Robert Zemeckis, um autor ao serviço de Hollywood

Está na hora de um grande festival internacional apostar numa retrospetiva do seu cinema. É cinema de autor.

Essa ideia feita de que Robert Zemeckis é um tarefeiro ou um explorador dos novos feitos e efeitos digitais nunca colou. A excelência e elegância de um objeto como este Aliados é a prova viva de toda a sua versatilidade. Um cineasta empurrado por Steven Spielberg no começo da carreira e que quis sempre fazer um cinema de género(s), sem preconceito e com conceito.

Mas o travo clássico é talvez o pendor mais recorrente da sua obra. Um classicismo que nunca abdica de contar histórias, seja de que maneira for. Mas é também um artista consciente do lugar humano e de toda a sua imprevisibilidade. Em 2012 espantou o mundo com a acutilância dramática de Decisão de Risco, com um Denzel Washington nomeado ao Óscar. Logo a seguir, outro retrato da condição humana, The Walk- O Desafio, estreado o ano passado, neste caso centrado na proeza "artística" de um provocador, Philippe Petit. Aí, mais do que nunca, cruzava as suas duas paixões: a inovação tecnológica (os efeitos visuais tinham aquela sensação do "nunca antes visto") e a arte do melodrama.

Para além da sua trilogia de CG (animação e efeitos computorizados) composta por Polar Express (2004), Beowulf (2007) e Um Conto de Natal (2009) -todos eles com atores em técnica de motion capture- , o passado de Zemeckis sempre foi pontuado por uma polivalência de registos. Do drama surreal de Forrest Gump (1994) ao humor arriscado de A Morte Fica-vos tão Bem (1992), passando pelo fantástico puro e duro na trilogia Regresso ao Futuro, onde se percebia uma celebração também clássica de uma nova forma de entretenimento, vincada com chave de ouro e homenagem aos grandes mestres de animação em Quem Tramou Roger Rabbit? (1988).

Depois, há ainda o Zemeckis cinéfilo, capaz de atualizar a herança de Alfred Hicthcock em A Verdade Escondida, thriller com Harrison Ford e Michelle Pfeiffer. O Zemeckis conceptual, com o belo Castway- O Náufrago, onde acreditava que bastava Tom Hanks, uma ilha deserta e uma bola de vólei para compor um épico.

Está na hora de um grande festival internacional apostar numa retrospetiva do seu cinema. É cinema de autor.

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