Quem se tatuava em Lisboa há 100 anos e porquê?

Exposição patente no palácio Pombal, na Rua do Século, Lisboa, reúne 60 peças de pele humana, recolhidas em autópsias

Há mais de 100 anos, em Lisboa, os homens tatuavam-se por uma questão de estatuto, ócio e imitação, e as mulheres faziam-no para agradarem aos amantes, concluíram investigadores tendo por base um acervo exposto a partir de hoje.

"Os homens [tatuavam-se] porque conferia estatuto no meio em que se movimentavam, por ócio (nas prisões era uma maneira de se ocuparem) e por imitação. As mulheres [faziam-no] para agradar aos homens", contou Carlos Branco, investigador do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF) de Lisboa, um dos curadores da exposição "O mais profundo é a pele", numa visita de imprensa à mostra que é hoje inaugurada.

O espólio de "O mais profundo é a pele", patente no Palácio Pombal, Lisboa, no âmbito da programação "MUDE [Museu do Design e da Moda] fora de portas", pertence em larga maioria ao INMLCF de Lisboa e inclui pele tatuada, fotografias, desenhos e livros de registos que permitem saber quem, nos finais do século XIX e início do século XX, se tatuava, em que partes do corpo, que motivos preferia, onde eram feitas as tatuagens e, em alguns casos, quanto custavam.

Nessa altura, o "tatuado estereotipado português" era "criminoso, movia-se nos bairros típicos da cidade (Bairro Alto, Alfama, Mouraria e Castelo), frequentava casas de fado, envolvia-se com prostitutas e era frequentemente preso".

As tatuagens eram feitas "na prisão" ou "em moradas que se repetem nos registos". "Havia quase uns 'proto-estúdios' de tatuagens", referiu o investigador.

Os motivos eram variados. Nos pedaços de pele tatuadas expostos há desde o símbolo do Sport Lisboa e Benfica a corações, corpos de mulheres nuas, flores, iniciais ou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Na mostra, as tatuagens religiosas, em pele e numa fotografia tirada em 1935, foram colocadas na capela do Palácio Pombal.

As 60 peças de pele humana expostas, recolhidas em autópsias, e que compõem praticamente todo o espólio do INMLCF de Lisboa, foram restauradas por Carlos Branco.

A ideia de montar "O mais profundo é a pele" partiu deste investigador, que, com Catarina Pombo Nabais, do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, a outra curadora da mostra, lançou o desafio ao MUDE, adiantou a diretora do Museu, Bárbara Coutinho.

A responsável aceitou prontamente o desafio por "tratar-se de um acervo que tem singularidade e riqueza, pertence a um instituto público e é pouco conhecido".

"O acervo permite olhar para a tatuagem de diferentes perspetivas, permite que se retire o olhar sobre o design de uma perspetiva mais clássica e permite também fazer um retrato sociocultural da Lisboa de final do século XIX e início do século XX", referi hoje durante a visita para a imprensa.

A exposição inclui também um núcleo dedicado ao fado, com uma reprodução do estudo de 1909 do quadro "O Fado" de José Malhoa, no qual são visíveis as tatuagens da meretriz Adelaide da Facada. Na obra final, os desenhos não são visíveis, já que foram apagados por ordem do rei Manuel II, "que considerava as tatuagens de extremo mau gosto e imorais".

Ao acervo do INMLCF de Lisboa e de algumas peças do Estabelecimento Prisional de Lisboa, o MUDE decidiu juntar trabalhos de artistas contemporâneos, tendo convidado "cinco artistas da tatuagem [Francisco Charrua (Atomic Tattoo Studio), Hugo Makarov, Ana Silvestre, Cristiano Fernandez e Tânia Catclaw] a reinventar motivos que lhes sugerissem maior interesse", um vestido do 'designer' de moda Jean Paul Gaultier e uma peça de joalharia ligada à medicina de Olga Noronha, "uma prótese onde a tatuagem é feita sobre a prótese".

"O mais profundo é a pele" fica patente até 25 de julho.

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