"Sinto-me a guardiã do legado do Serge Gainsbourg"

Sensual, erótica, polémica ou provocadora são alguns dos adjetivos habitualmente usados para definir Jane Birkin, musa do cantor francês Serge Gainsbourg e um dos maiores símbolos, tanto no cinema como na música, da nova ordem social pós-Maio de 68. Na próxima sexta, 14 de julho, regressa a Portugal.

Deu-se a conhecer como cantora em Je T"Aime... Moi Non Plus, o eterno clássico de Gainsbourg, autor com quem esteve casada durante anos e que nunca mais deixará de cantar, tal como vai acontecer, na próxima sexta, num espetáculo em estreia em Portugal, no qual surgirá na companhia do pianista japonês Nobuyuki Nakajima e da Orquestra Gulbenkian, para interpretar em versão sinfónica alguns clássicos do cantor francês.

Passados todos estes anos, o que sente ao cantar Serge Gainsbourg?

Já o faço há tanto tempo, que é algo que já faz parte de mim. Na verdade, para ser honesta, não sei muito bem como responder a essa questão. É quase como se fosse a minha missão de vida. Sinto-me como se fosse a guardiã da obra e do legado dele. É isso. Já o fiz de todas as maneiras possíveis e agora até o estou a cantar acompanhada de uma orquestra. É muito comovente perceber que, passados mais de 25 anos sobre o desaparecimento de Serge Gainsbourg, a música dele continua tão viva e que as pessoas continuam a querer ouvi-la. Eu apenas dou um pequeno contributo para isso.

Como escolheu os temas para este espetáculo?

Continuo a achar que as melhores canções do Serge foram as que ele escreveu para mim, especialmente aquelas que escreveu depois de nos separarmos, em 1981. O alinhamento deste concerto, que também inclui outros clássicos como Initials B.B. ou La Javanaise, é muito baseado nessa época. Foi uma fase em que ele quis mesmo mostrar na sua música como se estava a sentir. Era algo que ele conseguia fazer muito bem.

E como surgiu a ideia de fazer um concerto sinfónico com a música de Serge Gainsbourg?

Curiosamente, foi uma sugestão de uma jornalista canadiana. Eu estava no Quebeque em digressão, em que declamava alguns dos textos do Serge e, durante uma entrevista, ela disse-me que, se acompanhasse essas atuações com um pequeno ensemble clássico, as palavras iriam ganhar outra força. Gostei da ideia, até porque o Serge escrevia sempre as suas letras a ouvir música clássica. Mas eu já não fazia nada há cerca de dois anos e a ideia de gravar com uma orquestra parecia-me um pouco pretensiosa, até porque nem canto assim tão bem [risos].

E o que é que a convenceu?

Ter conhecido o pianista e compositor japonês Nobuyuki Nakajima, durante um espetáculo de beneficência para as vítimas de terramoto de Fukushima, em 2011. Ele já tinha feito uns arranjos muito bonitos para algumas canções do Serge Gainsbourg e pareceu-me a pessoa perfeita para este projeto. Convidei-o, ele aceitou e o resultado superou todas as expectativas. Os arranjos que fez são muito suaves, quase cinematográficos, pela subtileza com que dão o devido destaque à voz, sempre nos momentos certos. A minha voz foi tratada como outro instrumento musical, uma harpa ou um violino, de modo a que eu não tivesse de estar constantemente a lutar com a orquestra.

E como foi esse primeiro momento, de cantar as canções de Serge Gainsbourg, acompanhada por uma orquestra?

O primeiro ensaio com a Orquestra de Montreal foi um momento muito especial para todos, apesar de ter ficado praticamente sem voz [risos]. A estreia do espetáculo foi num festival de música francófona, no Canadá, e todos os presentes no público ficaram muitos surpreendidos e comovidos, porque um espetáculo destes facilmente se poderia transformar em algo banal, mas acabou por tornar-se uma homenagem muito bela.

Foi também por isso que, mais tarde, decidiram transformar o espetáculo num disco?

Sim, porque senti que era algo que faltava fazer a Serge Gainsbourg e à sua música.

E agora, neste espetáculo em Lisboa, como vai ser?

Vai ser também um momento muito especial, Lisboa é uma cidade que adoro a todos os níveis e a última vez que aí estive, há cerca de sete anos, a apresentar o disco Enfants d"Hiver, estava muito doente, com uma pneumonia. Quase nem consegui cantar, limitei-me a declamar as palavras. Tenho ensaio marcado com a orquestra Gulbenkian, que me vai acompanhar neste espetáculo, mas depois vou aproveitar para passear nessa cidade maravilhosa. Tal como em 2010, vou levar a minha melhor amiga, a Gabrielle, mas tenho de a compensar, porque, nessa altura, passou quase todo o tempo comigo no hospital. Quero mostrar-lhe as ruas dos bairros antigos, levá-la a comer peixe e dar-lhe a conhecer os jardins do Palácio de Fronteira, um dos meus locais favoritos de Lisboa. O Marquês ainda é vivo?

Faleceu há cerca de 3 anos...

Que pena, era uma pessoa muito culta e um ser humano extraordinário...

Jardim de Verão este fim de semana

O espetáculo de Jane Birkin está integrado no festival Jardim de Verão, que se prolonga até 20 de julho nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian e, além da música, inclui também cinema, leituras encenadas ou diversas atividades para toda a família. Amanhã, domingo, é a vez da guineense Eneida Marta subir ao palco, acompanhada por um quarteto acústico composto por piano/guitarra, kora, percussão e baixo, para apresentar a fusão de jazz com ritmos tradicionais que a tornaram uma das figuras maiores da música do seu país.

A Banda de Música da Força Aérea Portuguesa, a 16 de julho, a Orquestra Gulbenkian, a 20 de julho, e a fadista Gisela João, a quem caberá o concerto de encerramento desta segunda edição, também a 20, são os concertos que se seguem.

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