Revolta no comité que decide pode surpreender mais quanto à escolha

Já poucos acreditavam na pureza da Academia Sueca na atribuição do mais importante galardão literário e a edição de 2016 dá a machadada final na credibilidade que restava. Ou o vencedor é superior ao Nobel ou é o caos

Adivinhar o nome do escritor a eleger como Prémio Nobel da Literatura amanhã é mais fácil do que prever a vitória entre Trump ou Hillary. Esta afirmação pode parecer obtusa no contexto da shortlist dos candidatos ao Nobel mas também tem a ver com a sua escolha, pois se os escritores dos Estados Unidos têm estado arredados do anúncio há demasiados anos, dificilmente será num ano em que há eleições polémicas naquele país que os membros do júri da Academia Sueca iriam escolher um autor norte--americano como vencedor. Ou seja, Philip Roth pode continuar a viver a sua reforma revelada aos quatro ventos que isso pouco deve importar ao júri. No entanto, o mesmo não se pode dizer de Don DeLillo.

Já no caso de uma outra situação polémica, a da guerra na Síria, será que o poeta Adonis, nascido naquele país, pode ser prejudicado ou beneficiado pelo ambiente de guerra fria que existe atualmente no mundo? Adonis não fala sobre esse grande prémio, recusou-se a tocar no assunto na entrevista que deu ao DN há três anos. Tal como Amos Oz o fizera há seis meses, Ian McEwan há três e Salman Rushdie há duas semanas. Abrir a boca sobre o Prémio Nobel é uma situação que os potenciais candidatos não fazem, quanto mais não seja para evitar colocar-se a jeito perante um não da Academia Sueca. Que é o caso de António Lobo Antunes, que neste momento está a ter a sua obra publicada em duas editoras na Suécia e não pronuncia uma palavra sobre a sua eterna candidatura.

A 24 horas do anúncio, a maior questão que rodeia o Nobel da Literatura nem é a de quem é o grande escritor que merece ser coroado com um milhão de coroas suecas, mas sim se a nova secretária permanente, Sara Danius, decidiu alterar as regras do jogo tradicional em que os respeitáveis membros do júri se reviam tão bem e criou um conflito dentro da Academia sobre os méritos que levam os dezoito membros a optar por um ou outro autor. E essa realidade transpareceu para fora ao ver-se impossibilitada de revelar esse nome na semana passada devido a uma guerra interna, diz-se, a decorrer entre o júri contrariado por obedecer à moda dos tempos contemporâneos e serem obrigados a apontar um nome relacionado com causas em vez do valor da obra. E logo eles que estavam tão satisfeitos a decidir em torno de autores obscuros, como Herta Müller, Alice Munro ou Patrick Modiano, nas últimas edições, ou até a repescar velhas glórias, como Mario Vargas Llosa, em detrimento dos valores literários que não deveriam ser ignorados por um prémio desta dimensão, como foram Proust ou Tolstói, por exemplo.

Quem será eleito amanhã pela Academia Sueca é a grande pergunta que fazem os candidatos possíveis que hoje terão insónias enquanto esperam por um telefonema desde Estocolmo a revelar que foram escolhidos e que devem manter um silêncio sagrado até ao meio-dia e um minuto. Esse nome costuma estar praticamente escolhido desde o final de maio, realizando-se em setembro as últimas quatro reuniões que determinam o único autor a ser agraciado em vida com a glória de ser Nobel. Encontros que neste ano não aconteceram como previsto e empurraram o anúncio para uma semana depois, o que não incomoda ninguém, pois coincide com a Feira do Livro de Frankfurt. Esse é o grande momento onde a festa tem um primeiro epicentro, enquanto o autor não dá a sua conferência de imprensa obrigatória.

Ninguém em sã consciência pode avançar um nome, pois basta olhar para a lista recente dos Nobel da Literatura para confirmar que o vencedor é decidido por critérios demasiado estranhos à perceção dos especialistas. A única pista só surge quando um dos membros do júri solta uma deixa que vai parar às grandes agências de apostas inglesas e esta acerta no autor. Foi isso que aconteceu no ano passado com a senhora Svetlana Alexievich, uma não escritora que caiu no mar dos verdadeiros autores.

Tendo em conta essas fugas, as previsões que podem ser feitas apontam para o poeta Adonis como vencedor. Merecido. Ou o queniano Ngugi Wa Thiong"o, o sul-coreano Ko Un e o norueguês Jon Fosse. Aceitáveis. A partir daí, o vaivém destas apostas tem trazido ao de cima tanto eternos candidatos como Joyce Carol Oates e Philip Roth; os fósseis da literatura Ismail Kadaré e Milan Kundera, bem como ilustres desconhecidos, o caso do argentino César Aira. E muitos com presença habitual, como os israelitas Amos Oz e A.B. Yehoshua, ou Claudio Magris e Thomas Pynchon. E até o japonês Haruki Murakami.

Nos últimos dias, no entanto, houve surpresas nos desígnios dos apostadores. E o espanhol Javier Marías chegou até ao quinto lugar das preferências, mantendo-se ontem em nono lugar, enquanto António Lobo Antunes subira dias antes, em 24 horas, dez lugares. Mas Kadaré, Amos Oz e Jon Fosse não deixam de estar entre os mais votados. É claro que, para a língua portuguesa, a escolha com mais potencial e merecedora seria a de António Lobo Antunes, considerado nas análises dos especialistas de literatura norte-americanos como o "maior autor vivo" desse espaço linguístico. É o único português presente nessa grande shortlist que se imagina existir na Academia Sueca, e na qual só o moçambicano Mia Couto entrou há dois anos. Dessa vez em 150.º lugar, mas neste ano muito mais bem colocado: em 53.º. Esperemos mais 24 horas e logo se saberá o Nobel da Literatura de 2016.

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