"Sugeriu que distorcesse a minha assinatura"

O vencedor da última edição do Prémio Leya recebe amanhã o galardão numa cerimónia na Feira do Livro de Lisboa. Antes, João Pinto Coelho conta uma história que lhe aconteceu na Feira.

Depois de tantos anos a subir e descer o parque, de mochila às costas, e sempre menos carregado do que queria, ir à Feira como autor trocou-me as voltas de repente. Se noutros tempos, cada visita era um passeio comigo mesmo, desde 2015 - altura em que vi publicado o meu primeiro romance, Perguntem a Sarah Gross -, todos os pretextos mudaram. Hoje, as conversas com outros autores, livreiros, editores e leitores são um motivo surpreendente para as minhas tardes na Feira. Ao longo das últimas três edições, além do prazer de estar horas a fio a falar de livros, não tenho muitos episódios singulares. Lembro-me apenas de um, assim para o absurdo, logo a seguir a uma sessão de autógrafos, e numa altura em que me preparava para regressar a casa. Foi quando fui abordado por uma leitora carregada de livros. Saudou-me, entregou-me o que estava em cima da pilha, da minha autoria, e pediu-me que o autografasse. Enquanto eu escrevia, apoiado num corrimão, pouco me disse, mas, mal lho devolvi, pôs-me na mão mais dois livros e perguntou-me se lhos podia dedicar. Nenhum deles tinha sido escrito por mim, antes por outro autor - ele, sim, um escritor consagrado, naquele momento entretido a atender uma longa fila de leitores, a poucos metros de nós. Admito que não percebi à primeira o propósito da leitora, até me ter sugerido que distorcesse a assinatura, fazendo-me passar pelo outro. Ao menos não me levou a mal a recusa, e ainda hoje desconheço se terá sido a extensão da fila a ditar-lhe o atrevimento, ou o mero embaraço de enfrentar um nome grande.

O livro que eu queria encontrar na Feira: "Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes

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