Prémio Pritzker para Aravena, o chileno radical da habitação para todos

Projetou 2500 casas construindo metade destas e deixando o restante para quem as viesse a habitar. Tem 48 anos

"Os prémios Pritzker funcionam sempre um pouco assim. São radicais no sentido de estar sempre a chamar a atenção para o que é fundamental na arquitetura", explica o arquiteto João Luís Carrilho da Graça. Tão "fundamental" como a necessidade de construir um edifício que sirva de abrigo, de casa, a um homem. É isso que faz o chileno Alejandro Aravena, ontem anunciado como o 41.º galardoado com o Prémio Pritzker, considerado o Nobel da Arquitetura.

Tem 48 anos, é jovem para a média de idades do Pritzker - na maioria dos casos tido como uma distinção de carreira - o arquiteto que, em 2004, se deparou com a necessidade de alojar cem famílias. Estas ocupavam ilegalmente terrenos no centro de Iquique (Norte do Chile) e o subsídio do governo era insuficiente para comprar terreno ou construir novas casas.

Foi então que surgiu aquilo que seria a assinatura arquitetónica de Aravena e da equipa com que trabalha no seu ateliê, Elemental, em Santiago do Chile. Construir metade de cada casa. Todas teriam uma cozinha, uma casa de banho e um terraço. O resto ficaria a cargo da família que viesse a habitar a casa.

2500 "meias casas"

Foi assim que alojou aquelas cem famílias, que de outro modo teriam de deixar os seus empregos, escolas e famílias. Foi assim que, em 2010, quando o terramoto seguido de um tsunami atingiu o Chile, voltou a atuar. O governo deu cem dias para que o ateliê Elemental definisse um plano. Eles organizaram uma espécie de assembleia em Constitución, comuna chilena, e definiram um plano. Principiariam depois a construção de habitações para os desalojados.

De 2004 até hoje, o modelo arquitetónico de Aravena já erigiu 2500 casas, entre o seu país e o México. O júri do Prémio Pritzker, representado por Tom Pritzker - filho de Jay, que em 1979 fundou o prémio -, afirmou que o trabalho do galardoado chileno, que segue Frei Otto (2015) e Shigeru Ban (2014), "dá oportunidade económica aos menos privilegiados, mitiga os efeitos dos desastres naturais, reduz o consumo energético e oferece espaços públicos convidativos. Mostra como a arquitetura, no expoente, pode melhorar a vida das pessoas".

"Este é um prémio muito associado a uma obra mas também a uma devoção a um problema. Acho que isso dá outra dimensão ao próprio prémio", nota ao DN João Santa-Rita, presidente da Ordem dos Arquitetos. "Apesar de termos problemas de excesso de habitação nalguns casos, temos ainda necessidade de alojar pessoas."

E é em torno do problema para que a atribuição do mais recente Pritzker volta a apontar, o da habitação, que o arquiteto português denota na obra de Aravena "uma margem para quem chega sentir que constrói parte daquilo que vai habitar. Permite o afeto que se pode criar através de quem constrói a sua própria casa".

Problemas não arquitetónicos

"O que é que é mais difícil? As pessoas fazerem uma cozinha, equipá-la, pôr as canalizações, uma casa de banho, ou montarem uma parede com tijolos e tapar com uma chapa metálica? Isso está ao alcance de todos", refere o arquiteto Manuel Graça Dias, dando conta da sua simpatia por aquele que é o primeiro Pritzker chileno e o quarto da América do Sul, depois de Luis Barragán, Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha. A visão daquele que é habitualmente definido como um radical da habitação para todos por baixos custos pode compreender-se nas palavras do próprio: "Um dos grandes erros que os arquitetos cometem é que tendem a lidar com problemas que só interessam a outros arquitetos. O maior desafio é envolvermo-nos com assuntos importantes não arquitetónicos - pobreza, poluição, congestionamento, segregação." Além das obras que conta no campo da habitação social, Aravena começou por projetar, em 1998, o edifício da Faculdade de Matemática da Universidade Católica de Santiago do Chile, como faria depois com o Centro de Inovação. O seu ateliê, Elemental, ocupa-se atualmente da nova sede da farmacêutica Novartis, em Xangai. É com projetos como esse que ajudam a financiar aqueles que contêm um cariz fortemente social e humanitário. Atual diretor da Bienal de Arquitetura de Veneza, neste ano subordinada ao tema "Reporting from the front", Aravena afirmou ao Guardian: "Teremos de albergar uma nova cidade de um milhão de pessoas por semana nos próximos 15 anos, usando recursos de dez mil dólares por família."

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