Sérgio revisitado: das pré-histórias à vida real

Mais três álbuns do percurso de Sérgio Godinho voltam a ver a luz do dia, reeditados para evitar lacunas. 32 canções, sendo uma delas "repetida", ilustram três compassos distintos

Querendo conciliar o aspeto simbólico e o lado prático das coisas, há um mesmo título que nos serve de princípio e fim à abordagem dos três discos de Sérgio Godinho agora reeditados - Pré-Histórias (1972, embora só "chegado" a Portugal no ano seguinte), Salão de Festas (1984) e Na Vida Real (1986). Chama-se a cantiga Pode Alguém Ser Quem Não É? e integra o cartaz do álbum mais antigo e do registo mais recente. Há uma curiosidade de circunstância: em ambos os casos, surge como faixa número 7 do respetivo CD (tal como, nos tempos do vinil, era a segunda do lado B). Mas há, também, e de forma muito mais significativa, uma substantiva transformação do tema, que ainda não deixou de fazer sentido no seu lirismo combativo ("pode alguém ser livre / se outro alguém não é / a corda de um outro / serve-me no pé / nas duas mãos..."), de tal forma que ainda aparece no alinhamento dos concertos do autor. Na primeira versão, impera a singeleza, baseada na viola acústica, numa flauta ingénua, em percussões que parecem diluídas. Na segunda, além de quase duplicar o tempo, ganha uma entrada poderosa de sintetizadores, inquieta-se sobre a força sublinhada de piano, baixo e bateria. Mais: acaba por ganhar uma nova estrofe, provando que pode não haver leituras definitivas nem obras acabadas.

Coincidência ou não, há em Na Vida Real outro dado efetivo: ao contrário do que acontece em todos os momentos dos dois álbuns parceiros de ocasião, que nunca se chegaram a uma tal cronometragem, são quatro as canções (Definição do Amor, Lisboa Que Amanhece, O Fugitivo e a já citada Pode Alguém Ser Quem Não É?) que ultrapassam a "barreira psicológica" dos cinco minutos, com uma quinta (Dor d'Alma) a ficar muito próxima dessa marca. Resista-se à tentação, linear, de sentenciar este "alargamento" como uma evidência de ser este um dos momentos em que Sérgio se sentiu confortável para deixar correr a música, digamos assim. De facto, em quatro ocasiões anteriores da sua discografia oficial, ele já viajara além dos cinco minutos: 2.º Andar, Direito (de Pano-Cru), Lá em Baixo, Mudemos de Assunto (ambas de Campolide) e Num Bilhete de Ida e Volta (de Coincidências). Mas, diante da audição dos três álbuns em causa, torna-se evidente a sensação de que Sérgio, o poeta, decidiu criar mais espaço a Sérgio, o compositor, e aos seus arranjadores e instrumentistas. Tendência que, de resto, desenvolveria nos trabalhos posteriores.

Os cúmplices e as circunstâncias

Se ensaiarmos uma "localização" dos três discos, Pré-Histórias será o mais fácil de enquadrar. É um disco de exílio, tão próximo nas suas ânsias e urgências como demarcado, até nas companhias - Christian Padovan, Michel Delaporte, Jean Moillesullz, que é como quem diz, músicos nativos ou assimilados da França que testemunhou a gravação, ainda antes de Sérgio Godinho completar 27 anos. Nada disto diminui a qualidade intrínseca do segundo longa-duração de autor que, aliás, parece ter guardado para aqui o cartão-de-visita que os anos confirmariam em pleno: o Homem dos Sete Instrumentos. Há espaço para a frontalidade política, em Eh! Meu Irmão ou em Até Domingo Que Vem. Há um par de exercícios "abrangentes" que ajudam a definir uma das tónicas do criador, em tempos futuros, como Aprendi a Amar ou Já a Vista Me Fraqueja. Há uma significativa visita a Alexandre O'Neill. Há uma primeira escala, muito inventiva, ao Porto (quase uma década antes de O Porto Aqui tão Perto), em Porto, Porto. Há dois momentos, bem diferentes entre si, de adesão imediata: Barnabé e Pode Alguém Ser Quem Não É?. E há um dos hinos do amor que todos deveríamos saber par coeur (mais bonito do que saber "de cor") para aplicar nos momentos em que a paixão sobreleva: A Noite Passada.

Salão de Festas parece assinalar claramente um fim de ciclo. Para alguns, ganhou um problema de sequência por vir logo a seguir ao excecional Coincidências, o álbum "ponte aérea" de Sérgio, temperado com parcerias com alguns dos superlativos músicos do Brasil, com Chico Buarque e Milton Nascimento à cabeça, mas também Ivan Lins, João Bosco e Novelli (Caetano Veloso chegaria mais tarde, na versão de Lisboa Que Amanhece de O Irmão do Meio). Além disso, registaria o epílogo para uma dupla de colaboradores próximos - na produção, na direção musical, nos arranjos - a que juntava Luís Caldeira (desde Campolide) e José Martins (que se juntara a Caldeira em Canto da Boca). Não se fale, nesta discografia, em momentos menores - e aí estão canções como Mil Pedaços, Quimera do Ouro e Coro das Velhas ("cá se vai andando, com a cabeça entre orelhas...") a merecer lugar na longa antologia do autor. Mas ressalta a ideia de um "fim de festa", até para fazer jus ao título. O que, em Sérgio Godinho, implicou sempre o uso inteligente do elixir da eterna busca.

O inquieto renascimento

A criação de uma página "limpa" - não se confunda com o renegar do que ficara dito e bendito - começa num lote de canções imortais: Definição do Amor, Isto Anda Tudo Ligado, Lisboa Que Amanhece, O Fugitivo, Elogio do Artesão e a injustamente esquecida Emboscadas, a que se juntam a versão revista e aumentada de Pode Alguém Ser Quem Não É? e a mais descomplexada das canções alheias que Sérgio gravou até então, O Carteiro, de António Mafra, em que convida Rui Veloso. No entanto, há um nome decisivo para que Na Vida Real valesse o salto transgeracional que, desde aí, Sérgio confirmou em cada esquina: o produtor e arranjador António Emiliano, já conhecido das suas assíduas colaborações com o encenador Ricardo Pais e com o cineasta Joaquim Leitão, instrumentista em Sonho Azul, de Né Ladeiras, mais tarde produtor de Lena d'Água e da Banda do Casaco, autor de discos de referência como Fausto, Fernando, Fragmentos (banda sonora da peça) e Gahvoreh. Os instrumentistas também mudam, com a chegada de João Maló, Emanuel Ramalho, Yuri Fernandes, Manuel Costa Reis, alguns deles vindos do rock.

Globalmente, o novo capítulo está lançado. Depois, Sérgio Godinho continuará em busca de outras companhias - a de João Lucas em Aos Amores, a de João Paulo Esteves da Silva em Tinta Permanente, até chegar aos que com ele colaboram por estes dias. Na Vida Real mantém intacta a frescura (extensiva à capa de Jorge Colombo, sobre fotografias de António Pedro Ferreira). Parece que foi ontem. Mas não, foi mesmo há 30 anos. O que confirma que o tempo sabe bem escolher os amigos. Sérgio tem - e merece - o lugar de honra entre os favoritos.

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