Roger Waters pergunta o que queremos fazer da vida

Encostar a guitarra à parede não está nos planos do fundador dos Pink Floyd: disco e digressão estão aí, porque há palavras que têm de ser gritadas, ontem como hoje, contra muros e poderosos. Waters está na estrada desde 26 de maio, com 55 datas nos EUA e Canadá. A Europa ainda não está no horizonte

Roger Waters não é homem de meias-palavras e não é aos 73 anos que vai mudar. Escarrapacha no livreto do novo disco, Is This the Life We Really Want?, uma fotografia de Donald Trump com barras pretas, como as que figuram na capa, e a frase "a leader with no fucking brains" (traduzível por algo como "um líder com miolos de merda") do tema Picture That. O presidente norte-americano já tinha sido saco de pancada em concertos nos Estados Unidos e no México e vai continuar a sê-lo porque, declara Waters, Trump "é uma fonte inesgotável de absurdo".

O baixista, cantor e compositor retoma os temas que o desassossegam desde a segunda metade dos anos 70: a guerra e a alienação dos povos. E se em Amused to Death, de 1992, Waters refletia também sobre a sociedade do espetáculo e o poder da TV, em Is This the Life We Really Want, os refugiados, a morte das crianças e a indiferença generalizada em relação a eles são temas com que se ocupa. "Só escrevi sobre uma coisa na minha vida, que é o facto de nós, como seres humanos, sermos responsáveis uns pelos outros, e que é importante criar empatia com os outros, que organizemos a sociedade para que todos nos tornemos mais felizes e consigamos a vida que realmente queremos. E a vida que realmente queremos é uma vida em que todos nós podemos educar os filhos, para que eles e os nossos netos possam aspirar a uma vida melhor e mais produtiva (...) do que as vidas que somos forçados a viver agora, controlados como somos por muito poucos", contou à Rolling Stone.

No disco à venda desde sexta-feira, as reminiscências sonoras de temas dos Pink Floyd e da carreira a solo de Waters são óbvias. O tema introdutório, When We Were Young, atira-nos para uma colagem que podia estar em Dark Side of the Moon, a voz em eco de Dogs (do álbum Animals) reencontra-se em Bird in a Gale, há cães a ladrar em Smell the Roses (como em Dogs ou em The Ballad of Bill Hubbard, de Amused to Death), antes de uma guitarrada que podia ser assinada por David Gilmour. O mesmo se aplica às letras. Os fãs podem fazer uma espécie de caça ao tesouro - acima estão apenas alguns exemplos. Significa isto que Roger Waters, após 25 anos de silêncio criativo (no que respeita ao rock) fez o mesmo álbum de sempre? Sim e não. Sim, é um disco que resume a obra e o ethos do músico inglês. Quem não suporta a sua personalidade (pedante é o adjetivo que mais cola quem lhe é hostil) não se renderá agora. E não, Is This the Life We Really Want? não resultou de um algoritmo que radiografou a discografia de Pink Floyd/Waters e recuperou acordes e efeitos sonoros de forma mais ou menos aleatória. É antes uma obra do equivalente a um cantor de intervenção, com a característica urgência e crueza das letras e, ao mesmo tempo, com uma sonoridade envolvente e complexa.

Roger Waters não encobre a idade e o resultado é ouvirmos a sua voz desnuda e emotiva, sempre próxima. E depois há Nigel Godrich. Um produtor musical que tem no currículo uma longa e estreita colaboração com os Radiohead (e Thom Yorke a solo), mas também com Beck ou Air. Ou Waters não é aquele antipático arrogante que pintam ou Godrich tem uma personalidade muito forte, porque a ideia inicial era um álbum conceptual em forma de radionovela. "Ele convenceu-me que, para a finalidade de um disco de rock & roll, que é do que se trata, ele achou que a minha ideia teatral era menos do que ideal", contou à Rolling Stone. E em vez de bater com a porta ao produtor deu-lhe corda. "Desde então, estivemos a trabalhar para trás e para a frente, e foi um processo muito gratificante e interessante. Eu acho que a gravação que fizemos juntos é bonita (...) mas é muito menos linear do que a peça de rádio teria sido." Além de produtor, Godrich tocou guitarra e teclados e foi o responsável pelos arranjos e pela mistura. Consoante os ouvidos, o resultado foi uma enxertia cujos frutos oram cheiram a Radiohead ora cheiram a Beck. O sabor, esse, é floydiano. Sem dúvida.

Dos novos temas, há cinco que fazem parte do novo espetáculo e digressão - e os restantes são dos Pink Floyd. Com nome baseado numa canção do álbum Dark Side of the Moon, a digressão Us & Them tem temas desse álbum, mas também de Animals, de The Wall e de Meddle, num total de 24 canções. A digressão arrancou no dia 26 de maio, com 55 datas entre Estados Unidos e Canadá. Para já, não há indicação de que visite a Europa. Mas é provável, porque Roger Waters rendeu-se à vida na estrada. "É viciante", afirmou.

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