Terras sem Sombra. "Talvez um dia consigamos juntar o cante e o flamenco"

O festival de música sacra nascido no Alentejo há 12 anos levou o cante alentejano a Madrid para mostrar como tem um cartaz cada vez mais ibérico

Passa pouco das 19.00 de sábado quando os cantores alentejanos começam a ocupar a varanda do Círculo de Belas Artes de Madrid, em Espanha. Anoiteceu e cai uma chuva miudinha mas persistente. Lá em baixo, os madrilenos apressam-se e um polícia tenta organizar o trânsito. Cá em cima, os homens apertam-se para caber no espaço exíguo. "Estão todos prontos? Vamos lá." Ao princípio quase não se ouve a voz do ponto, ouve-se ainda pouco a voz do alto, mas quando se juntam aquelas quase 60 vozes é impossível não ouvir. Quem vai no passeio surpreende-se. "O que é isto?" Os transeuntes de cabeça no ar, parados nos passeios, ainda há quem aponte o telemóvel mas é impossível fotografar e poucos perceberão que eles estão dizer como "é tão grande o Alentejo". Ainda assim, ouviu-se cante alentejano na Gran Vía e o momento pode não ter sido glorioso mas foi histórico.

"Esta é a primeira apresentação de cante alentejano em Madrid", diz, orgulhoso, José António Falcão, diretor do Festival Terras sem Sombra, responsável por trazer à capital espanhola este "contingente alentejano" composto pelo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, Os Ganhões e os Moços d"Uma Cana. Depois da atuação à varanda, o verdadeiro concerto acontece daí a pouco na Sala das Columnas do Círculo de Belas Artes. Trata-se de um concerto de apresentação do Alentejo a Madrid mas também de divulgação do Terras sem Sombra. Criado em 2003, este é essencialmente um festival de música sacra que acontece em várias igrejas e noutros locais da diocese de Beja. Assim, junta a música ao património e ainda a uma componente de proteção da biodiversidade, procurando criar uma envolvência com a comunidade. Estando no Alentejo, "o cante está sempre presente, de uma forma ou de outra", diz o diretor.

A caminho da América Latina

O concerto de cante alentejano encerra o programa de alguns dias em Madrid que incluiu uma apresentação à imprensa espanhola da 12.ª edição do festival que se inicia já no dia 27 deste mês e se prolonga até 2 de julho. "Colaboramos com Espanha praticamente desde a primeira edição, com a participação de músicos espanhóis e com repertórios espanhóis interpretados por grupos portugueses. A partir de 2010 esta tornou-se claramente uma aposta: queremos dar a conhecer aspetos mais ignorados do que é a cultura musical espanhola", explica José António Falcão.

A parceria com entidades espanholas é cada vez mais importante e não vai ficar por aqui: "O nosso território tem uma ligação profunda com várias regiões espanholas e faz todo o sentido que este festival seja uma iniciativa ibérica. Além disso temos a consciência de que juntos podemos ir mais longe e o nosso objetivo, claramente, é chegar à América Latina e aos países de expressão portuguesa e espanhola." Na próxima edição, por exemplo, há três sessões dedicadas à música do Brasil e são cada vez mais presentes os repertórios de países como o Chile ou o Peru.

Esta união ibérica tem um rosto: Juan Ángel Vella del Campo, o espanhol que, pelo segundo ano, é o diretor artístico do festival. "Fui pela primeira vez ao festival como espectador em 2011, a um concerto da orquestra Divino Sospiro em Santiago do Cacém, e fiquei fascinado. Este festival é único, com os concertos nas igrejas e em lugares fabulosos, a participação das pessoas das localidades e todo o lado da biodiversidade. Depois disso, voltei todos os anos", conta. Na altura, era crítico musical no El País e também fazia um programa na rádio onde aproveitava para falar do Terras sem Sombra e dar a ouvir as alentejanas. Quando Paolo Pinamonte deixou a direção artística, convidaram-no a ocupar o lugar.

"Um ato de irmandade"

"No primeiro ano pensei que era fundamental promover o intercâmbio hispano-português como nota dominante, neste segundo ano vamos ser mais ambiciosos e vamos incorporar um ciclo brasileiro, com alternância de músicas sacras e populares. Tentamos mostrar como a música popular também é espiritual e por outro lado aproximar a música religiosa das pessoas que não vão à igreja." É por isso que o cante está sempre presente, embora não integre a programação principal.

"Neste ano decidimos que o cante iria abrir o festival em Madrid. Aqui, os fadistas têm muito sucesso, enchem as salas de concertos, mas o cante não é conhecido. Acho que está na altura de mudar isso. Queremos aproximar as culturas espanhola e portuguesa e quem sabe um dia consigamos juntar os dois Patrimónios da Humanidade, o cante alentejano e o flamenco." Juan Ángel del Campo refere-se ao espetáculo desta noite como "um ato musical, cultural, mas sobretudo um ato de irmandade".

Esta é a primeira vez que os Ganhões de Castro Verde cantam em Madrid, mas Manuel Gonçalves, 74 anos, que canta no grupo há mais de 40 anos, já perdeu a conta aos sítios onde já se apresentaram, por todo o país e no estrangeiro. "Geralmente há muitos portugueses a assistir mas também temos um tradutor que tenta explicar do que é que fala cada canção. E as pessoas mesmo sem compreenderem conseguem apreciar", garante. Não será fácil traduzir as letras que usam expressões como "quando o sol mais almareia", mas "o importante é que as pessoas sintam a música", diz José Correia, outro dos Ganhões.

No palco do Círculo de Belas Artes, é António José Silva, do Rancho de Cantadores, que se chega à frente para, num castelhano escorreito, explicar que o grupo vem de "uma localidade perto de Serpa, no Sul de Portugal, que fica a apenas 15 quilómetros de Rosal de la Frontera". Enumera depois as várias modas que vão cantar, que uma fala do Natal, outra é uma moda de Carnaval, outra "chama-se Pomba branca, que quer dizer paloma blanca". O público ri-se.

"Cada terra tem seu uso"

Os de Aldeia Nova de São Bento trazem traje domingueiro, em preto com lenço de seda, botas altas e chapéu de copa alta e afunilada - o chapéu que levantam ligeiramente no final de cada moda, como agradecimento. Os de Castro Verde trazem roupa de trabalhadores, camisa de xadrez, lenço vermelho, cestas a tiracolo, uma ou outra enxada e chapéu tradicional - o chapéu que levantam ao alto no final da atuação, enquanto saem do palco.

Os grupos representam dois modos distintos de cantar, explica Pedro Mestre, músico e cantor, um dos grandes responsáveis pela recuperação da viola campaniça e impulsionador de vários projetos relacionados com o cante alentejano: "Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso, assim diz o ditado popular. Cada grupo tem a sua forma de cantar. Os grupo da margem esquerda têm um cante mais pesado, mais forte, é menos arrastado e mais melodioso."

Na Moda do chapéu, que o Rancho trouxe a este palco, canta-se: "tenho cá na minha ideia/ que o cante se ouve no céu". Bom, talvez não chegue ao céu, mas a Madrid pelo menos já chegou.

A jornalista viajou a convite do Festival Terras sem Sombra

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