Ramiro, uma comédia lisboeta, com certeza!

Momento feliz do cinema português com o regresso de Manuel Mozos à ficção. "Ramiro" é uma comédia lisboeta sem bloqueios.

Pomo-nos a jeito. Ficarmos ao lado de uma personagem rabugenta, porta--estandarte de uma Lisboa onde ainda era possível encontrar tascas e pedir minis. Este Ramiro, alfarrabista trintão, está a ficar cada vez mais rezingão. Os dias passam e nem o cão e nem os amigos do bairro são capazes de lhe matar uma frustração que não passa. A dada altura, alguém entra de repente na sua vida e a tal pirueta concretiza-se. O nosso Ramiro vai aprender que é preciso olharmos para o mundo, vermos melhor a vida dos vizinhos e respirarmos, de preferência, bem fundo. A poesia está ali ao lado...

O novo filme de Manuel Mozos, cineasta maior do cinema português contemporâneo, é o seu filme mais off. Uma "comédia delicada" que é sobretudo uma adoção de humor subtil, não sendo por acaso que o argumento venha das canetas de Mariana Ricardo e Telmo Churro, habituais argumentistas de Miguel Gomes.

Mas a proeza maior deste Ramiro é nunca resvalar para outros tipos de cinema. Melhor, sente-se que há uma fortíssima ressonância autobiográfica, mesmo quando não se desvia num centímetro do conceito de estudo de personagem, neste caso uma grande personagem, Ramiro, símbolo de um urbano-depressivo que era tão fácil encontrar na Lisboa antes da Lisboa dos turistas (lá bem pelo meio, outro dos temas aqui é a Lisboa que se vai...). Mas, para além da "fofura" do conto do urbano-depressivo, Ramiro vale também pelo rosto magoado de António Mortágua, ator-revelação que prova que o cinema português pode confiar de braços abertos no teatro português.

O Sr. Ramiro é um poeta que vê a vida dos outros. Nós olhamos para ele com olhos de cinema e saímos encantados. Ajuda também tudo isto ser ao som da música de Bruno Pernardas.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG