Templo Romano em obras para acudir a situações críticas

Um fragmento de mármore que caiu em junho deu o alerta para possíveis situações de emergência no mais emblemático monumento de Évora, único no país. O ministério da Cultura libertou quase 50 mil euros para a intervenção e, de caminho, com os andaimes montados, documenta-se o estado do edifício

"Empreitada urgente de Conservação do Templo Romano de Évora - Situações críticas". O cartaz que certifica a legalidade das obras que decorrem atualmente neste edifício não deixa margem para dúvidas sobre o que está em curso naquele que é um dos principais monumentos da cidade alentejana.

Rodeado de andaimes e coberto de rede desde o início de setembro, enquanto decorre esta empreitada, o Templo Romano isola-se de Évora. É no estaleiro que começa a conversa com o arqueólogo da Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA). "Detetámos em junho que tinha havido um desprendimento de uma parte do capitel, e logo aí fizemos uma primeira análise com os meios disponíveis, pelo exterior do monumento", conta. "Demos conta que havia várias situações de risco", resume.

Ato seguinte: pedir uma autorização especial à tutela, o ministério da Cultura, para acudir à situação. Foi concedida. "É uma intervenção de emergência. Teve de ser uma coisa mesmo de urgência com um valor que foi o possível encontrar", diz a diretora regional da Cultura do Alentejo, Ana Paula Amendoeira. São exatos 47 109,47 euros, que foram conseguidos em articulação com o gabinete do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.

À boleia desta intervenção, com duração de 120 dias, e aproveitando a estrutura de andaimes já montada, a DRCA está a estudar o Templo Romano como nunca é possível - muito perto. "Quisemos aproveitar, já que íamos montar uma estrutura desta dimensão, quase desproporcional em relação à obra que vamos fazer, para fazer um mapeamento das patologias do monumento", explica Ana Paula Amendoeira. "Não é um monumento que se consiga observar num crivo mais fino. Só quando temos uma estrutura destas montada". Isto é, cinco andares; o penúltimo, junto aos capitéis.

"A intervenção serve para consolidar situações precárias e perceber as problemáticas para poder depois fazer um projeto direcionado às exigências", explica a conservadora italiana Paola Coghi, especialista em monumentos antigos da Nova Conservação, a empresa a que foi adjudicada a obra.

Enquanto esperam resultados laboratoriais a amostras de líquenes retirados do templo, o trabalho é de mapeamento. A espanhola Isabela Valle, assinala numa folha, para memória futura, fissuras, destaques e o estado de cada uma das colunas do templo, agora numeradas. Doze estão completas (com base, fuste e capitel), duas perderam o capitel e uma só tem a base. "Na conservação, é muito importante tornar a linguagem unívoca", diz Paola Coghi, português com sotaque. Foi na número 9 que caiu o fragmento.

O monumento, outrora conhecido como Templo de Diana (por se parecer a outro edifício do género em Mérida) e agora apenas chamado de Templo Romano ("é o que sabemos que está certo", diz Rafael Alfenim) é feito de pedras diferentes - mármore na base e capitel, granito no corpo esguio que é o fuste - que reagem de forma diferente à passagem do tempo. O granito, por exemplo, areniza.

Ao mapeamento, segue-se a limpeza dos líquenes que cobrem o templo e que lhe dão os tons negro, verde e laranja. "Essa liquenização muito forte também nos impede de ver as patologias e o estado da pedra. Os líquenes só têm um coisa boa, é que testemunham o grau de qualidade da cidade", diz Ana Paula Amendoeira.

A diretora regional está preparada para "as coisas más". "É naturalíssimo que haja patologias do edifício. No decorrer desta intervenção, de certeza que se vão descobrir situações que a gente agora não tem conhecimento". Detalha: "É uma estrutura com dois mil anos. Nunca teve obras de conservação". As únicas que conheceu foram aquelas que, no século XIX, devolveram o monumento "à pureza clássica". Teve panos de alvenaria entre colunas e, ao longo da sua história, vários usos, incluindo ser açougue. "O mapeamento permitirá fasear intervenções no tempo à medida que for possível".

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