So long, Mr. Cohen

A crónica de João Gobern, publicada na edição de sábado do DN.

Dá direito a arrependimento, por soar agora como um presságio infelizmente concretizado - há duas semanas, na tentativa de abordar o novo álbum do cantor, poeta e escritor canadiano, aqui se escrevia que "só Leonard Cohen enfrenta a morte a cantar". Exagero? Obviamente - já outros o fizeram antes, incluindo Bowie. Mas nenhum com a prontidão do autor de Bird on the Wire, que se anunciava "pronto" e em tempo de "se levantar da mesa".

Choramo-lo agora, por sabermos que não haverá nunca mais acrescentos na paixão superlativa e na ironia suprema que transmitia às canções, espalhadas por 14 discos que passam a valer como joias de coleção e multiplicadas por todos os autores que foi inspirando.

Desde 1967, ano de estreia em disco, até à última cartada, Leonard Cohen sempre se mostrou um mestre na fuga às modas, ao efémero, aos truques - daí que o seu património, visionário mas não revolucionário, trocasse invariavelmente a novidade pela eternidade. Basta pegar num qualquer tema de um qualquer disco assinado por este nativo de Montreal para entendermos o que significam entrega total, constância inquieta, superação como lema - as suas canções serviam, com igual eficácia, para acompanhar momentos íntimos, até os mais chegados à falência da vontade, e para mobilizar multidões, muito para lá dos concertos. Há, diante disto, uma imagem que nos assalta, porventura mais teatral do que as suas cantigas tantas vezes construídas "por camadas", para diferentes (ou complementares) entendimentos: aquela que nos recorda o que é morrer de pé, como as árvores.

Cohen - diz quem lhe esteve próximo - escreveu até ao fim, ao ponto de assinar o seu próprio epitáfio com um álbum soberbo. Há quem garanta que morreu na véspera das eleições norte-americanas, o que teria lógica, se tivermos o bom senso de ainda acreditar numa lei de incompatibilidades - e, nesta semana, por força das circunstâncias, lá voltámos mais uma vez a manifestos como Everybody Knows ou Democracy.

Fecha-se (já chega...) o ano horrível da canção popular, capaz de formar um trio improvável, com Bowie, Prince e Cohen, garantia de que as canções novas não chegarão jamais a fazer sombra aos legados destes homens. So long, Mr. Cohen. Foi um prazer. Até um dia destes.

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