar demónios nem a sentir-se como vítima, mas depois de a mãe descobrir uma redação escolar onde ela descreve a "história de amor", Jennifer acaba por se mostrar disponível para procurar este casal que a usou para fantasias sexuais três décadas antes. Um crime que a transformou como mulher e que causou um trauma sexual nunca reparado.

Nesta viagem às memórias da infância, até então congeladas, Jennifer lembra-se de ter vivido uma paixão secreta, completamente manipulada pelos esquemas deste treinador pedófilo. E num processo de investigação, descobre factos terríveis junto a antigas colegas, percebendo que não era a única a ser abusada. Nesta catarse pessoal, também a mãe (uma sublime Ellen Burstyn) percebe como a sua própria inocência a impediu de proteger a filha de um campo de férias de pesadelo.

O filme de Fox é um diálogo constante entre a mulher e a sua versão de 13 anos (são espantosas as sequências onde as duas Jennifer se cruzam), mostrando um domínio total no storytelling entre passado e presente. Uma confissão íntima sobre a ilusão da nossa consciência e de como o estado infantil nos pode enganar como dispositivo saudosista. Afinal de contas, esta é uma mulher que inconscientemente não quis assumir o seu papel de vítima, mas que mais tarde escolhe assumir a sua ferida após contornar a dissonância cognitiva, nem que para isso sofra horrores ao lembrar-se de como tudo aquilo foi possível: os fins de semana na casa do treinador, o primeiro beijo e sobretudo a memória dos contactos físicos. A sequência da desfloração é filmada com uma secura que convoca uma estranheza dilacerante. Um choque que faz de The Tale um dos filmes mais perturbadores em anos.

Um filme perturbador

Um choque que, por muito difícil de digerir, acaba por se tornar necessário para sentirmos o papão da pedofilia (veja-se quão chocha era a ornamentação gráfica do mesmo flagelo num filme como O Condenado, 2004, de Nicole Kassell). De algum modo, é um processo de partilha, uma forma de Fox nos colocar no seu inferno. Um adulto por cima de uma criança de 13 anos (e a atriz que a interpreta, Isabelle Nélisse, que já a conhecíamos de Mamã, de Xavier Dolan, parece ter mesmo 13 anos, é realmente uma criança) é algo de muito forte, embora tudo esteja filmado com o mais profundo dos cuidados. A coragem de Fox é enorme, para não dizer inédita.

O que há de mais fraco no filme passa por alguns detalhes como, por exemplo, a música. Uma partitura musical, com a habitual ligeireza de tv-movie. Música de embalar, se quisermos ser explícitos, mas nada que anule a tremenda força deste testemunho. Testemunho esse de uma frontalidade admirável, sempre com uma feminilidade autêntica e em sintonia plena com um jogo nada espampanante de fantasmas da memória. The Tale é só por si a enunciação de uma ideia de cinema para estes tempos. Os tempos dos relatos femininos verdadeiros, os tempos desta nova luta pela igualdade.

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