Reencontrando as memórias felizes de Marilyn Monroe

Os canais TVCine vão exibir quatro títulos emblemáticos de Marilyn Monroe - são memórias de um tempo feliz do espectáculo e de Hollywood. Oportunidade para voltar às história da diva maior, que morreu há 55 anos

Habituados que estamos às datas "redondas", não nos apercebemos que no dia 5 de agosto se completaram 55 anos sobre a data da morte de Marilyn Monroe. É verdade que a proliferação de efemérides nem sempre nos permite conhecer melhor o passado que nos assombra. No caso de Marilyn, podemos mesmo dizer que a sua condição de ícone universal há muito a libertou da dependência de datas e celebrações. Daí que o regresso de quatro dos seus filmes - a partir do dia 10, nos canais TVCine - possa envolver um misto de reconhecimento e surpresa.

São quatro títulos originalmente lançados no espaço de pouco mais de dois anos: Niagara (primeira exibição: dia 10) e Os Homens Preferem as Louras (dia 31) são estreias de 1953; Rio sem Regresso (dia 17) é de 1954 e O Pecado Mora ao Lado (dia 24) surgiu em 1955. Antes, Marilyn apenas tinha interpretado papéis secundários, como em Eva (1950), de Joseph L. Mankiewicz, ou A Culpa Foi do Macaco (1952), de Howard Hawks; depois, entre os momentos mais emblemáticos da sua carreira, podemos destacar Paragem de Autocarro (1956), de Joshua Logan, e Quanto Mais Quente Melhor (1959), de Billy Wilder, desembocando nesse filme simbolicamente terminal que é Os Inadaptados (1961), de John Huston.

Para muitos espectadores, a surpresa estará, por certo, no filme assinado por Otto Preminger: Rio sem Regresso é, de facto, um "western", género estranho tanto na filmografia do realizador como da atriz. Rezam as crónicas da época que Preminger terá assumido a tarefa apenas por obrigações contratuais com a 20th Century Fox; era, aliás, reconhecido como um dos mais sofisticados especialistas nos cruzamentos do melodrama com o "noir", tendo já assinado clássicos como Laura (1944) e Turbilhão (1949), ambos com Gene Tierney.

Não admira que Rio Sem Regresso seja bem diferente dos "westerns" produzidos na época, com destaque para Vera Cruz, de Robert Aldrich, o grande sucesso do género nesse ano de 1954. Pouco empenhado em coreografar as chamadas cenas de ação, Preminger deslocou o peso dramático do filme para os dilemas morais da personagem de Robert Mitchum, confrontado com a necessidade de explicar ao seu filho em que condições tinha morto um homem. Não sendo secundarizada, Marilyn surge, em todo o caso, como uma espécie de espelho emocional de Mitchum naquela que é uma das suas composições mais contidas e subtis.

Rio sem Regresso foi também um objeto pioneiro de um fenómeno técnico - a generalização do CinemaScope - que, na altura, funcionou como um fundamental fator comercial. Tentando contrariar o facto de os espectadores consumirem cada vez mais televisão, Hollywood apostava no formato "largo" de modo a oferecer uma grandiosidade com que, obviamente, os ecrãs caseiros não podiam competir. Os filmes em CinemaScope tinham começado a aparecer nas salas no ano anterior e, curiosamente, Marilyn participara num deles: Como se Conquista um Milionário, de Jean Negulesco, com Lauren Bacall e Betty Grable.

Os outros títulos a exibir nos TVCine constituem uma trilogia que resume e consagra a transformação de Norma Jean Mortenson, "pin-up" de Hollywood, em Marilyn Monroe, estrela capaz de transcender o próprio modelo de "loura fatal" que herdou de Jean Harlow (1911-1937) ou Lana Turner (1921-1995).

Howard Hawks, perverso retratista das convenções narrativas de Hollywood, soube como poucos exponenciar essa vocação de Marilyn, em particular contrapondo-lhe a morena Jane Russell em Os Homens Preferem as Louras, não exatamente uma comédia erótica, antes uma comédia capaz de brincar com as próprias regras de definição do erotismo e, em particular, das fronteiras entre masculino e feminino. A lendária fotografia de Marilyn num exuberante vestido dourado, com o decote em "V", pertence à campanha publicitária do filme, tendo ficado como uma das suas imagens mais universais.

Dir-se-ia que Marilyn foi um grãozinho na engrenagem dos melodramas conjugais típicos da idade de ouro de Hollywood. Sob a direção de Billy Wilder, O Pecado Mora ao Lado, centra-se, aliás, na convivência de Marilyn e um homem casado (Tom Ewell) que ficou em Nova Iorque enquanto a mulher e o filho foram para férias - a cena em que o vestido branco de Marilyn se agita com o ar que sopra das entranhas do metropolitano gerou outra das suas imagens mais conhecidas (em particular através das fotografias daquele que foi um dos seus amigos mais próximos, Sam Shaw).

Enfim, Niagara, de Henry Hathaway, constitui uma espécie de dicionário básico de Marilyn. A radiosa exuberância do "technicolor", intensificando o louro do cabelo e o vermelho dos lábios (e do célebre vestido em que interpreta a canção Kiss), corresponde a um momento em que Hollywood e o esplendor do espetáculo se confundiam numa só mitologia. Sabemos que nem tudo aconteceu assim, mas isso não é razão para abdicarmos das memórias mais felizes.

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