Sara Tavares voltou e canta feliz como um puto atrás da bola

Para trás ficou a miúda que queria ter nascido na América, e que cantou mornas para se justificar. Sara Tavares nunca soou tanto a si própria. Fitxadu aparece depois de oito anos sem um disco, quando a vontade de cantar regressou, e com uma doença que lhe poderia ter tirado a voz pelo meio. Então juntou-se a Paulo Flores ou Toty Sa"Med para fazer música como "Eusébios e Pelés".

Quase deixámos de poder ouvir Sara Tavares. "Não queria fazer música, estava desmotivada, fiquei muito cansada com as tournées, não tinha vida. Sonhei muito com isto, fiz isto, e agora via-me do outro lado, a olhar para cá. Pensava que podia compor para outros, produzir, também vivi no campo, dois anos. Dar a cara tira muita energia, dares de ti, da tua vida verdadeira: sai-te mesmo da pele." Além disso, um tumor benigno que lhe apareceu (e depois reapareceu) no cérebro poderia ter-lhe roubado a voz. "Pensei que podia ser massagista, agricultora, tenho outros talentos. Houve uma parte quando estive doente em que havia a eventualidade de poder deixar de usar a fala. Podia sempre escrever, desenvolver a parte de compor."

Sara Tavares tem agora 39 anos. O país conheceu-a era ela uma miúda de 15 anos que vivia em Almada e queria ser como a Whitney Houston: "bonita, generosa, e rica". Foi a cantar uma música de Whitney que venceu o programa televisivo Chuva de Estrelas. Ri-se quando lhe lembramos esses adjetivos e fala da América, "única terra em que via os negros a serem bem-sucedidos. Olhava para aqui e só via o Eusébio, não havia outros negros na televisão." Sara, como quase toda a gente, demorou a chegar à sua pele. Agora que chegou, canta tudo isso num elétrico, feliz, urbano, e dançável Fitxadu, pelo qual esperámos oito anos. E quando, na Casa Independente, apareceu a dançar num concerto para amigos com Onda de Som, que abre o disco, dizia-se nervosa, pois havia quase um ano que não subia ao palco.

Em Fitxadu compôs, cantou e tocou com Paulo Flores, Toty Sa"Med , Loony Johnson, os ex-Buraka Som Sistema Kalaf Epalanga, João Pires, ou Conductor, ou o rapper Virgílio Varela; momentos em que, escreve no booklet do álbum, "andamos ali a correr como putos atrás da bola, e somos todos Eusébios e Pelés". Perguntamos-lhe o que é isso, e ela refere "aquelas fotografias das revistas de música" em que vemos Bob Marley ou Mick Jagger em plena sintonia com o seu público. E continua: "É aquela zona da alegria, do êxtase. Teres o som a passar por ti e passares a bola para outro, é um prazer indescritível."

O que a fez regressar? "Sempre que vejo uma pessoa a passar num carro e a curtir a música." E, claro, depois existem as músicas, que, conta ela na sua voz muito calma, vão aparecendo. Sara agarra no telemóvel e mostra a aplicação Dictaphone. Passa por uma lista enorme onde vemos passar Coisas Bunitas, que faz parte do álbum. Paramos em janeiro de 2016 e Sara põe a tocar uma canção que fez com os rappers Beware Jack e Double (Virgílio Varela) e que não terminaram.

A música de uma Lisboa africana

Em tempos ela disse-se portuguesa, depois cabo-verdiana, e ainda afro-portuguesa; hoje, quando é preciso dizer de onde vem, Sara diz-se "lisboeta, com muito orgulho". Filha de cabo-verdianos, só conheceu o país depois de ter vencido o Chuva de Estrelas, e só então começaria a falar o crioulo (que já entendia) em que canta ao longo de quase todo o Fitxadu. "Acho que a pessoa ganha mais consciência da sua identidade nascendo num sítio como Lisboa do que às vezes nascendo no Mindelo, Luanda, ou Bissau, porque está tão adquirido ali." Não é por acaso que este seu álbum, muito mais do que Xinti (2009), é um reflexo dessa Lisboa que vai do seu centro até Galinheiras, Cova da Moura, ou Barreiro. "Tem muito dessa Lisboa, e eu quero conhecer mais. Há muitos quartinhos ali a pulsar música."

Quando lhe perguntamos como vai evitar cair de novo numa espiral de tournées que lhe o tirem o tempo para viver, Sara explica que o panorama da chamada world music mudou: "Já não é uma descoberta. Agora estamos a viver um revival da música eletrónica, urbana. Acho que estamos mais em sintonia uns com os outros, porque eu senti-me discriminada quando estava a fazer o circuito da world music. Via-me sempre a dar palestras sobre a história da lusofonia, às vezes a cantar mornas, não porque me apetecia. Às vezes só me faltava ir fazer a cachupa e o bacalhau para servir no fim dos concertos."

Para trás ficou a miúda que queria ter nascido na América, e aquela que cantava mornas para se justificar. Sara Tavares nunca soou tanto a si própria. Na música que dá nome ao álbum, Fitxadu, canta em crioulo algo como "as coisas boas do mundo não têm corte, estão fechadas aqui no meu peito". "É uma coisa forte: abraçofitxadu. Aquela amizade que eu tenho por ti guarda fitxada." Diz-vos ela.

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