Solange conquista o seu lugar à mesa

Solange Knowles, irmã de Beyoncé, está de volta aos discos e atinge o seu 1.º lugar do top dos EUA

Recentemente, Solange Knowles lançou o seu novo álbum de estúdio, A Seat at the Table, o terceiro num percurso de mais de dez anos que, na verdade, têm sido vividos na sombra da irmã, Beyoncé Knowles, tendo trilhado, por isso mesmo, uma trajetória alheia a grandes ambições mainstream, ao contrário da irmã, que durante o mesmo período se transformou numa das vozes mais icónicas e influentes da cultura popular contemporânea. Mas agora algo mudou e com A Seat at the Table Solange conquista os tops de vendas e nos EUA o disco entrou mesmo para o primeiro lugar da lista.

Acaba por ser impossível não traçar caminhos paralelos entre este A Seat at the Table e o mais recente disco de Beyoncé, Lemonade. Solange define o seu novo álbum como "um projeto focado na identidade, no empoderamento, na independência, na mágoa e na cura". A Seat at the Table, como o título deixa antever, é um disco de celebração da sua identidade enquanto mulher negra numa sociedade ainda profundamente racista. Lemonade, o álbum (e filme) que a sua irmã Beyoncé lançou de surpresa em abril passado, é também ele uma reflexão sobre as lutas que as mulheres afro-americanas enfrentam na sociedade norte-americana.

"Temos o mesmo pai e a mesma mãe. Crescemos na mesma casa e tivemos e ouvimos as mesmas conversas. Através da voz da minha mãe, e do facto de ela ser uma lutadora pela igualdade dos negros - e, obviamente, através da introdução de Don"t Touch My Hair (canção do seu novo disco) -, as pessoas começam aos poucos a perceber a educação que tivemos, de que tínhamos diariamente estas conversas muito comprometidas política e socialmente. Não devia, por isso, ser uma grande surpresa que duas pessoas que cresceram na mesma casa com os mesmos pais que estão muito conscientes - tal como muitos outros - de todas as desigualdades, dor e sofrimento das pessoas hoje em dia desejem criar arte que reflita isso", explicou a cantora numa entrevista à revista Fader.

A referida Don"t Touch My Hair é uma das canções mais políticas deste álbum, tema que é precedido de uma gravação da mãe de Solange e Beyoncé, Tina Knowles, a discursar sobre a beleza que é poder expressar o seu orgulho enquanto mulher negra, e que tal celebração não é sinónimo de quaisquer preconceitos contra os brancos. A declaração de intenções que acaba por enformar o espírito conceptual deste terceiro disco de Solange acaba por estar bastante sintetizada na canção F.U.B.U. (acrónimo para "For us, by us" e também uma referência à marca de roupa criada no início dos anos 1990 com o mesmo nome), que conta com as participações dos cantores The-Dream e BJ the Chicago Kid, na qual a própria canta: "I hope my son will bang this song so loud, that he almost makes his walls fall down, "cause his momma wants to make him proud, oh to be us." O tema conta com a colaboração da escrita de Rostam Batmanglij, fundador do grupo indie norte-americano Vampire Weekend, dos quais saiu no início deste ano.

O seu segundo álbum de estúdio, Sol-Angel and the Hadley St. Dreams (2008), apesar da sua veia r&b classicista, acabava por repescar referências de outras latitudes sonoras, samplando um tema do duo escocês de música eletrónica Boards of Canada, em This Bird. Um ano depois lançou uma versão de Stillness Is the Move, do grupo Dirty Projectors, com quem chegou a cantar ao vivo, mas o disco responsável por Solange se ter transformado numa espécie de musa r&b para o mundo indie foi o EP True (2012), resultado de uma parceria com o produtor Dev Hynes (mais conhecido como Blood Orange, ex-Test Icicles) e do qual saiu o single Losing You (composto ainda com a ajuda de Kevin Barnes, dos Of Montreal), que rapidamente se tornou um fenómeno à escala global e que subsiste da sua veia nostálgica pelos sons dos anos 1980. Posteriormente lançou a sua própria editora, a Saint Records.

E, se durante anos Solange viveu algo na sombra, afastada do foco das atenções, e com um percurso discográfico algo irregular (do primeiro para o segundo álbum passaram cinco anos e do segundo para o terceiro passaram oito, tendo pelo meio editado o referido EP True), agora acaba por conhecer um maior reconhecimento muito graças ao contexto em que se insere. Nos últimos anos vários artistas r&b têm vivido uma crescente independência das grandes editoras (como Miguel, Dawn Richard ou Kelela, que agora colabora com Solange), mas conquistando o apoio do público.

A Seat at the Table acaba por ser um disco de mudança de paradigma do percurso de Solange, explorando plenamente a sua personalidade artística e as suas preocupações políticas e sociais sem que as pressões da indústria discográfica toldem o seu caminho e, acima de tudo, mostrando que tem muito mais a trazer para cima da mesa do que apenas o epíteto de "irmã de Beyoncé".

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