Primavera arranca em tons cinzentos, mas com bom som

Os norte-americanos Deerhunter provocaram a primeira grande enchente do Prima-vera Sound, ontem no Porto, num fim de tarde marcado por nuvens, vento e alguma chuva.

Quando as portas se abriram, a meio da tarde, o Sol ainda brilhava, aquecendo os corpos que começavam a engrossar as filas à entrada do Parque da Cidade, no Porto. Num ritual que se repete ano após ano, desde 2012, uma cacofonia de linguajares e de personagens mais ou menos exóticos acotovelava-se ordeiramente para ingressar no recinto. A esta hora, as nuvens do lado do oceano não mais eram que um mero adereço para uma foto no Instagram ou no Facebook, tal como os bigodes dos rapazes ou as flores na cabeça das raparigas, duas das imagens de marca do festival mais estético do calendário nacional.

Mas às cinco em ponto, quando os portugueses Sensible Soccers abriram as hostilidades musicais no Palco Super Bock, um dos dois em funcionamento neste primeiro dia do NOS Primavera Sound, já o ambiente no recinto era mais outonal ou até mesmo invernoso, com muito vento, frio e até alguma chuva. À memória dos mais veteranos veio por momentos a recordação da primeira edição, marcada por um verdadeiro dilúvio, que não passaria disso mesmo, apesar da permanente ameaça das nuvens.

Um mero apontamento, porém, nas conversas, entre o reencontro de velhos amigos, tal como as mudanças no recinto, como a passagem do palco Pitchfork para a entrada do recinto. Para o seu lugar passou o Mercado Primavera, onde neste ano nem sequer falta uma barbearia, para cuidar dos bigodes e das barbas tão em voga, alterando o roteiro habitual de deambulação entre palcos, que ontem se resumiu entre o Super Bock e o Primavera, onde em seguida atuaram as US Girls. A pop lânguida da dupla norte-americana, com laivos de Cindy Lauper, provocou a primeira grande migração do dia, mas mais por mero atavismo, pois tudo continuava ainda a meio gás, por entre muitos copos e conversas, muitas delas versando exatamente sobre os copos ecológicos, uma das novidades deste ano - paga-se uma caução de 2 euros (devolvido ao final da noite) e mantém-se o mesmo ao longo da noite, evitando deste modo o desperdício e o acumular de lixo plástico.

Seguiram-se, novamente no palco Super Bock, os Wild Nothing e então o festival começou finalmente a tomar forma disso mesmo. O projeto liderado pelo norte-americano Jack Tatum, com a sua pop de inspiração britânica, foi a banda sonora perfeita para o fim de tarde cinzento que tomou conta do Parque da Cidade, onde nem faltaram umas gotas de chuva a fazer lembrar o imaginário da Inglaterra dos anos 1980, enquanto no céu as gaivotas, a abrigarem-se da anunciada tempestade no mar, quase chocavam com os drones a sobrevoar o recinto, por esta altura já muito mais composto.

E, momento depois, foi já uma verdadeira multidão a receber os também norte-americanos Deerhunter em frente ao palco principal, naquele que foi o primeiro grande concerto desta quinta edição do Primavera Sound. Aquele que finalmente fez acabar as conversas laterais sobre tudo o resto e até teve o condão de afastar as nuvens, enquanto o Sol se punha, trazendo de volta a primavera ao Parque da Cidade. E abrindo o caminho para as atuações mais espe- radas desta primeira noite, Sigur Rós e Animal Collective.

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