Prince morreu mas continua um génio sem fronteiras

39 álbuns, mais de 100 milhões de discos vendidos, e uma obra ímpar na história da música. Prince morreu ontem em Paisley Park

Pode, por um lado, ser uma frase-chavão, mas a verdade é que a música como hoje a conhecemos seria completamente diferente se não tivesse impregnada na sua história uma obra como a de Prince, um "enigma", como escreveu há dois anos o jornalista Rui Miguel Abreu, um enigma hiperativo que reinventou as conceções da música pop moderna, que questionou normas raciais, de género, de sexualidade e que até à data da sua morte se manteve sempre diferente de todos os outros, com todas as mais-valias e dissabores que essa afirmação de um caráter único acarreta. Prince morreu ontem, aos 57 anos, com 39 álbuns de estúdio em carteira, deixando um marco ímpar na história da música.

As causas da morte do músico norte-americano ainda estão por confirmar, e a polícia está a investigar o caso. Mas sabe-se que no dia 15 de abril tinha sido internado de urgência devido a um caso grave de gripe. O avião privado no qual seguia teve de fazer uma aterragem de emergência para lhe serem prestados cuidados médicos. O músico acabou por ter alta hospitalar e um dia depois voltou aos palcos, mas, nos últimos dias, cancelou os concertos que tinha agendado. Todavia, nada apontava para um desfecho desta natureza, tendo a sua morte sido confirmada ontem ao final da tarde pelo seu agente à Associated Press, depois do site TMZ, o primeiro a dar a notícia da morte de Michael Jackson, ter começado por avançar que a polícia tinha sido chamada a casa do músico, Paisley Park, em Minnesota, para investigar uma morte. Nem meia-hora depois chegava a confirmação que ninguém queria ter: Prince morrera.

Concerto surpresa

A última vez que Prince passou por Portugal foi em agosto de 2013, para um concerto no Coliseu de Lisboa, marcado de surpresa, o que gerou enorme mediatismo à sua volta e, claro, quando subiu ao palco foi recebido com casa cheia.

Este cenário repetia-se por onde passava, mesmo que há muito não lançasse um êxito ao nível daqueles que o tornaram num nome maior nos anos 1980 e que a partir de agora serão recordados e partilhados por milhares de admiradores em todo o mundo - Purple Rain, Kiss, Little Red Corvette, When Doves Cry, entre outros.

No entanto, Prince nunca cedeu à estratégia da nostalgia, fugiu sempre de viver na sombra dos louros do passado, o que se refletia nos seus espetáculos e na sua extrema hiperatividade: desde a sua estreia em 1978 que lançou 39 álbuns de estúdio, dois deles editados só no ano passado, mesmo que nos últimos anos cada disco seu já não fosse recebido com a mesma azáfama de outros tempos.

Perfeccionista e determinado

Prince Rogers Nelson tinha apenas 19 anos quando lançou o primeiro álbum, For You, tendo sozinho composto, produzido e tocado todos os instrumentos que ali se ouvem - 27, para sermos precisos. Só este facto espelha bem não só o seu perfeccionismo e necessidade de controlo absoluto sobre a sua obra, mas também a determinação que caracterizou todo o seu percurso, mesmo quando seguiu contra a corrente.

Determinação que nos últimos anos o levou a uma luta contra a internet, que o próprio declarou como "morta", em 2010 (apesar de em 1998 ter sido um pioneiro ao disponibilizar para pré-venda no seu site o triplo Crystall Ball), retirando a sua discografia das plataformas de streaming, do YouTube, processando fãs que partilhavam as suas músicas na internet, mesmo que no ano passado tenha editado, exclusivamente no serviço de streaming Tidal, os seus dois últimos álbuns: HITnRUN Phase One e HITnRUN Phase Two.

Teve a mesma determinação quando nos anos 1990 iniciou uma longa batalha legal contra a sua editora de então, a Warner, com o intuito de proteger ao máximo a sua liberdade criativa, comparando a indústria discográfica à escravatura, na mesma altura em que abandonou a designação Prince e adotou como nome um símbolo impronunciável. Em 2000 voltaria a ser Prince.

O sucesso global e a política

Se entre esse primeiro disco que lançou aos 19 anos e Controversy, álbum de 1981, Prince foi afirmando a sua personalidade musical, foi a partir de 1999, o seu quinto álbum, lançado em 1982, que ganhou uma dimensão global e transversal. Esse disco dá inicio também um período de criatividade única, lançando até 1987 um conjunto de cinco álbuns que são responsáveis pela reinvenção do r&b e da música pop moderna, refletindo um caráter inovador e arrojado que ainda hoje surpreende.

Não é por isso de admirar que, depois de noticiada a sua morte, um grupo de artistas que vai de Justin Timberlake aos Duran Duran, passando por Madonna, Cat Power ou Missy Elliott, entre tantos outros, tenham prestado a sua homenagem ao músico. Todos eles foram influenciados por Prince.

Foi em 1984 que lançou o álbum que lhe deu mais popularidade: Purple Rain. Disco que é também banda sonora do mesmo filme, protagonizado pelo próprio. Acabou premiado com o Óscar de Melhor Banda Sonora e assim se torna numa estrela planetária. A relação com o cinema não se ficou por aqui, tendo dois anos depois lançado Parade, álbum que é também banda sonora de Under the Cherry Moon, filme que foi realizado e protagonizado pelo próprio.

Foi por esta altura que criou também o complexo de estúdios de Paisley Park, onde ontem foi encontrado morto, mas também uma editora (desmantelada em 1994) e residência do músico. Uma autêntica meca onde trabalhou e gravou ininterruptamente, acolhendo artistas como Sheila E., The Time ou Tevin Campbell, desenvolvendo o que se veio a designar como o "som de Minneapolis".

O músico terá gasto milhares de dólares nesse complexo, sem grande retorno, o que certamente contribuiu para que em 1992 tenha renovado com a Warner um contrato - que lhe valeu 100 milhões de dólares - que pouco depois veio a quebrar.

Foi em Paisley Park que gravou Sign o" the Times (1987), duplo álbum, que o músico queria que fosse triplo, provavelmente a obra mais influente que nos deixou. Um álbum que reflete também o seu lado político, abordando com sagacidade a pobreza, a dependência de drogas e a violência. A política sempre fez parte da sua obra. Basta recordar uma canção como Ronnie, Talk To Russia, sobre a Guerra Fria, ou Darling Nikki, tema que ao falar sobre masturbação levou Tipper Gore, mulher do então senador Al Gore, a fundar o Parents Music Resource Center que criaram os alertas "Parental Advisory", que aparecem nos discos cujo conteúdo, segundo a associação, é impróprio. Já no seu último disco incluiu o tema Baltimore, um protesto contra a violência policial nos EUA.

A partir de meados dos anos 1990 o seu percurso torna-se mais errático, lançando discos atrás de discos, alguns inteiramente instrumentais, sendo que apenas Musicology, de 2004, e 3121, de 2006, se destacaram dos demais a nível mediático. Tornou-se ainda testemunha de Jeová em 2001.

Relação próxima com Portugal

De lembrar que Prince teve também uma relação próxima com Portugal. Estreou-se por cá no antigo Estádio de Alvalade, em 1993, regressando cinco anos depois ao então Pavilhão Atlântico. Nova atuação em Lisboa só em 2010, ao Super Bock Super Rock, concerto que contou com a participação de Ana Moura, de quem era amigo (na foto, em cima).

Há cinco anos a fadista afirmou mesmo ao DN: "Ele é uma pessoa muito interior, hipersensível. Tudo aquilo que seja interior e verdadeiro, que é aquilo que estes grandes músicos - na minha opinião - cada vez mais procuram. Porque hoje em dia a música está cheia de fast food, e portanto estes músicos por aquilo que eu tenho tido oportunidade de vir a comprovar procuram cada vez mais a honestidade. Acho que é isso que ele sente nesta música [fado]."

Ontem, a fadista, que se encontra nos Estados Unidos para uma série de concertos, não esteve disponível para falar. Na sua página do facebook publicou um quadrado negro, sem qualquer comentário.

Em novembro de 2015, em entrevista à Notícias Magazine, Ana Moura falou sobre a sua experiência em Paisley Park. "Ele é uma pessoa muito dedicada à música, workaholic. Ele vive no estúdio dele. Exatamente. Todos os dias há música no estúdio dele. Eu já fui passar, várias vezes, alguns dias ao estúdio dele e, então, aquilo é: acorda-se - os quartos são em cima -, as pessoas descem... Mas tem vários estúdios com várias pessoas a fazer várias coisas em vários estúdios. E depois há sempre a banda dele no palco principal, que é na sala de espetáculos - porque ele também tem uma sala de espetáculos dentro do estúdio [risos], onde ele dá espetáculos e isso, lá em Minneapolis -, e eles estão sempre lá, a banda dele está sempre lá a ensaiar..."

Sabe-se que Prince se encontrava a escrever a sua biografia, The Beautiful Ones, que seria publicado no outono de 2017. Deixou-nos assim um músico a quem a denominação de "génio" era mais que justa.

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