Straight outta Compton estreia-se diretamente na sala... lá de casa

Nomeado para o Óscar de melhor argumento, o filme poderia ter-se estreado nas salas de cinema mas em Portugal vai direto para vídeo. Tal como o vencedor de Sundance.

A história dos NWA é um pedaço da história da cultura afro-americana das últimas décadas. Muito mais do que uma biografia dos Niggaz with Attitude, o filme de F. Gary Gray é um olhar mais vasto sobre a América e as suas mutações históricas. A ascensão e a queda do supergrupo de hip hop de Los Angeles que revolucionou a estética da música negra americana é um pretexto para um fresco sobre as convulsões sociais de um país racista e que levou um choque com o rap explícito destes rapazes de Compton, uma das zonas negras mais problemáticas de LA.

Filmado com poder de choque (e aqui a expressão é literal...), Straight outta Compton começa nos anos 1980, com a formação da banda em plena cena do boom do hip hop da costa oeste. Uma banda que soube reinventar a cultura do gangsta rap e os seus códigos, quer através do génio de produção de Dr. Dre quer também pela força das rimas de Ice Cube. Mais tarde, vemos a ascensão polémica do grupo, sobretudo através da primeira digressão nacional, com concertos que inflamavam as audiências. Ao mesmo tempo, Gary Gray vai tomando pulso a uma América que olhava para os NWA como algo perigoso, sobretudo quando o seu sucesso foi muito.

Um sucesso que os tornou milionários mas que aos poucos também os foi separando - primeiro foi Ice Cube a querer uma carreira a solo, depois foi a vez de Dr. Dre bater com a porta, isto por entre mudanças de editoras e envolvimento com elementos criminosos. Para além da música, um contexto social de discriminação racial, estando o caso Rodney King como pedra-de-toque do fim de uma era. Depois, a reunificação da banda já sem Jerry Heller, o manager que os descobriu e a chegada da sida, que vitimou Easy-E, um dos fundadores da banda.

Para F. Gary Gray, o importante era mostrar a vitalidade dos NWA. Mais do que uma banda, foram um movimento e cimentaram um estilo de rap que ainda hoje está bem vivo. O filme tem uma solidez narrativa impressionante e apela aos valores mais nobres da arte do entretenimento, percebendo-se facilmente porque foi um dos grandes sucessos de bilheteira do ano passado nos EUA. Em Portugal, teve guia de marcha para a estreia em VOD, como acontece quase sempre a filmes com apelo afro-americano. No mínimo, ficamos a desconfiar que o nosso mercado cinematográfico é preconceituoso...

Eu, Earl e a Tal Miúda

Provavelmente a grande surpresa do ano passado, Eu, Earl e a Tal Miúda também não teve luz verde para se estrear nas salas portuguesas. Me, Earl and the Dying Girl, o vencedor da edição de 2015 do Festival Sundance é a revelação de um novo cineasta, Alfonso Gomez-Rejon, autor de uma comédia dramática que recupera a melhor tradição do melodrama clássico com um humor inventivo e cinéfilo - estes amigos liceais têm como hobby fazer curtas-metragens em forma de remake de filme de culto.

Gomez-Rejon tem uma afeição genuína pelas personagens e consegue achados visuais que lembram um caminho de cinema ready made que Michel Gondry chegou a instaurar desde O Despertar da Mente (2004). Um filme que nos fica na pele.

Mistress America

O novo Noah Baumbach, Mistress America, também teve a mesma sorte, foi atirado para os lançamentos VOD. Uma crónica feminina de uma amizade entre duas mulheres nova-iorquinas de idades diferentes. Escrito por Greta Gerwig, igualmente protagonista, acaba por não ter aquele fulgor dos outros filmes de Baumbach, mas não deixa de ser uma pequena comédia feminista com o charme irreverente do cineasta.

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