Sonhos Cor-de-Rosa: a arte de filmar a ausência

O mais recente filme de Marco Bellocchio, que abriu ontem a Festa do Cinema Italiano, está a partir de hoje nas salas. Sonhos Cor-de-Rosa é uma crónica da orfandade.

A família, no seu lado menos cor-de-rosa. Podemos dizer que é essa a abordagem recorrente de Marco Bellocchio (n. 1939) ao longo de uma expressiva obra com mais de meio século, a olhar a sociedade italiana. Ou melhor, a família como turbulência da intimidade que se liga ao cenário de um país, com maior ou menor filtro histórico. Curiosamente intitulada Sonhos Cor-de-Rosa - a partir do best-seller que adapta, de Massimo Gramellini, editado em Portugal pela Bertrand - esta última longa-metragem de um dos grandes cineastas italianos vivos nada tem de ingenuidade ou sentimentalismo inócuo. A violência que marca o seu primeiro filme, de 1965, I pugni in tasca (Os Punhos nos Bolsos), sobre um jovem matricida, e que se manifestou noutros filmes como atributo da revolta juvenil, não se apartou do seu cinema recente: está esculpida num conflito interior. Sonhos Cor-de-Rosa, que abriu a Quinzena dos Realizadores em Cannes, e ontem inaugurou a 10ª edição da Festa do Cinema Italiano em Lisboa, é assim um título cuja maturidade surge inerente à própria veterania do realizador, que observa o protagonista através de um trauma de infância.

Este chama-se Massimo, como o autor do romance (ou não fosse a história autobiográfica), e ficou órfão de mãe quando tinha 9 anos. Da noite para o dia, rodeado de pessoas vestidas de negro, é forçado a acreditar que o corpo do ser que mais ama está dentro de um caixão. Dizem-lhe que morreu de enfarte, e o padre procura tranquilizá-lo com o velho estribilho de que, a partir daquele momento, ela é o seu anjo-da-guarda... Mas quem conhece os caminhos de Bellocchio sabe que uma personagem sua nunca se resignaria à sentença religiosa. É no espírito desses anos 1960, em que o ritual televisivo assumia contornos solenes no quotidiano doméstico, que o realizador encontra a figura que aquela criança, pela lógica do imaginário popular, nomearia como "anjo-da-guarda": o fantasma do Louvre Belfagor, da minissérie francesa que foi um êxito em Itália nessa altura. Vivendo uma infância amparada por tal fantasia, e depois uma adolescência condenada à dor silenciosa perante a imagem afetiva das outras mães (dizia aos amigos que a sua vivia em Nova Iorque), Massimo chega à idade adulta com um rosto - o de Valerio Mastandrea - sublinhado pela angústia do vazio precoce, que a presença do pai nunca atenuou. Na década de 1990, este homem-criança, jornalista de profissão, no encalço das narrativas alheias, é o portador da história pessoal que acaba por tocar mais profundamente os leitores, quando levada às páginas do jornal.

Bellocchio intercala as três fases da vida da personagem com um rigoroso sentido de construção dramática, que, mais do que visar o triunfo simbólico sobre os fantasmas do passado, procura a libertação do indivíduo e o seu apaziguamento emocional. É aí que entra Bérénice Bejo, num pequeno mas harmonioso papel, como a mulher que cicatriza a ferida edipiana de Massimo.

O poder da blasfémia

Importa lembrar que a visão psicanalítica tem um peso muito relevante na filmografia de Marco Bellocchio (sintoma disso é que, efetivamente, nela encontramos muitos psiquiatras). Basta recuar, por exemplo, ao brilhante L"ora di religione (Il sorriso di mia madre), de 2002 - um dos vários títulos não estreados entre nós, que se pode traduzir por "O Sorriso de Minha Mãe" -, onde um pintor ateu é confrontado com a iminente canonização da mãe, que foi morta pelo seu irmão doente mental. Longe de aceitar que a mulher que o deu à luz fosse uma santa, este homem vive constrangido pelo sorriso indiferente que dela herdou, e considera ter sido essa a principal razão que provocou o ato do irmão... Soa a blasfémia? Sim, e é aí que Bellocchio coloca a haste do seu cinema. Também a recusa de Massimo, neste Sonhos Cor-de-Rosa, em aceitar que a mãe falecida fosse o seu anjo da guarda é uma atitude blasfema. No entanto, é semelhante atitude que o protege da realidade intolerável.

Recusando, da mesma forma, um retrato simplista da orfandade, Bellocchio ergue o melodrama a partir de singulares pormenores de época e recordações de magoada graciosidade. O lirismo de Sonhos Cor-de-Rosa anuncia-se então nas entrelinhas de uma magnífica prosa visual, que nos encanta igualmente pela franqueza da caligrafia. Eis um dos filmes do ano.

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