Tesouros arqueológicos sírios em 3D disponíveis na internet

O trabalho de construção da base de dados do património Sírio começou em dezembro

Reconstruções em três dimensões de alguns dos sítios arqueológicos mais espetaculares da Síria ficam hoje disponíveis na Internet, após um grande impulsionamento para digitalizar o património ameaçado do país destruído pela guerra.

Agrimensores digitais franceses têm estado a trabalhar com arqueólogos sírios para mapear alguns dos monumentos mais famosos do país, depois de os jihadistas do Estado Islâmico (EI) terem causado a indignação internacional ao fazerem explodir, no ano passado, dois templos na cidade de Palmyra, classificada como património mundial pela UNESCO.

A mesquita de Umayyad, situada na capital, Damasco, datada do século VIII e considerada por alguns o quarto lugar mais sagrado do Islão, e o castelo dos cruzados Krak dos Cavaleiros, perto da devastada cidade de Homs, são dois dos mais célebres edifícios que foram digitalizados ao pormenor.

Também foi utilizada tecnologia de captura de imagem por fotogramas desenvolvida pela empresa start-up francesa Iconem para filmar o teatro romano da cidade costeira de Jableh e do sítio fenício no antigo porto de Ugarit, onde foram descobertas provas do mais antigo alfabeto do mundo.

Os técnicos têm também estado a trabalhar com 15 especialistas da Direção-Geral de Antiguidades e Museus (DGAM) síria na digitalização de algumas das principais coleções dos museus.

Centenas de locais com património importante foram saqueados e destruídos durante o conflito de cinco anos, mas a detonação dos templos de Bel e Baalshamin, datados do século I, na antiga cidade desértica de Palmyra causou protestos à escala global.

O grupo extremista Estado Islâmico fez questão de arrasar antigos santuários e estátuas que considera idolátricas e é também suspeito de envolvimento na venda ilegal de antiguidades.

O trabalho de construção da base de dados do Património Sírio, o maior registo 3D dos monumentos e tesouros do país, começou em dezembro e inclui um grande número de edifícios da era Otomana em Damasco, bem como da sua cidadela do século XI, sobranceira à cidade.

O diretor da DGAM, Maamun Abdulkarim, declarou que esta operação é essencial para "impedir uma perda irreparável para a humanidade", dada "a dramática situação que se vive no país".

"Esta solução dá aos nossos sítios arqueológicos uma verdadeira esperança de renascimento e permite que a sua memória seja preservada, aconteça o que acontecer", acrescentou, em comunicado.

O projeto, concretizado com a ajuda da Grande École francesa ENS e do instituto de investigação INRIA, é um de vários que tentam catalogar locais em perigo de cair na linha de fogo.

O Instituto para a Arqueologia Digital, criado pelas universidades de Oxford e Harvard e pelo Museu do Futuro, do Dubai, está igualmente a elaborar um registo de muitos sítios vulneráveis na Síria e no vizinho Iraque.

Forneceu 5.000 câmaras 3D low-cost a arqueólogos e organizações não-governamentais, na esperança de reunir um milhão de imagens de locais ameaçados.

A base de dados Milhão de Imagens espera estar totalmente online até ao fim deste ano e exibirá em abril réplicas em tamanho real do arco do triunfo destruído de Palmyra na Times Square, em Nova Iorque, e na Trafalgar Square, em Londres.

As réplicas do arco, que os jihadistas do EI fizeram explodir em outubro, estão a ser feitas com a maior impressora 3D do mundo.

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