Sete mulheres e a tristeza como motor de busca para o mundo

Sónia Baptista regressa ao lugar onde é feliz para usar a tristeza como ferramenta de intervenção. Sete mulheres em cena - e 30 nos bastidores - fazem peito ao estado das coisas.

“A melancolia está para a tristeza como a celulite para a gordura, só desaparece com a morte”, diz o urso-polar (Paula Sá Nogueira) que atravessa a mais recente criação de Sónia Baptista. É ela que contextualiza o bicho: “A presença do urso-branco tem que ver com uma série de testes feitos a soldados americanos nos anos 60 que, apesar de proibidos de pensar no animal durante x horas, confessaram ter pensado nele várias vezes. É uma espécie de travessura do cérebro, de policiamento de sinal contrário. Se não quero pensar em coisas tristes, é quando mais penso em coisas tristes.” Triste in English from Spanish parte deste lugar, um lugar tão pessoal quanto global, propondo uma espécie de anatomia da tristeza como espaço gerador - de dor e de esperança - e transformador.

“Às vezes a vida é uma coisa avassaladora. É o choque e o assombro. E qualquer pessoa com o mínimo de noção do mundo não pode senão lutar contra o estado das coisas. A melancolia é uma coisa vitoriana, romântica, a depressão é uma merda mas a tristeza com sorte dá zanga, dá para lutar.” O que está no avesso da tristeza é a ironia, o absurdo, a autocrítica bem-humorada, a alegria mais do que a felicidade. “A busca da felicidade é problemática porque deixa as pessoas cegas para as coisas tristes do mundo.”

Coreógrafa e performer, autora de livros que são gestos coreográficos, de peças que são instalações teatrais e de performances literárias, Sónia Baptista regressa ao palco da Culturgest, onde deu a ver diversos momentos da obra que vem construindo numa carreira com quase 20 anos - estreou-se com Haikus, série de pequenos solos que lhe valeram, em 2001, o Prémio Ribeiro da Fonte de Revelação em Dança, pelo Ministério da Cultura, e que André e. Teodósio trouxe de novo a jogo no verão passado, num ciclo organizado pelo Teatro Praga, nas Gaivotas -, para usar a tristeza como ferramenta de questionamento da ordem do mundo.

No espetáculo convocam-se “as raízes ecofeministas, eco-queer e holístico-filosóficas” de Sónia Baptista e “desenterram-se preciosidades, muito ou pouco sérias, absurdas, vulneráveis, das tragédias globais às tristezas pessoais, do global para o individual, do natural para o metafísico, da vida real para a presença online”. “You get a car! And you get a car! And you get a car!”, grita Oprah no vídeo do YouTube em que oferece um carro a cada espectador na plateia do seu famoso programa de televisão. “Tu vais acabar! E tu vais acabar! E tu vais acabar!”, traduz Sónia para a plateia. O lado terrível e belo das coisas é chamado à cena de cartão falsamente neutra (desenhada por Raquel Melgue em espelho com os figurinos caqui de Lara Torres, cheios de penas e cores no interior), seja com Shakespeare ou com os manuais de decluttering (destralhamento) de Marie Kondo. Vale tudo naquilo a que chama “uma psicopoética browsiana”, método que utiliza a internet como ferramenta de busca e reflexão sobre o mundo. “As pessoas usam o YouTube como uma espécie de confessionário e os comentários traduzem uma enorme tristeza.”

Com Sónia estão as que possuem faróis para ver melhor no nevoeiro do mundo, e as coisas vivas que interessa salvar da extinção. Ao contrário do seu trabalho, apresentado as mais das vezes a solo ou em dupla, desta vez ela convoca sete mulheres para a cena - as cocriadoras Carolina Campos, Márcia Lança, Joana Levi, Cleo Tavares, Ana Libório e Paula Sá Nogueira - e mais de 30 nos bastidores, entre investigadoras, cineastas, artistas plásticas, todas a fazerem peito ao estado das coisas. Literalmente.

“Na pesquisa para este espetáculo descobri que (a cantora) Dolly Parton chama às suas extraordinárias mamas ‘choque’ e ‘assombro’, por exemplo. É sobre as mulheres que se exercem as violências maiores, e este espetáculo assenta sobre essa evidência, além de ser um salto para o abismo, porque nunca tinha trabalhado com nenhuma destas cocriadoras. Convidei-as com base em coups de foudre, por as ver em cena, só tinha trabalhado com a Paula, foi uma escolha muito esperançosa.” E depois há três homens - Daniel Worm, que criou as luzes do espetáculo, Gil Mendo e Francisco Frazão, agora de saída da Culturgest, numa celebração da sua prática enquanto carismáticos programadores de teatro e dança.

É político e é poético o trabalho dela, sempre foi, tanto na sua prática artística quanto na visão do mundo em que assenta. “Entristece-me a maneira antropocêntrica e egocêntrica de viver no mundo. Enfurece-me o facto de as pessoas não pensarem além do seu perímetro - emocional, físico, económico, geográfico. Fico triste, fico zangada com essa falta de reconhecimento, de empatia, de respeito, de amor por isto. Como é que se pode não amar isto que nos rodeia, o mundo, as coisas vivas, as pessoas?” Sim, Marco Paulo também é chamado a esta cabine de som: como diz a canção, “mais e mais amor” precisa-se.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG