Prémio Novo Banco Photo com os olhos postos em África

Mónica de Mirada, Félix Mula e Pauliana Pimentel são os três finalistas que se apresentam no Museu Berardo.

Chamam-lhes "olhos de boi". São sementes pequenas, vermelhas e pretas. Félix Mula trouxe algumas dos seus passeios pelo campo, em Moçambique, quando lá estava a trabalhar. Depois, a tia continuou a mandar-lhe mais. De tal forma que achou que faria sentido trazer estes "olhos de boi" para a sua exposição. "Porque são lindas e porque estão relacionadas com este projeto, fazem parte dele", explica o fotógrafo. As sementes estão numa pequena prateleira que acompanha grande parte do projeto Idas e Voltas que integra a exposição do prémio Novo Banco Photo.

Félix Mula (Moçambique) é um dos três finalistas da edição deste ano do prémio, ao lado de Mónica de Miranda (Angola e Portugal) e Pauliana Valente (Portugal). A exposição pode ser visitada a partir de amanhã no Museu Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. O vencedor será anunciado em junho e as fotografias ficam expostas até 2 de outubro.

Idas e Voltas é um título que diz muito sobre este projeto de Félix Mula. Nascido em 1979, Félix começou a interessar-se pela fotografia ainda miúdo, por influência do pai que trabalhava na Foto Lee, uma loja de fotografia de Maputo. Parte dessa história é contada nesta exposição: o senhor Lee, chinês, morou com a família em Moçambique até 1976, tendo-se depois mudado para Portugal. A loja passou a chamar-se Foto África. O artista recupera uma carta de 1982, da família Lee para a família de Félix, assim como algumas das fotografias de ambas as famílias.

A ideia de "idas e voltas", do que se deixa para trás e do que se vê quando se volta aos sítios que conhecemos muito tempo antes, o abandono - tudo isto está também presente na outra parte do projeto de Félix Mula, desenvolvido entre Moçambique, Portugal e a Ilha Reunião, onde ele morou durante quatro anos. São imagens de locais abandonados, edifícios em ruínas, carros que ficaram estacionados na berma da estrada e foram engolidos pela vegetação, tal como aconteceu aos parques infantis ou aos muros. Lojas (as cantinas) que fecharam. Félix fotografou-as e quis saber as histórias daqueles locais, fez perguntas, anotou nomes, mas, no final, descobriu mais ficções do que verdades. "Fotografar é uma forma que eu arranjo de me contar histórias", diz ele.

À procura de histórias e de memórias, em idas e voltas, também andou Mónica de Miranda. O seu projeto, Field Work, foi desenvolvido em Cabo Verde, sobretudo entre a Praia (na ilha de Santiago) e o Mindelo (em São Vicente). Mas em vez de se focar no que ficou para trás, no que resta do passado, esta artista prefere ocupar-se daquilo que fica, do que muda, do que se adapta, do que chega até nós, apesar da distância (temporal e espacial). Como um arquivo vivo.

A pesquisa de Mónica de Miranda começa pela procura de uma genealogia familiar: no Mindelo conheceu famílias, ouviu as suas histórias e vasculhou os seus álbuns fotográficos, e aqui estão essas imagens antigas, a preto e branco. Neste projeto, as memórias pessoais cruzam-se com a memória oficial, na visita aos arquivos (em Lisboa e em Cabo Verde), e com um olhar em volta para os espaços. Neste caso, a artista põe de lado o olhar documental e procura ter um olhar diferenciado, criando, com as suas fotografias fragmentadas e nas quais junta diferentes pontos de vista, um lugar ficcionado, encenado e coreografado, que contrasta com as imagens antigas. O que vemos (o que vivemos) pode, afinal, não ter correspondência na "verdade oficial" que está guardada nos arquivos.

"O que é ser de África?", pergunta-se a fotógrafa nascida no Porto em 1976. "Há uma África na Europa mas também há uma Europa na África." Essa ideia de diáspora está ainda presente na botânica - não só através das imagens mas também no pequeno jardim ali instalado, construído só com plantas tropicais mas que nasceram e cresceram em solo português, num exotismo inventado (ou, como as plantas, tal como as pessoas, podem ser de sítios diversos). "Definir a identidade como algo fixo é perigoso."

Foi por pouco que Mónica Miranda não se cruzou em Cabo Verde com Pauliana Valente Pimentel. Quando soube que era finalista do Novo Banco Photo, Pauliana decidiu aprofundar um projeto que já tinha iniciado, em dezembro de 2014, com um grupo de jovens do Mindelo. Steffy, Susy e os seus amigos. "Têm entre 17 e 25 anos e são muito diferentes, uns são transexuais, outros apenas gostam de se vestir de mulher, mas todos eles têm esse apelo do feminino", explica.

O projeto chama-se Quel Pedra, que é o nome dado a uma pedra que existe realmente ali: "Diz-se que quem se sentar naquela pedra se torna gay." Pauliana Pimentel (nascida em Lisboa em 1975) confessa que se sentiu imediamente atraída por aquele grupo de amigos. "Como sempre, nos meus trabalhos, eu preciso de intimidade, preciso de estar com eles muito tempo, até eles quase se esquecerem que eu estou ali. E foi isso que fiz. Vivi com eles, entrei nas suas vidas. Só assim é que foi possível fazer estas fotografias." Da primeira vez, esteve lá três semanas. "Foi o momento da descoberta, do fascínio." Mais tarde, voltou por mais 15 dias, agora já com outro olhar. "Mais introspetivo, mais reflexivo."

Das 300 fotografias que considerou "aptas" selecionou 17 para esta exposição. "Esta foi a história que quis contar, poderia contar outras." Ali estão aqueles rapazes de vestidos tigresse e saltos altos com dificuldade em andar por entre as barracas do seu bairro, numa luta diária pela afirmação da sua identidade. "Nada disto foi encenado", sublinha. A única encenação é da autoria dos atores - um vídeo mostra uma passagem de modelos improvisada, no meio dos escombros, filmada num único take, com os modelos a imitarem os passes e os trejeitos vistos na televisão.

A escolha dos três artistas foi feita por um júri de seleção, representativo do critério geográfico, composto pelo curador David Santos (Portugal), a arquiteta e diretora da Beyond Entropy África Paula Nascimento (Angola), e o artista Pompílio Hilário Gemuce (Moçambique). O vencedor irá receber um prémio de 40 mil euros.

No ano passado, a artista portuguesa Ângela Ferreira foi a vencedora do Prémio Novo Banco Photo, com a exposição A Tendency to Forget, sobre a temática do colonialismo.

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